Fernão estranha não ter achado nenhuma descrição da Muralha em Il Milione, o livro de Marco Polo, que lera em casa do Senhor D. Jorge. Mas se o grande viajante não pudera falar dela fora pela simples razão de que, quando visitara a Tartária, a Grande Muralha ainda não estava construída; as defesas de então não passavam de pequenos muros de taipa e terra em volta das aldeias ou vilas. A portentosa obra começara com os primeiros imperadores da dinastia Ming, há pouco mais de cento e cinquenta anos; ninguém sabia quando terminaria.
Os chins chamavam-lhe Wanli Changcheng, a Muralha comprida de dez mil li123, correspondendo cada li ao espaço em que se pode ouvir um brado humano em campo raso, num dia quieto e sereno, portanto, cerca de trezentos passos. Dez li faziam um pu, que são duas milhas e meia, e dez pu um ichã.
A parede era de seis braças de altura e quarenta palmos de largo e, das quatro braças para baixo, havia um entulho a modo de terrapleno, alamborado da face de fora de um betume como argamassa, quase duas vezes mais largo que o mesmo muro, tão forte que nem mil basiliscos o poderiam derrubar. A sua construção e manutenção eram asseguradas pelos degredados, enviados da prisão de Xinaguibaleu, sem outra paga além da comida que comiam.
A Muralha estendia-se por mil léguas de fronteira, de nordeste a sudeste, correndo por planuras e entre as serras de Meiling – que serviam de tranqueiras, todas chanfradas ao picão –, ora subindo por encostas a pique até desaparecer por entre nuvens, ora descendo pelos vales mais fundos até aos rios. Tinha trinta mil torres de dois sobrados, cujas sentinelas, ao mais leve sinal de perigo, davam alarme à guarnição ou faziam avisos com fumo e bandeiras durante o dia ou com fogo em cestas de arame que subiam e baixavam por meio de um aparelho de barras.
A defesa de Wanli Changcheng estava a cargo de cento e sessenta mil homens, distribuídos em toda a sua extensão por trezentas e vinte capitanias, com seus funcionários, oficiais de justiça, upos da guarda dos anchacis – os juízes provinciais –, dos chaens e de outra gente necessária ao seu governo. Shanhaiguan, o primeiro troço da Muralha, era de trezentas e quinze léguas, com cinco entradas pelos rios da Tartária, cada uma guardada por seis mil homens a pé e a cavalo, muitos deles estrangeiros.
Fernão e os companheiros exercem o honrado ofício de alabardeiros há quase um mês, sendo convidados muitas vezes para as casas dos mandarins e gente nobre, que os recebem como em Pequim, com grande agasalho, sentando-os à sua mesa a comer e beber com eles. Com tão boa fortuna os degredados começam a acalentar o sonho do regresso a Cantão, antes de seis meses, de onde poderão partir para Malaca com a ajuda dos compatriotas aí residentes.
Não tardariam a despertar da ilusão, fosse porque o Demónio, invejoso da sua paz, viesse meter o bedelho e semear a discórdia entre os cativos ou tão só porque está na natureza dos portugueses serem muito opiniosos, senhores dos seus narizes, ciosos da sua honra, incapazes de sofrer com paciência e cortesia a opinião dos seus contrários, mesmo sobre frioleiras mesquinhas, passando num piscar de olhos da conversa animada à disputa exaltada, dela aos doestos mais soezes de regateiras, daí às mãos ou às armas, com feridas e mortes.
Nesse dia, nenhum sinal funesto pressagiara desgraça, muito pelo contrário, depois de acompanharem o chaem na sua ronda pela muralha, os nove degredados desenfadavam-se comendo e ouvindo as canções de Gaspar e dos alabardeiros chins, recebidas de parte a parte com muitos aplausos e assobios de apreço. A voz do gordo Pei tremula de emoção com os versos de uma balada que remonta aos primeiros tempos da construção da Grande Muralha:
Tártaros agrilhoados!
Tártaros agrilhoados!
As orelhas furadas,
As caras pisadas,
Às terras dos Han conduzidos.
O Filho do Céu celeste
Condoeu-se da sua sorte
E não lhes deu a morte.
Mandou-os para Sudeste
Aos reinos de Wo e Yueh.
O canto é abafado pelo som da briga que estala entre Joaquim Pereira e Álvaro de Melo, os mais arredados do grupo:
– Os Fonsecas sempre foram do partido d’el-rei que lhes deu grande moradia em suas casas, melhor que a dos Madureiras.
– De modo nenhum! Os Madureiras são fidalgos mais antigos e de melhor geração do que os Fonseca. Estais a rir de quê?
– Dessa atoarda que dizeis! Os Fonsecas remontam ao conde D. Pedro, juntamente com os Soveral.
As vozes elevam-se desabridas, interrompendo a canção do eunuco e o coro dos companheiros, ateando-se como fogo em palha e propagando-se a toda a companhia num incêndio impossível de conter, de funestas consequências.
– Mentis como quem sois! – berra Pereira em sanha. – Os Madureiras sempre tiveram precedência sobre os Fonsecas. Como ousais falar do que desconheceis, bargante malparido?
– Quem sois vós, para dizer tal cousa? – vocifera Melo. – Não passais de um vilão, com fumos de nobreza! Vede com quem falais, cabrão sem nome nem vintém! Quem sois.