A vida em casa de Liu Xugang é um paraíso. O monteo tem muito prazer na companhia dos folangji, chamando-os para o hitai ou terraço de orvalho, uma varanda assente sobre pilares, com balaustradas de bambu, acobertada por um toldo que a abriga do sol e a mantém fresca. É ali que o capitão e a esposa celebram as festas próprias de cada lua ou mês e, nos restantes dias, se desenfadam com as filhas e a parentela a seu cargo, ora tangendo e cantando, ora pintando e bordando em bastidores. Com elas, Fernão aprende a apreciar o chá, a infusão avermelhada, quente e amarga que os chins oferecem aos seus convidados com um cerimonial de gestos tão solene quanto o dos sacerdotes das missas cantadas.
Como os hóspedes são estrangeiros e os serões se passam dentro de portas, as donas e donzelas da casa não se escondem deles, sendo ouvintes incansáveis das histórias das suas vidas, dos lugares de onde vêm, das viagens que fizeram ou das nações visitadas. É um mundo novo que se abre ante estas mulheres que nunca saíram da cidade porque, para se deslocarem a mais de trinta léguas de suas casas, os chins necessitam de licença dos mandarins, a qual custa caro, nem sempre é concedida ou tarda muito a chegar.
Vendo o interesse de Fernão por tudo o que o rodeia e também pelos livros que Liu Xugang possui, Zhou, a filha mais velha, faz leituras ao serão da Crónica dos Oitenta Reis da China, das Brochas d’O da Vontade do Filho do Sol (de que ele já ouvira alguns textos ao poeta Lin Dan, o seu companheiro de viagem e de ferros pelo rio Batampina) e da Situação de Todos os Lugares Notáveis do Império da China, respondendo às suas perguntas, uma divertida prática a que se junta o monteo para explicar, com grande gosto e paciência, as partes mais difíceis.
– Vou cantar-vos um tzu antigo, um poema musical de Fan Tchong-yen, para alegrar o vosso exílio – diz-lhes Zhou, certa noite, com o doce sorriso que aquece a alma dos exilados.
Celebravam o Duplo Sétimo – o sétimo dia do sétimo mês lunar – em que as meninas, para se tornarem talentosas na arte de bordar, fazem ofertas de frutos e de doces à bodhisattva Guaiyn de mil braços, deusa da misericórdia. A gentil moça toma nas mãos cor de neve o erhu, uma espécie de viola de arco de duas cordas, dedilha-o para avaliar o som e canta:
Insidiosa, todas as noites
A saudade persegue
O espírito do peregrino,
Se não o proteger um suave
Sonho, num sono profundo:
A lua cheia – alto
Pavilhão solitário –
Não te encostes ao balcão!.
E o vinho, no coração despedaçado,
Transforma-se então em lágrimas
Carregadas de mágoas sem fim.
A sua voz, ao mesmo tempo suave e lastimosa, adoça a alma dos desafortunados estrangeiros, desterrados da pátria e da família. A saudade não mata, mas sepulta o coração em vida, pensa Fernão ao ouvi-la com um prazer doloroso, como se nela houvesse incarnado o espírito da sua amada Chu Huyen, quando cantava a sua mágoa pela ausência do noivo a quem fora furtada, enchendo-o de paixão e ciúme.
Acabado o canto, não há um só dos degredados que não tenha os olhos húmidos de lágrimas, por viverem há tanto tempo sem um mimo de mãe, irmã, esposa ou noiva que lhes mitigue o sofrimento. Gaspar de Meireles, cheio de nostalgia, canta-lhes alguns vilancetes, acompanhando-se o melhor que pode com o instrumento chim, em que já tem alguma prática, pelo que todos folgam, aplaudindo muito.
Os portugueses entravam no dia-a-dia da vida de uma família chim, conheciam a sua alma, ideias, tradições e o que viam, ora os maravilhava, ora os assustava ou enchia de asco. Horrorizava-os vê-los comer toda a casta de comida, não fazendo má boca sequer à carne de bichos como a cobra ou o cão; pasmavam com o tamanho dos pés das mulheres nobres, a assomarem sob as suas vestes, calçados de meias brancas, tão diminutos e pontiagudos que parecia milagre poderem andar.
Zhou descrevera-lhe como os pés das meninas, desde a idade de seis ou sete anos, eram enfaixados apertadamente de modo a não poderem crescer, arqueando-os depois, com os dedos dobrados contra a planta do pé até os ossos se quebrarem e tomarem a forma de botões-de-lótus, considerado um grande atributo de beleza que despertava o desejo dos homens. A moça confidenciara-lhe muito orgulhosa que, até quase à idade adulta, sofrera com grande coragem um pungente suplício, quando lhe mudavam as faixas várias vezes ao dia ou dava sequer um passo. E concluíra a lição, contando-lhe a lenda dos botões-de-lótus: