Os portugueses dão graças aos Céus pelo milagre de se verem fora do tronco, livres para andarem por Pequim à sua guisa, até ao dia em que terão de se apresentar na prisão do Xinanguibaleu, a do Encerramento dos Degredados, para irem trabalhar na Grande Muralha da China, no troço da fronteira com a Tartária. Por muito duro que seja o castigo tem sabor de prémio, porque os réus, descrentes da salvação, contavam ser degolados no pátio das execuções como carneiros num açougue.

Jamais esqueceriam o momento em que o chaem os absolvera dos crimes. De respiração suspensa, tinham escutado um dos conchalys da Mesa dos Doze perguntar em alta voz à assistência, por cinco vezes, se alguém punha embargos à sentença ou dúvida de se soltarem os presos. Ninguém respondera e os dois meninos que representavam a Justiça e a Misericórdia tocaram-se com as insígnias, dizendo em voz entoada:

– Sejam livres e soltos, conforme a sentença que justamente se deu.

Um upo dera três pancadas no sino e os dois chumbis libertaram-nos de todas as correntes e foram com eles à prisão fazer os assentos no livro da carceragem, ficando os folangji obrigados a partirem para o degredo dali a dois meses, sob pena, em caso de fuga ou desobediência, de quedarem cativos do rei para toda a vida.

Estão livres, contudo, agora que são senhores do seu destino, não sabem para onde ir ou o que fazer. Condoído do seu desamparo, o chifuu do tronco deu-lhes licença para lá dormirem nessa noite, um favor que eles agradecem de joelhos. A prisão é um lugar familiar onde, libertos das peias, poderão aconselhar-se e pensar no futuro. Precisam de se manter unidos e agir como um só homem ou não conseguirão sobreviver naquela terra tão fora dos seus costumes.

De manhã, quando os quatro tanigores vêm visitar os enfermos, os portugueses esperam-nos à porta da enfermaria. Os Irmãos da Misericórdia felicitam-nos pelo bom sucesso do julgamento.

– Que ides fazer com as vossas vidas, agora que sois livres? – pergunta o mais velho. – Lembrai-vos do que haveis penado aqui e tratai de não cometer os mesmos erros; se vos prenderem de novo, já nada nem ninguém vos poderá valer. O Céu o sabe.

– Somos uns pobres mercadores de Malaca, insignes irmãos, não somos ladrões nem salteadores de estradas! – apressa-se a dizer Fernão, deixando que as lágrimas lhe assomem aos olhos. – Só temos a roupa que trazemos vestida e nos foi dada por vós. Assi, desprovidos de tudo numa terra estranha, de que muitos de nós desconhecem até a língua, que poderemos fazer senão viver da caridade das gentes? Aconselhai-nos, bondosos irmãos: se andarmos a pedir esmola pela cidade, poderemos ser novamente presos e condenados por vagabundos ou ladrões?

Os tanigores ouvem-no sem despegarem os olhos do seu rosto, para não se perderem nas palavras mal pronunciadas; parecem condoídos e, quando ele se cala, entreolham-se como em muda conferência.

– Haveis de conseguir melhor mester do que o de esmolar pela cidade! – diz o ancião. – Vinde connosco a casa do capitão Liu Xugang, que é um homem honrado e amigo dos pobres.

O benfeitor é o monteo, o capitão da justiça que dali a dois meses irá levar os condenados para Quansy! O oficial faz muitas cortesias aos tanigores, incluindo os estrangeiros nos sorrisos e vénias:

– Já comestes?

Os chins são tão amantes da comida que a sua saudação de boas-vindas não é perguntar pela saúde do visitante ou do amigo, mas se já comeu ou quer comer!

– Vinde. Comeremos alguma cousa enquanto falamos do que vos traz à minha modesta casa, indigna da vossa presença.

Sem se mostrar, por trás de uma cortina que tapa a porta de separação entre a sala exterior e os quartos interiores destinados às mulheres, a esposa do monteo dá ordens às criadas para lhes servirem pequenos pratos de comida e uma infusão de ervas que os portugueses se esforçam por engolir sem fazerem caretas de desagrado. O anfitrião mostra muito empenho em comprazer os tanigores, prometendo tomar os estrangeiros sob a sua protecção.

– Vou dar-vos o meu amparo e favorecer-vos, por amor dos Céus e destes santos irmãos que mo pedem – diz-lhes, indo buscar um livro de assentos, onde registou os nomes segundo os sons que ouve a Fernão e a Cristóvão. – Pus-vos ao serviço d’el-rei, de hoje em diante, vencereis o vosso mantimento ainda que não sirvais, porque quero que me fique isto à conta de esmola. Enquanto aqui estivermos, podereis agasalhar-vos com a gente da minha guarda, eu vos proverei de tudo o que for necessário ao vosso mester.

Os tanigores agradecem o favor concedido aos seus protegidos, que se lançam a seus pés, dizendo todas as palavras de louvor e gratidão que conhecem nas línguas do Oriente, com algumas lágrimas à mistura, embora sintam mais vontade de cantar do que chorar.

– Não vos olvideis de agradecer ao Céu o bom sucesso que tivestes neste vosso negócio – dizem-lhes os irmãos, à despedida, dando-lhes quatro taéis de prata –, porque pecareis gravemente se lhe desconhecerdes tamanha mercê.

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