– Diz aqui que Pan Ku saiu de um ovo para criar o Mundo e a Humanidade e, com um golpe do seu colossal machado, separou os dois princípios ou forças Yin e Yang, criadores de todos os objectos e acontecimentos.
– Um ovo de quê? Que cousa é essa?
– Raios partam se t’entendo! Então, esse deus era homem ou pássaro?
– Parece-me que o Yang tem a ver com o macho e o Yin com a fêmea, como o marido e a mulher num casamento – prossegue Fernão, sem se perturbar com a risota. – O marido é o céu, a mulher a terra: o céu é nobre e ocupa o espaço superior, a terra é baixa e ocupa o espaço inferior. O marido é o sol, a mulher a lua; o sol não tem imperfeições, a lua umas vezes é redonda, outras incompleta. O Yang dá vida às cousas, o Yin junta-se a ele e completa-as. Portanto, as mulheres têm como virtudes próprias a gentileza, a obediência e não campeiam pela força ou pelo raciocínio.
– Não está mal vista essa história! – brada Álvaro de Melo. – O homem nasceu pra mandar e a mulher pra obedecer porque, mesmo com freio, elas são a principal causa da perdição dos homens.
– Inda que imperfeitas e perigosas, sinto-lhes a falta. – suspira Meireles e põe-se a dedilhar a viola, de olhar ausente, como quem sonha.
– E eu, de tanto andar à míngua de mulher, até pareço um capado – recomeça Jorge, com o seu jeito mangador. – Já nem consigo levantar o morto!
– Nesta casa as fêmeas são bastas e nada feias, sobretudo a segunda concubina! – regouga Joaquim Pereira, quando os risos esmorecem. – O pior é que passam o tempo fechadas nas estâncias interiores, como as mouras, sem sequer assomarem às janelas, que também são gradeadas.
Cristóvão Borralho acrescenta:
– Só há uma porta de comunicação para as salas e câmaras exteriores que dão acesso à rua, onde o patrão recebe outros homens. Elas só podem aparecer nessa parte da casa quando o monteo as chama, e mesmo assim vêm sempre com um véu a tapar-lhes o rosto.
– Temos tido sorte – contrapõe Fernão –, porque o capitão Liu Xugang honra-nos com a sua amizade e recebe-nos como íntimos, permitindo que as suas mulheres, as filhas e demais parentas estejam de rostos descobertos na nossa presença.
– Isso é verdade – concorda Morosa, vendo como Fernão parece assustado com o rumo da conversa. – O monteo é um homem generoso, trata-nos como gente livre e honrada; não devemos fazer nada que o possa ofender.
– Eu contentava-me com uma serva ou escrava! – suspira de novo Meireles, como se não os tivesse ouvido. – Mas até essas andam guardadas pelos porteiros quando vão fazer recados ou buscar água para o banho das patroas.
– O fruto proibido é o mais apetecido – torna Pereira, mimando o jeito de quem come um fruto sumarento. – Assim, não é de estranhar que pratiquem a sodomia. Se ao menos pudéssemos espreitar as mulheres no banho.
– Está má hora quedo, pela tua negra vida! – grita Zeimoto, furioso. – Queres perder-nos a todos?
– Nem o penses sequer, bargante! – secunda Vicente. – Não cuspas na mão que te dá a esmola ou terás de te haver comigo.
Um rubor irado cobre o rosto de Pereira, ofendido pelo tom dos companheiros, contudo, vendo que ninguém vem em sua ajuda, solta uma falsa gargalhada, protestando:
– Só Jorge Mendes pode dizer chistes? Mais ninguém tem licença pra gracejar?
– Se queres fornicar – espicaça o visado –, nada melhor do que as putas do bairro das lanternas vermelhas! Dizem que são criadas na arte de servir e dar prazer a um homem. Mal receba a soldada é lá que me pilham! Preciso de ressuscitar o morto.
– E vocês – diz Vicente apontando para Fernão, Zeimoto e Borralho –, desta vez hão-de vir connosco para nos servirem de línguas. Não cuidem que escapam!
– Melhor ainda é a sua história da criação do mundo – Fernão volta a pegar no livro, fingindo não ter ouvido o companheiro, mas aproveitando para pôr um ponto final à querela –, que mostra como hão mister pregadores que lhes ensinem a nossa lei. Ora ouvi: O tal Pangu saído do ovo gerou a Terra e o Céu e, decorridos dezoito mil anos, deitou-se a repousar do esforço. A sua respiração criou o vento, a sua voz o trovão, o olho esquerdo o sol, o direito a lua; o corpo reclinado formou as montanhas, os cabos e as raias do mundo. Das suas veias, o sangue fez-se curso de águas poderosas, os rios correram livremente pelas terras, o seu suor, deslizando pelo corpo, gotejou nos solos em chuva benfazeja; dos seus músculos e nervos formaram-se os campos férteis, os seus ossos transmutaram-se em minerais. Por fim, os seres minúsculos que viviam na sua pele foram levados pelo vento da sua respiração e espalharam-se pelo mundo dando origem aos seres humanos.
– É isso que aí vem ou estais a contar inzonas? Parece uma lengalenga para adormecer meninos!
– Ó Fernão, vou deixar de te chamar Mendes e sim Mentes – brada Gaspar.
– E, em vez de Pinto, passa a ser Minto! – acrescenta Álvaro, rindo também.
– Fernão. Mentes? – pergunta Pereira em tom de escárnio e conclui: – Minto!