Todos os parentes da defunta compram aos sacerdotes do pagode letras de câmbio, para ela ter dinheiro no Céu, assim como algumas caveiras, para que o porteiro do Paraíso, vendo a sua alma acompanhada destes servos, a receba como pessoa de qualidade e a deixe entrar, pois se for sozinha não lhe abrirá as portas.
– Letras de câmbio da terra para o Céu? – murmura Zeimoto, incrédulo.
– Os monges dizem-lhes que sem estes câmbios se não podem salvar por nenhuma via.
– E esta gente, de tanta polícia, crê nestes sacerdotes de Satanás?
– Não vejo grande diferença entre estas letras de câmbio dos gentios e as indulgências que pagamos à nossa Santa Madre Igreja, para os nossos pecados nos serem perdoados – retorque Fernão e cala-se, arrependido do desabafo que, se chegasse aos ouvidos das autoridades portuguesas, lhe poderia trazer dissabores; sossega-o o pensamento de que os amigos jamais o denunciariam por herege ou cristão-novo.
Terminadas as cerimónias, com a libertação de pombas e outros pássaros cativos a fim de ganhar a benevolência dos deuses e a sua permissão para a alma da defunta se libertar da terra e subir aos céus, o monteo entrega no templo a parte do legado da sua parente destinada ao imperador – uma obrigação de todos os que ali têm os seus ossos, que é honrada pelas suas famílias, cujos legados se destinam a alimentar no tronco do Xinanguibaleu os trezentos mil presos que ali vivem encerrados, enquanto não vão cumprir pena de trabalhos forçados na Grande Muralha.
Enquanto as mulheres regressam a casa, o monteo leva toda a companhia masculina a banquetear-se em honra da morta, incluindo os três degredados no seu convite e, durante o festim à charachina, roga-lhes que contem a sua aventura amorosa, para lhes alegrar a tristeza. Os folangji já não estranham que os chins festejem a morte com alegria e, em paga da generosidade do amo, decidem contar-lhes a sua ida ao Mercado dos Cavalos Magros, cada um tratando de embelezar o feito para maior agrado dos ouvintes.
– Quando recebemos a primeira paga do notável e generoso capitão Liu Xugang – começa Fernão, com as costumeiras zumbaias tão do agrado dos chins –, quase perdemos o siso, de tão felizes por estarmos livres e a trabalhar em casa de pessoa de tanta qualidade que nos punha dinheiro no bolso.
– Tendo passado mais de um ano presos, desterrados da nossa nação e das nossas famílias, à espera da morte – acrescenta Borralho –, era mister espairecer e nós os três fomos em busca de um tasco para beber um copo e alegrarmo-nos.
.Andávamos já há algum tempo a percorrer o bairro de tavernas e estalagens da cerca exterior, mirando de fora, sem nos decidirmos a entrar em nenhuma, por medo de sermos roubados ou enganados. Ouvimos falar tanto de um certo Mercado dos Cavalos Magros que o quisemos visitar e perguntámos onde era. A nossa pergunta causou grande riso, decerto por falarmos mal a língua, mas, conhecendo-nos por estrangeiros, logo nos ensinaram como lá chegar, assegurando-nos de que seríamos muito bem recebidos.
A rua assinalada era igual às outras, com tendas de desvairados produtos, tascas e casas de chá, tendo às portas homens e mulheres a chamarem os fregueses. Como íamos honestamente trajados com as roupas oferecidas pelo nosso generoso capitão, mal perguntámos onde podíamos mercar os ditos cavalos magros, fomos agarrados por uma multidão de solícitos vendedores que quase nos despedaçaram. Um gigantesco eunuco levou a melhor sobre a concorrência e arrastou-nos de supetão para dentro de uma casa.
Surpreendeu-nos ver, em vez de uma cavalariça ou picadeiro com as ditas alimárias magras, uma sala bem concertada com mesas, bancos e cadeiras onde se sentavam algumas moças, por sinal, bem gentis. A patroa fez-nos sentar, bateu as palmas e ordenou:
“– Menina, cumprimente Suas Senhorias”.
Uma das meninas ergueu-se do banco e acercou-se com o andar saltitante de pássaro, ao modo das donzelas de qualidade, curvou-se em graciosas vénias, serviu-nos chá e doces com muito primor.
Por duas vezes a matrona bateu as palmas e as duas moças que acudiram ao chamado vieram saracotear-se ante nós, ora virando-se de costas ora de frente, erguendo um pouco a falda da veste para mostrar os pés pequeninos, expondo o rosto à luz para que a víssemos bem e retirando-se em seguida.
Sem saber o que dizer ou fazer, olhávamos uns para os outros, alparvados, percebendo por fim que nos achávamos num mercado para comprar mulher ou concubina. Quando a terceira moça acabou a sua apresentação, levantámo-nos de chofre e saímos a correr, empurrando uma multidão de solicitadores que nos esperavam e nos perseguiram quase até casa.
– Eram bem bonitas, as meninas! – exclama Zeimoto, a concluir a história dos desamores dos folangji, contada a três vozes, para grande gáudio dos convivas que, por diversas vezes, os haviam interrompido com estrondosas gargalhadas e ditos brejeiros.
– Devíeis ter tomado um pouco de âmbar, que é o melhor remédio para uma boa cópula, com homem ou mulher.