– Em tempos muito recuados, houve um rei, de nome Li Yu, que tinha uma concubina, Yao-niang, a quem amava sobre todas as suas mulheres, não só pela beleza, mas, principalmente, pelo seu talento na dança. Um dia o rei mandou fazer uma flor de lótus da altura de um homem, para a favorita dançar sobre a sua corola e, para o satisfazer, Yao-niang surgiu vestida de seda branca, bordada a fio de prata, resplandecente como um raio de luar. Maravilhado, Li Yu ordenou que lhe apertassem os pés com ligaduras de tecido, para lhes darem a forma das pontas do crescente da lua. Então, a concubina foi posta sobre a flor de lótus e dançou com tanta graciosidade, leveza e requinte que parecia voar. Todas as damas do reino quiseram imitá-la, passando desde então a ligar os pés para lhes dar a forma que temos agora.

Agradecera-lhe o relato da bonita lenda, sem mencionar a versão menos poética que ouvira aos companheiros de armas, de que a verdadeira razão para tão cruel costume era o ciúme dos homens que não se fiavam nas suas mulheres, visto as chins serem por natureza muito luxuriosas e impudicas; com os pés botos do apertado trato, as infelizes ficavam impedidas de sair de casa, pois pouco podiam andar naquele passo saltitante de tímida ave.

IX

Quem não sobe às altas montanhas não conhece a planície

(chinês)

Informação que um homem honrado, que na China esteve cativo, deu ao P. Mestre Belchior, no Colégio de Malaca:

A cidade principal em que está elRei, que é sobre todas a mais populosa e nobre, chama-se Pequim. Dizem os naturais da terra que se põem para se atravessar em direito sete dias de caminho, e treze em derredor: está cercada com três cercas e um rio mui caudaloso; na cerca mais de dentro está elRei.

Contam os homens grandes maravilhas das riquezas e obras das casas Reais, e todos os paços onde elRei está são rodeados com um braço deste rio, que cerca a cidade por fora. Têm as casas, antes que entrem dentro, sete ou oito portas de fortaleza estranha, as quais lhe guardam gigantes mui grandes .

ElRei afirmam que nunca sai daquela cidade, porque nela tem todos os modos de suas recreações e deleites terrenos e todo o que come se cria dos muros para dentro, nem sai elRei nunca às outras duas cercas de fora nem dizem que é visto senão daqueles que o servem dentro naquela cerca mais interior, os quais são todos capados, filhos de homens fidalgos, e como aí entram dentro, não saem até à morte fora dela.

Tem mais elRei oito fidalgos de seu conselho muito letrados e de grande prudência, com os quais despacha todos os negócios do reino, também estes nunca saem fora da terceira cerca por nenhum caso até à morte115.

Fernão aproveitava os momentos de lazer para vaguear pela cidade e ver à sua guisa o que mal pudera enxergar quando nela entrara metido em grilhões como bicho enjaulado. De início saíra para essas explorações com todos os companheiros, porém, não tardara a evitar a sociedade do bando, porque se tinham formado partidos, havendo entre eles constantes quezílias e desordens em público que escandalizavam os chins. Andava apenas com Borralho e Zeimoto que eram homens cordatos, de bom entendimento e como ele ávidos de novidades.

Entre os três, compraram o Aqusendoo, o livrinho que tratava das coisas da China, para lhes servir de cartilha e aperfeiçoarem a leitura dos caracteres, já que escrever se tornava tarefa assaz difícil, por ser a letra dos chins tão contrária à usada na Europa, bem pior do que a árabe ou a hebreia. O livro continha um manancial de informações sobre a terra e a sua gente, ciência preciosa para qualquer nação que quisesse fazer tratos pacíficos ou até assenhorear-se dela. Ao contrário dos restantes companheiros, sabiam que só teriam salvação e possibilidade de voltar a Malaca, se conseguissem compreender bem o espírito dos chins, se adaptassem e assimilassem o seu viver; podiam comprová-lo pelo modo como os guardas do monteo, seus companheiros de armas, mostravam gosto em ajudá-los na leitura e a esclarecer-lhes as dúvidas.

Todavia, apesar do seu evidente desagrado, para não dizer ódio, àquela terra, quando os nove se recolhiam para dormir, de ânimos sossegados pela ceia e amolentados de cansaço, sempre havia alguém que lhes pedia para contarem uma história ou superstição dos gentios.

– Dói-me ver como uma gente de tanta polícia vive na cegueira e ignorância do Deus verdadeiro – diz Valentim de Alpoim que é, de entre todos, o mais pio.

– São muito idólatras e contumazes – admite Cristóvão Borralho. – Duvido que em algum tempo possa haver cristãos chins! Só se Deus fizer outros de novo, porque estes que ao presente há na terra ninguém os há-de converter.

– O maior estorvo é serem sodomitas – interrompe-o Jorge Mendes, faceiro – e não quererem abster-se do pecado nefando, que entre os baixos é muito geral e entre os grandes pouco se estranha.

Todos riem, acenando a sua concordância. Fernão, que é o melhor contador de histórias do bando, começa a desbravar o texto do Aqusendoo:

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