Não logrou suster as lágrimas, a que os condenados juntaram as suas, dizendo-lhe palavras de conforto, maravilhados com este encontro que lhes fizera conhecer o desgraçado fim da primeira embaixada de uma nação do Ocidente ao reino da China. Fernão assobiou entredentes, lembrando-se de uma estranha coincidência:

– Andávamos no. trato da pimenta – emendara a tempo a palavra corso, ao aperceber-se de que quase se denunciara como corsário –, ao serviço do fidalgo António de Faria, quando tivemos notícia de cinco portugueses cativos em Nouday. O nosso capitão enviou um presente ao mandarim com uma petição para o resgate dos homens, porém ele recusou-se a entregá-los e ainda nos insultou com muita soberba. Acometemos o lugar, a fim de libertar os cativos pela força das armas e o mandarim veio dar-nos combate luzindo uma couraça roxa com cravação dourada, à moda antiga, que pertencera a vosso pai.

– De verdade? Que lhe sucedeu? – perguntou Inês, com os olhos muito abertos e o pranto interrompido.

– O mandarim foi morto e Nouday saqueada e incendiada.

– E a couraça, foi destruída? – havia ansiedade na voz da mulher.

– O capitão Faria guardou-a para si quando soube de quem era. Temo que se tenha perdido com ele e o seu junco, desaparecidos sem deixar rasto durante a tempestade que nos fez naufragar na enseada de Nanquim.

Após uns momentos de silêncio, a filha do embaixador ergueu-se, limpou os olhos e disse-lhes, com um sorriso de gratidão:

– O meu pai guardou algumas cópias das cartas que ele e os companheiros escreveram, durante a sua prisão. Há uma, de um amigo a quem ele muito estimava, que decerto vos prazerá ler.

Foi buscar uma bonita caixa lacada, de onde tirou, com os cuidados de quem guardava uma herança preciosa, umas folhas dobradas, amarelecidas pelo tempo. Passaram-nas de mão em mão num silêncio comovido.

– Esta é de Cristóvão Vieira! – bradou Fernão, depois de ler por alto o manuscrito que lhe coubera em sorte e vendo a assinatura. – Conta os passos dados por Tomé Pires com os do seu séquito, no início dos contactos, assim como o miolo das intrigas dos mandarins contra eles, que causaram a animosidade do Filho do Céu.

Começou a ler em voz alta a longa carta que não só contava a história da malograda embaixada, como fazia uma descrição pormenorizada da China, das suas magnificências e fraquezas. Era mais do que um lamento de prisioneiro ou uma súplica para virem libertá-los, era um apelo ao governador para que enviasse uma armada, em nome d’el-rei de Portugal, à conquista daquele imenso império, mostrando-lhe como seria empresa fácil para os portugueses, visto os chins não serem bons de peleja nem terem grandes defesas nos portos e nas cidades.

– As respostas às cartas não chegaram e os prisioneiros morreram – acrescentou Inês, quando Fernão terminou a leitura. – O meu pai veio desterrado para esta cidade, onde conheceu e casou com a minha mãe, que tinha alguma cousa de seu e se fez cristã. Converteram muitos amigos e vizinhos à fé de Cristo.

A chegada dos upos pôs fim ao encontro e os portugueses despediram-se da sua anfitriã com os olhos marejados de lágrimas. Inês entregou aos guardas um presente para a esposa do chifuu, com uma carta onde lhe rogava que intercedesse junto do marido para que os nove condenados pudessem ficar em sua casa durante os dias que passassem em Sampitay.

Conseguido o seu favor, no dia seguinte agasalhou-os a todos com grande conforto e os presos sentiram-se como se estivessem em Portugal, apesar de falarem chim com a sua anfitriã, os criados e os visitantes. Na casa havia um oratório com uma cruz de pau dourada, ladeada por dois castiçais e uma lanterna de prata, onde os nove portugueses se ajoelharam em oração de graças, na primeira noite em que ali pousaram.

– Devido ao trabalho dos meus pais, há agora mais de trezentos cristãos na cidade e todos os domingos nos juntamos para pregarmos a nossa doutrina. Já lhes mandei recado da vossa presença e amanhã teremos aqui reunião, pois desejam muito fazer-vos perguntas, se estiverdes dispostos a satisfazê-los, posto que, afora Tomé Pires, nunca conheceram outros cristãos.

– Não somos clérigos, mas procuraremos responder o melhor que soubermos – promete Borralho.

Vieram todos. Passado o alvoroço da novidade e do relato da sua história, os portugueses responderam às perguntas que, tanto os homens como as mulheres e até os meninos, lhes fizeram. Era já noite quando foram todos postar-se de joelhos diante da cruz, no oratório, para dar graças a Deus por aquele encontro. Os chins, com as mãos e os olhos erguidos ao céu, disseram em coro:

– Senhor Jesu Cristo, verdadeiro Filho de Deus, concebido pelo Espírito Santo no ventre da Virgem Santa Maria, para salvação dos pecadores, perdoa os nossos pecados para que mereçamos ver a Tua face na glória do Teu reino, onde estás assentado à destra do mui alto Padre nosso que está nos céus, santificado seja o Seu nome. Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, ámen.

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