– O embaixador chegou a Nanquim, em Maio, Zhengde recebeu-o com festas e banquetes, enviando-o de seguida para Pequim com a promessa de despacho. Ora, o imperador só voltou para a capital em Fevereiro do ano seguinte quando a embaixada já estava comprometida porque Zhengde tinha recebido cartas dos lauteaas de Cantão e uma do embaixador d’el-rei de Malaca, com muitas queixas contra os portugueses. Por último, tudo se complicou com a sua morte e a subida ao trono de Jiajing que agora governa. Então, já eu fora feito cativo pelos chins, quando os seus juncos de guerra nos começaram a dar caça, mas, como os prisioneiros portugueses só podiam ser condenados à morte pelo rei, acabei também por ser enviado para Pequim e posto no mesmo tronco do embaixador. Foi aí que o vi pela primeira vez.

A tarde declinava, contudo Fernão mal se dá conta da passagem do tempo, preso das palavras de Calvo, de todo esquecido do feixe de lenha ou dos seus companheiros de infortúnio. O homem não fizera parte da embaixada, mas ouvira da boca do próprio embaixador o relato da sua odisseia.

– Todas as tentativas do governador para vos libertar foram vãs – diz-lhe à laia de consolo. – Os mandarins não recebiam os nossos capitães e a armada chim perseguia-nos quer nos mares quer em terra como se fôssemos cossairos.

Vasco Calvo interrompe-o, com amargo ressentimento:

– Muitos dos nossos cativos foram justiçados com mortes terríveis e os sobreviventes desesperaram da vida, encarcerados anos a fio nos troncos. Sabíamos que só seríamos libertados se a nossa armada atacasse Cantão e se assenhoreasse de toda província. Cristóvão Vieira chegou a escrever ao capitão-mor um rascunho da carta que ele deveria enviar aos mandarins, quando a nossa armada entrasse no estuário do rio das Pérolas, com o ultimato para a nossa libertação. Com risco da minha vida, também eu escrevi cartas ao capitão-mor e ao governador, com um plano bem esmiuçado para conquistarem a cidade e província de Cantão, sem grande trabalho e pouco custo, dizendo-lhes como este povo é fraco na guerra e se fecha em casa quando há perigo, obedecendo a quem mais pode.

– Quanto a isso, tendes razão! Os nossos talvez até fossem recebidos de braços abertos pelos milhares de presos dos troncos e pelos que andam a monte por se amotinarem contra os mandarins. Em todos estes anos não vos veio nenhuma resposta do governador da Índia ou d’el-rei?

– Ninguém fez caso de nós. De nada valeram as nossas cartas e o perigo em que nos pusemos para as escrever, pois até os nossos moços para terem o favor dos tronqueiros nos denunciavam.

A sua voz ressuma de amargor e as lágrimas brilham-lhe de novo nos olhos. A tarde chegava ao fim e Fernão despede-se.

– Os meus companheiros decerto folgariam muito em vos ver e ouvir. Como e onde nos poderemos reunir sem perigo? De dia andamos mais à nossa guisa pela cidade ou pelo campo a ganhar o nosso sustento.

– Vinde a minha casa. Vivo modestamente, mas sereis recebidos como família e festejados com uma boa ceia. Vinde todos comer comigo amanhã, para contarmos as nossas histórias, pois também quero conhecer o rol das vossas desventuras.

Dá-lhe as indicações da morada e ajuda-o a pôr o feixe às costas, separando-se à saída do bosque para não levantarem suspeitas, porque apesar de terem decorrido vinte anos, Vasco Calvo ainda não deixara de estar sob suspeita e de gozar de uma liberdade vigiada.

126 Jurabaça (Iurabaça) – intérprete no Extremo Oriente (do malaio-javanês juruba- hasa, mestre de língua)

XVI

Onde houver mel, haverá formigas

(malaio)

[Carta] do rei de Malaca, Mahamed Sh-ah, ao Filho do Céu:

Os folangji ladrões vieram a Malaca com muita gente e tomaram a terra e a destruíram, e mataram muita gente e a roubaram, e outra cativaram, de que o rei que foi de Malaca tem o coração triste e anojado. Com grande medo tomou o selo do rei da China e refugiou-se no Bintão127, donde está; e os seus irmãos e parentes fugiram para outras terras. O embaixador do rei de Portugal que está na terra da China é falso, não vem de verdade, que vem para enganar a terra da China. Para o rei da China fazer mercê ao rei de Malaca, este, com coração enojado, manda presente, pede ajuda e gente para lhe ser tornada sua terra.

Do Lichao Shilu (Crónicas Verídicas da Dinastia Li – Coreia)

No dia Wushu da décima segunda lua (1522), o jurubaça Li Shuo entregou um memorial com informações da corte da China:

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