Não esperei mais. Não duvidava que D. Joana seria degolada pelo mouro (ouvira-o gabar-se dos muitos que despachara desse modo), a que logo se seguiriam os que haviam tomado parte na traição do adultério.

– Para me salvar – conclui Fernão, de cabeça já desanuviada pelo fresco da noite –, fui forçado a deixar a casa, naquela mesma hora, fugindo com a maior pressa que pude. Indo eu assim desatinado, por pouco não esbarrei na sé com os três fideputa que acabavam de matar a Manuel Freire. Quase borrei os calções, temendo que me conhecessem e segui correndo como quem vê a morte diante dos olhos a cada passo. Só parei no cais da pedra, onde achei uma caravela de Alfama que ia com cavalos e fato de um fidalgo para Setúbal. Como os ares andavam perigosos, não só pelos amores de Alfofa, como também da peste em Lisboa, nela me embarquei. Cuidando escapar do perigo, fui achar outro igual ou pior, nas bandas de Sesimbra, porque nos tomou um cossairo francês, o primeiro dos muitos ladrões do mar com que topei na vida. Mas isso é conto para outra ocasião, que já chegámos a casa, onde nos espera o leito que amanhã é dia de trabalho.

– Quem havia de dizer que o grande Fernão Peres de Andrada andou metido em negócios de adultério e morte!

– Como o mundo é pequeno.

– Muito boa história, Fernão Mendes!

Graças à benevolência do monteo e à curiosidade dos seus amigos, os dois meses e meio de espera para o degredo na Grande Muralha passaram quase sem os portugueses darem por isso. Quando Liu Xugang lhes anunciou a partida, marcada para sábado, treze de Janeiro, a dura realidade caiu-lhes em cima com a contundência de um raio, lançando-os de novo em negro desespero.

120 In Códice 979 da Biblioteca Nacional de Lisboa, fl. 221, As Linhagens de Portugal, de D. António de Lima.

XIV

Quando de cada oito marinheiros, sete são timoneiros, o navio vai a pique

(chinês)

Libelo do Promotor da Justiça de Quansy contra os folangji:

São os presos gente sem temor nem conhecimento de Deus, nem têm mais que confessado com a boca, como podia fazer qualquer animal bruto, se soubesse falar, porque de crer é que homens de uma nação, de um sangue, de uma carne, de uma terra, de um reino, de uma língua e de uma lei que se ferem e matam tanto sem piedade, sem haver causa nem razão para isso, pelo qual, conforme à lei do terceiro livro das brochas d’ouro da vontade do Filho do Céu, por nome Nileterau, os devem desterrar de toda a comunicação da gente como praga contagiosa e peçonhenta e que a sua habitação seja nos montes de Chabaqué, ou Sumbor, ou Lamau, para onde se costuma desterrar os tais como eles, para que lá ouçam bramir de noite as feras silvestres, que são da sua mesma progénie e vil natureza.

(Peregrinação, capítulo CI)

Quando se apresentara ao serviço, em Quansy, Liu Xugang tecera tais palavras de louvor aos nove estrangeiros que o chaem da Grande Muralha ficara cheio de curiosidade em os conhecer e mandara-os ir à sua presença para os interrogar em pessoa sobre as suas vidas, os lugares de onde vinham e se eram gente de peleja.

– Embora não passemos de mercadores, Excelência – responde-lhe Zeimoto, com muito acatamento, secundado por acenos afirmativos de Fernão e de Borralho –, uma vida de infortúnios e maus encontros com os wokou121 adestrou-nos no exercício de várias armas.

O mandarim manda-os escaramuçar entre si com espada e alabarda, mostrando-se muito satisfeito com o que viu:

– Liu Xugang, quero estes folangji na minha guarda de alabardeiros. Leva-os ao capitão, para receberem o equipamento.

Retiram-se com muitos agradecimentos e zumbaias à charachina e o monteo diz-lhes, com agrado:

– Grande favor vos fez o chaem, que tal mercê raras vezes é concedida a um preso! O Céu o sabe. Honrai-o sempre e em breve sereis livres de volver à vossa terra.

Era a liberdade ainda antes de cumprirem a pena e os portugueses não se cansam de dar graças a Deus por os ter protegido naquela provação. A Fortuna sorria-lhes de novo, desta vez com maior liberalidade, pois passariam os seis meses de degredo no ripanço, com pouco trabalho, boa paga e melhor comida, no troço de oitenta alabardeiros de escol que compunham a guarda do chaem.

Nada de partir pedra, acarretar tijolo, fazer cavas e fossos ou carregar entulho para a construção da Muralha que Fernão acha admirável, mas cuja obra custara a vida a centos de milhar de homens, consumidos de febres e exaustão. Quando os guardas não estavam por perto, ouvia-se a canção dos condenados:

Se uma filha te nascer,

afoga-a,

Se um filho te nascer,

não o cries.

Não vês como a Muralha Comprida

Se está a erguer

sobre montanhas de mortos?122

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