– Ouvi dizer que não são como os de Çacotorá, descendentes dos cristãos do bem-aventurado apóstolo S. Tomé, mas das doze antigas tribos de Israel e eu quero certificar-me se o seu baptismo é, segundo me disseram, tomado com três cerimónias: a do sangue, em que são circuncidados como os judeus; a do fogo, para gravar com ferro em brasa uma cruz na testa e nas fontes do neófito; e a da água, que é igual à nossa. Receio que andem a praticar heresias, por viverem há tantos centos de anos cercados de infiéis.
O soldado parece mais interessado nos tesouros da terra e a sua voz soa sonhadora:
– Dizem que o Negusa Nagast ou Rei dos Reis, como também é por aqui nomeado, mora num palácio todo revestido de ouro e riquíssima pedraria. Muito me prazeria vê-lo!
– Numa carta escrita pela sua própria mão, há mais de quatrocentos anos, o imperador que então reinava dizia que o seu leito era de safira, a pedra da castidade. Apesar de possuir várias esposas formosíssimas, elas só podiam ter conversação com ele quatro vezes por ano, para a procriação de filhos, regressando logo aos seus aposentos, santificadas como Betsabé por David. Temo que este Preste também tenha várias esposas como os mouros.
– É uma terra de prodígios! Há uma raça de homens com cornos, outra com olhos adiante e atrás na cabeça ou só com um olho na testa e também uma gente sem cabeça, com os olhos e a boca no peito, com o comprimento de doze pés e a largura de seis. E há mulheres com grandes corpos e barbas até às mamas que andam com as cabeças rapadas, se vestem de peles e são óptimas caçadoras.
Calam-se e Fernão sente-lhes nos corpos que se inclinam da balaustrada um prazer igual ao seu na antecipação da descoberta, embora por distintos motivos. Reconhece na prática dos dois homens os mitos que correm no Ocidente sobre o fabuloso reino do Preste João, suscitados por uma carta supostamente escrita por um antepassado do imperador abexim, em que descrevia o seu imenso poder e riqueza. Na corte portuguesa, graças às embaixadas que o visitaram, sabe-se que o reino já pouco guarda desse esplendor, se porventura o teve em tempos recuados, não sendo agora senão um povo de negros que, embora cristãos, vivem como cafres2.
Retoma a sua observação do cais, onde se vê claramente, num grupo de negros a cavalo, um homem branco a agitar freneticamente os braços, saudando as fustas. Tem vontade de corresponder a essa saudação, como se lhe fosse especialmente dedicada, um convite para entrar nesse mundo privilegiado e misterioso, de que ele se tornou merecedor ao receber o seu baptismo de sangue nas Índias, lutando contra os mouros, na eterna guerra da Cruz e do Crescente, da Cruzada e da jihad.
Navegara seis mil léguas por mar, de Lisboa à Índia, uma penosa viagem devido ao confinamento no espaço exíguo da nau Frol de la Mar de quase duas centenas de pessoas, forçadas a verem as mesmas caras, seis meses a fio, até já não as poderem sofrer; uma tortura agravada pelas más condições de alojamento, imundície, cheiros nauseabundos e, sobretudo, pragas de ratos, baratas, pulgas e piolhos, que eram o pão-nosso-de-cada-dia nos navios daquela longuíssima carreira.
A navegação decorrera sem acidentes graves de tempestades, calmarias ou doenças, tirante alguns casos de pneumonia entre a gente mesquinha que se embarcava para a Índia como quem ia para Almada; desprovidos de tudo, durante mais de seis meses, viajavam mortos de fome e quase nus, dormindo ao relento no convés da primeira coberta, expostos ora à torreira do sol, ora à inclemência das chuvas e do frio de dois Invernos e dois Verões, segundo as partes do mundo por onde passavam.
No comando da Frol de la Mar – nome posto em honra da nau de Afonso de Albuquerque que se afundara com todo o tesouro da conquista de Malaca – ia Lopo Vaz Vogado, capitão ordinário de viagem, que não sofria desobediências, por isso haviam sido pouco frequentes as rixas entre matalotes e soldados, causadas quer pela jogatina, quer por algum furto ou pela primazia do uso do forno, quando lhes permitiam cozinhar. De pronto dominadas, antes de causarem morte ou ferimentos graves, com os desordeiros postos a ferros ou condenados a penas de açoites, tinham servido de distracção à mesmice da viagem, porque as punições eram administradas com muita solenidade, na presença de todos os tripulantes e passageiros, estes últimos procurando disfarçar o mareio provocado pelo som dos tambores, dos silvos do látego e dos uivos dos condenados.
Fernão viera com comida e catre assegurados na segunda coberta, a dos oficiais, graças à influência do seu protector Francisco de Faria, a quem servira durante quatro anos, findos os quais o amo o fizera entrar para moço da câmara do Senhor D. Jorge – o Mestre da Ordem de Santiago e filho bastardo d’el-rei D. João II. Como a paga mal dava para se sustentar, passado ano e meio, anunciara-lhes a sua decisão de partir para o Oriente em busca de fortuna.