Ao escurecer erguem-se novamente;

Mas embora a Brilhante Lançadeira voe,

Elas não tecem nenhuma roupa para os homens113

Os tristes acusavam os astros de indiferença face ao seu cativeiro e Fernão sentiu uma leve mágoa, porém o fadário da escravidão fazia parte do bornal de qualquer marinheiro, soldado ou mercador que ousasse navegar naqueles mares. Nos seis anos que levava na Índia já ele passara mais de uma vez por essa mesma desventura.

Sons de festa rasgaram o preguiçoso silêncio e trouxeram vida às quatro embarcações, arrancando os homens do marasmo e fazendo calar a cantoria da chusma. Acercavam-se quatro lanteias de remo, todas engalanadas, a fazerem uma matinada ensurdecedora com atabaques, bacias e sinos.

– Quem são esses, capitão? – perguntou a António de Faria que acudiu à proa.

– Hão-de ser espias do aytao de Tanauquir que vêm em nossa busca! – E começou a berrar ordens em todas as direcções: – Arriai as amarras. Hasteai os estandartes chins. Desenrolai os toldos das gáveas para lhes dar mostras de muita alegria. Tu, assinala aos outros navios para fazerem como nós. Tende as armas prestes e preparai-vos para tudo o que vier.

As lanteias saudaram os juncos, à charachina, com grande vozearia e estrondo de bombardas, respondendo-lhes Faria na mesma moeda de salvas festivas. Os recém-chegados lançaram ferro perto de terra, a um quarto de légua de distância dos portugueses.

– Que querem os malparidos? Má trama lhes dê Deus!

– São espias, não há dúvida. A armada deles deve ter ficado para trás, mas não há-de tardar a cair-nos em cima.

– Boi na terra alheia, vacas o escornam.

Duas horas se passaram neste desconcerto, sem saberem o que fazer; era já noite cerrada quando uma das lanteias se acercou da capitânia.

– Escondei-vos – ordenou Faria aos portugueses. – Quero que eles vejam só seis ou sete matalotes chins, para não desconfiarem da cilada. Tende muito prestes as panelas de pólvora, porque com elas e às cutiladas havemos de os vencer.

O barco acostou e três homens de aspecto honrado subiram a bordo, confiantes e sorridentes.

– Onde está Pham Toan Thang? Dizei-lhe que é Licorpinau, o irmão do anchaci de Colem, quem o busca – bradou o mais velho, mal pisou o convés, em voz animada que o muito vinho já bebido fazia quase estridente. – Estará o filho do chifuu de Pandoree doente? Porque não vai buscar a noiva que veio como terna amante ao seu encontro? Onde pára esse ingrato, que lhe quero entregar esta carta da minha sobrinha, a formosa Chu Huyen? – Com gestos e esgares de exagerada indignação, erguia no ar um pequeno rolo de papel selado com lacre e fita de seda.

Ao brado de Jesus, Jesus, o santo e senha de Faria quando ordenava qualquer ataque, os matalotes saltaram sobre os desprevenidos visitantes, prenderam-nos e atiraram-nos escotilha abaixo para as pitacas114 das mercadorias. No frenesim da bulha, a carta rolou até aos pés de Fernão que a apanhou; tinha o selo quebrado e a fita soltara-se. Ninguém se apercebeu do incidente, porque o capitão ordenara a abordagem à lanteia dos mensageiros.

– Lê-me o que aqui está escrito – disse ao seu moço chim, entregando-lhe a folha, agastado por não saber ler a língua tão bem como a falava.

Estava longe de imaginar o efeito funesto que essa leitura teria na sua alma. O papel perfumado não era um relatório de espionação, nem ameaça de ataque ou ultimato de rendição, era apenas uma carta de amor, no entanto, as palavras nela contidas causaram-lhe mais estragos do que a pior das ameaças. A voz juvenil do moço materializava-as e Fernão sentia-se vibrar com as entoações de dor, dúvida e ansiedade, como se a carta fosse escrita por uma mulher impetuosa e não por uma donzela quase impúbere.

Palavras de paixão desenhadas a tinta por mão de mestra, entrelaçando sentimentos e desejos como fios de um bordado ou renda, cuja magia perdurava longamente depois da leitura acabada. Uma mulher enamorada da sua ideia ou representação do Amor, disposta a afrontar os perigos do mar, as suas tempestades e corsários, para voar com o ímpeto do esfaimado açor ao encontro do seu amado. Capaz de amar até à morte. Como poderia uma casta donzela sentir essa chama tão sensual, que punha na alma de um homem vivido esse fogo que o abrasava? Afortunado Pham a quem estava destinado tão raro tesouro!

Virgem sem mácula, certificada por uma ou mais parentes velhas do noivo, que lhe teriam feito uma inspecção rigorosa a todos os escaninhos do corpo, como era de uso naquelas terras, sobretudo entre gente de qualidade. Não bastaria a perfeição do rosto ou o comprimento, brilho e macieza da cabeleira que ele desejaria segurar entre os dedos como o manto de uma princesa: a noiva não deveria ter sinais ruins, manchas, feridas ou hemorróidas, nem defeitos na boca, no nariz, nos sovacos, nos pés ou nas partes pudendas, para ser declarada intocada, digna não só do leito do primo, como do próprio Filho do Céu.

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