[Para que vejam] estes meus trabalhos, & perigos da vida que passei no discurso de vinte & hum, em que fuy treze vezes catiuo, & dezassete vendido, nas partes da India, Etiopia, Arabia feliz, China, Tartaria, Macassar, Samatra, & outras muitas prouincias daquelle oriental arcipelago dos confins da Asia, a que os escritores Chins, Siames, Gueos, Elequios nomeão em suas geografias por pestana do mundo, e daqui por numa parte tomem os homens motiuo de se não desanimarem cos trabalhos da vida para deixarem de fazer o que deuem, porque não há nenhuns, por grandes que sejão, com que não possa a natureza humana, ajudada do fauor diuino.

(Da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, dirigida à Católica Real Majestade del Rey dom Filipe o III deste nome nosso Senhor, capítulo I)

Nunca se esquecem as lições aprendidas na dor

(africano)

Carta d’el-rei D. Manuel I ao Papa Leão X:

Com a ajuda de Deus, descobrimos aquele poderosíssimo chefe dos índios e etíopes cristãos, o Preste João, senhor da Província da Abissínia. Nossos antepassados esforçaram-se por descobrir novas terras, mais para benefício da cristandade do que em proveito próprio; nós, seguindo seus passos, fomos melhor afortunados do que eles e descobrimos a Índia e muitas outras províncias. A nós coube unirmo-nos com este grande e poderoso príncipe, que muito desejava nossa amizade e aliança e há alguns anos enviou um embaixador com cartas e presentes e um bocado do lenho da verdadeira cruz.

Finalmente a nossa armada chegou agora às praias e portos do Preste João, e depois de ter sabido alguma cousa daquela gente e distrito, tanto quanto o permitia a brevidade do tempo, e assinar um tratado, e enviar ao Preste João seu próprio embaixador com alguns dos nossos homens, para investigar devidamente os costumes, religião e outros particulares da província.

Lisboa, 8 de Maio de 1521

Dezasseis anos tinham passado sobre a carta jubilosa acima transcrita, que el-rei D. Manuel enviara ao Papa Leão X com a notícia da descoberta do reino do Preste João das Índias, pouco tempo antes da morte de ambos e da chegada a Lisboa de Fernão Mendes Pinto, aos dez anos de idade. Se, então, alguém lhe tivesse dito que haveria de visitar o encoberto imperador cristão da Abássia, tomá-lo-ia como chiste ou zombaria, por lhe parecer coisa impossível, contudo, a realidade que se desdobra ante os seus olhos confirma-o.

Fernão sente nas costas a dureza redonda do mastro onde se apoiou, em busca da sombra protectora da vela, para contemplar à sua guisa Daqhano, o porto de Arquico, no mar Roxo, que se acerca velozmente de encontro ao focinho da Silveira. Com a fusta1 a correr sobre as ondas como um corcel em campo aberto, reconhece quão grande era a sua ignorância das coisas do Oriente que, ao ver pela primeira vez aquele tipo de embarcação à sua chegada a Diu, o levara a desdenhá-la por lhe parecer fraca e perigosa.

Afinal ficara a dever a vida à sua ligeireza e boa navegação durante o ataque do navio mouro, cerca da ilha de Maçuá, que quase metera a pique as duas embarcações às bombardadas. Na violenta refrega, as fustas mostraram-se tão ágeis quanto manobráveis e Fernão vingara o baptismo de fogo que sofrera aos catorze anos de idade, à saída do Tejo, quando corsários franceses tinham tomado o barco de assalto, abandonando-o com outros sobreviventes, nu e aterrorizado, numa praia deserta. Desta vez, as duas valentes tripulações tinham enfrentado e vencido oitenta mouros do mar Roxo, comandados por um renegado maiorquino, a quem aprisionaram junto com os quatro sobreviventes da sua chusma.

Posto a tormentos, o capitão corsário acabara por confessar que a armada de Soleimão Paxá partira já do Suez para tomar Adem e logo seguiria para a Índia, a fim de expulsar os portugueses das suas fortalezas e feitorias. Apesar de instado pelos dois capitães das fustas para se fazer de novo cristão, o homem recusara com palavras duras, mostrando-se tão contumaz e desatinado na sua nova lei que fora lançado vivo ao mar, atado de pés e mãos, com um penedo ao pescoço. Feito o balanço da refrega, viu-se que tinham ido buscar lã para ficarem tosquiados, tendo a presa custado demasiado sangue para o pouco que rendera, porque não se tinham tomado cativos e a carga consistia em tintas de baixo preço.

Embora pobre como antes, é com emoção profunda que Fernão entra no porto de Arquico, lugar assaz importante para os portugueses por ser o único do mar Roxo ainda sob o poder do Preste João.

– Os abexins trazem do sertão muito ouro, marfim, mel e manteiga para trocar aqui, em Daqhano, por panos que nesta terra são muito caros.

Desvia os olhos da paisagem e presta atenção à prática entre o soldado veterano e o padre que embarcou com eles para conhecer aqueles antigos cristãos, conforme afirma nesse preciso momento:

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