Escutando os mexericos das aias e servas, fiquei a conhecer a história dos seus amores contrariados, do casamento arranjado pelo pai, que a oferecera a Francisco Faria, um homem abaixo da sua condição, em vez de a dar a Manuel Freire, cavaleiro da casa d’el-rei, o eleito do seu coração. Diziam ainda as alcoviteiras que o sogro, Antão de Faria, tratara de mover influências e conseguira afastar o rival do filho para as praças de África, a ver se, com sorte, os mouros o matavam.

Apesar da minha pouca idade, apercebi-me cedo da frieza entre D. Joana e o marido, ressentindo-me da maneira brusca como ele a tratava, deixando-a muitas vezes em lágrimas, que ela procurava disfarçar diante dos criados, mas não na minha presença. Nesses momentos, servia-a com maior diligência, tentando adivinhar-lhe os pensamentos, contando-lhe alguns mexericos e chistes, como se fora um bobo do paço, até a fazer rir. Durante as prolongadas ausências do marido em Palmela, de cujo castelo era alcaide-mor, D. Joana transformava-se em outra mulher, mais parecendo irmã do que mãe dos seus filhos, abarcando-me nessa auréola de carinho. Eu adorava-a a ponto de jurar que daria a vida por ela, o que, por pouco, não aconteceu.

No ano de vinte e três, estava eu há quase um e meio ao seu serviço, a minha ama chamou-me, estando só, para me dizer num sussurro:

– Fernão, sabes que te estimo muito, não sabes?

Senti o rosto a arder e tentei responder-lhe como um gentil-homem:

– Bondade vossa, Senhora. Estarei sempre ao vosso serviço enquanto me quiserdes e para tudo o que desejardes.

– Tudo? – sorriu com agrado e procurou os meus olhos que não se desviaram: – Sabes guardar um segredo?

– Senhora, sim!

– Preciso que me faças um serviço. – deixou de sorrir e hesitou, antes de concluir – arriscado.

Arrepiaram-se-me as carnes, mas volvi-lhe sem hesitar:

– Tudo farei, Senhora, para bem vos servir.

D. Joana afagou-me o rosto com as pontas dos dedos e eu corei de novo como uma donzela.

– Vai ao pavilhão de caça e entrega esta carta a um homem que lá está, mas antes pergunta-lhe como se chama. Só lha darás se o seu nome for Manuel Freire.

O amado da sua mocidade! O cavaleiro d’el-rei não morrera em Arzila, pelo contrário, fizera serviços de monta, casara por sua vez e tinha também três filhos. Que queria ele dela, surgindo assim ao fim de dez anos, perdidos os primores da juventude, casados ambos e com filhos? Nesse tempo, eu era tão moço que não sabia ainda como o amor pode ser insano e maravilhoso, capaz de fazer os amantes renascerem, como a Fénix das cinzas. Isso só haveria de aprender mais tarde.

Cala-se, de voz embargada e os companheiros sabem que ele se refere aos seus amores infelizes com a Noiva Roubada. Esperam em silêncio que ele se recomponha e recomece:

– Enfim, dei conta do recado e, desde esse dia, fiquei refém dos dois amantes, levando e trazendo mensagens como um alcoviteiro, ajudando aos encontros furtivos no pavilhão de caça, encobrindo a ausência da senhora, enganando aias e criadas com manhas que ia aperfeiçoando até me tornar mestre nelas. Contudo, não bastaram para o encobrimento da história.

Nunca cheguei a saber quem nos atraiçoou, porque, conhecendo o meu papel na aventura, todos se calavam mal me viam por perto e ninguém se descosia com chistes ou perguntas, agindo como se de nada desconfiassem.

Nessa noite, D. Joana chegou primeiro ao pavilhão e eu, como sempre, montei guarda do lado de fora, protegido pelas sombras, esquadrinhei a quinta com o olhar, não vendo qualquer movimento suspeito nos jardins, entre as casas dos caseiros ou dos serviçais. Quando Francisco de Faria estava ausente, o paço parecia deserto, sobretudo àquela hora nocturna.

Manuel Freire abriu o portão com a chave que D. Joana lhe enviara com a primeira carta e entrou tranquilo no parque, acolitado pelo primo, Fernão Peres de Andrada, pois não era seguro andar sozinho àquela hora perto da Porta de Alfofa. Ao chegarem às primeiras árvores da quinta, cinco vultos embuçados – ou antes quatro, porque o mandante manteve-se imóvel, à distância – saltaram-lhes em cima, derrubando Peres de Andrada com uma cacetada e ferindo Manuel Freire às cutiladas.

Escondi-me, quase desacordado de terror, vendo fugir o amante malferido, com os quatro meliantes a morder-lhe os calcanhares, porém o amo deu um brado, fazendo o seu fiel mouro deixar a perseguição e voltar para trás, talvez para acabar com o cúmplice do adúltero. Andrada recuperara entretanto os sentidos e, aproveitando-se da distracção do bando que se encarniçava contra o primo, escapara por entre as árvores.

Quanto a mim, não ousava bulir do buraco onde me refugiara, mal vira o ataque traiçoeiro. Então, Francisco de Faria entrou no pavilhão seguido do mouro. Ouvi o choro de D. Joana, cada vez mais forte, que me cortava a alma e o som abafado da voz do marido. Por fim, soou o grito irado:

– Confessai os vossos pecados, se quereis salvar a alma.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже