– Parecemos um bando de salteadores de estradas, fazemos-lhes medo – concorda Vicente. – As mulheres viram-nos as costas ou fecham as portas, sem nos darem um ceitil.

– Julgo que será de maior proveito se nos dividirmos em pares, cada parelha para sua tarefa, a começar desde já. Fernão e Álvaro irão buscar água, enquanto o Zeimoto faz o comer com o que puder arranjar. Tu, Gaspar, como os chins gostam de te ouvir, vai tanger pela cidade com o Joaquim que, por ser maneta, talvez logre maior esmola. Os restantes venham comigo ao mato catar lenha para nosso gasto e para vender.

Fora uma boa estratégia que não tardara a dar frutos, trazendo alguma melhoria à vida dos degredados e paz ao grupo que amordaçara ou adiara os antigos ressentimentos. Na semana seguinte, a tarefa de apanhar lenha coube a Fernão e Gaspar que se dirigiram para a porta da cidade de acesso à floresta, cruzando-se na rua principal com um cortejo fúnebre de grande pompa e fanfarra de muitos instrumentos. Afastam-se respeitosamente para o deixarem passar, mas o mestre da música reconhece o folangji tangedor e agarra-o por um braço.

– Rogo-te que cantes o mais alto que puderes – diz-lhe, autoritário, metendo-lhe uma viola chim na mão –, para que te ouça este nosso defunto que vai muito triste com a saudade da mulher e dos filhos que muito amava.

Fernão não ousa fazer sequer um gesto para impedir que os festivos carpideiros levem o companheiro a tanger e a cantar, até ao sítio onde vão cremar o morto. Ainda hesita em acompanhá-los, mas como estão muito faltos de torgas para fazer lume, segue para o bosque, onde junta um feixe de lenha tão grande quanto a fraqueza do corpo lhe permite levar às costas.

Regressa ajoujado do peso, com o suor a escorrer-lhe pelo rosto e o corpo, quando ouve alguém escarrar à entrada de uma azinhaga do mato, como se quisesse chamar-lhe a atenção. Olha em sobressalto para o velho que parece esperá-lo e lhe acena com a mão.

– Chamas-me? – pergunta Fernão em língua chim e o velho acena-lhe de novo.

Apesar de estar vestido como homem abastado, com roupas de damasco preto forradas de peles de cordeiro branco, o português não lhe distingue as feições e receia que aquela cena seja negaça de ladrões para lhe tomarem a lenha, o único bem que tem consigo e lhes pode aguçar o apetite. A experiência ensinara-o que aquela gente só não roubava ou enganava quando não lhe davam ocasião para isso.

Pousa o feixe no chão, agarra no varapau que sempre traz consigo para caminhar ou se defender em caso de necessidade e avança em passo decidido para o velho que, sem parar de lhe acenar para que o siga, se mete apressadamente para dentro da azinhaga. Convencido de que o homem é ladrão e se prepara para o assaltar, Fernão arrepia caminho a toda a pressa, põe o feixe às costas e trata de fugir para a estrada de acesso à cidade, onde há sempre gente.

Ouvindo o homem escarrar muito mais alto, olha para trás, no temor de ser perseguido e caçado pelas costas, mas estaca de chofre, deixando tombar o feixe, espantado com o que vê. O velho, de joelhos, segurava nas mãos erguidas uma cruz de prata de um palmo de comprimento, fazendo-lhe ao mesmo tempo trejeitos piedosos e acenos para que se acerque. Ainda hesitante, agarra no cajado e segue-o quando ele entra de novo na azinhaga, parando uns passos mais à frente à sua espera.

Fernão avança até ficar diante dele e vê com surpresa que o homem não é chim. Dá um salto para trás quando ele se lança novamente de joelhos, com as lágrimas a correrem-lhe em fio dos olhos, dizendo por entre soluços:

– Louvado seja Jesus Cristo porque, ao cabo de tanto tempo e em tamanho desterro, permitiu que os meus olhos vissem um cristão de Portugal!

Fernão julga perder o siso de puro terror, ao ouvir a assombração – que outra coisa não pode ser aquela criatura –, a falar em português e brada-lhe com um grito esganiçado, enquanto se persigna enfrenesiado:

– Eu te esconjuro, da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo, que me digas quem és!

– Sou Vasco Calvo, irmão meu, para te servir – apresenta-se o homem, dominando o choro e fazendo um gesto apaziguador. – Sou natural de Alcochete, de onde tomei a alcunha por que todos os portugueses me conheciam na Índia. Sei que Inês de Leiria te falou de mim, pois escreveu-me sobre os cativos portugueses que recebera em sua casa quando iam a caminho de Pequim.

Fala com uma alegria ansiosa, como se temesse ver o seu interlocutor desfazer-se em fumo ante os seus olhos. Fernão, já recomposto do susto, ajuda-o a erguer-se, misturando as suas lágrimas às dele.

– Por nossos pecados, porque somos como alimárias selvagens, fizemos zacapela, perdemos o posto de alabardeiros e a esperança de regressar a Malaca ou a Goa. Estivemos muito tempo em ferros e ainda andamos vigiados.

Vasco Calvo acena, como quem já ouviu falar daquele mau sucesso, retomando o seu relato:

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