Presos de três em três, foram levados do tronco para umas ferrarias onde, durante meses, sofreram assaz de trabalhos e necessidades, labutando com as roupas em farrapos, sem um catre onde dormir, comidos de piolhos e mortos de fome. Sobreveio-lhes uma moléstia que abria com uma febre maligna, pestilenta e, cinco ou seis dias depois, tomava-os um sono tão pesado que nem os gritos dos companheiros que os sacudiam conseguiam despertá-los. Só a muito custo abriam as capelas dos olhos, cerrando-as de imediato, jazendo inertes, de costas no chão, numa pesada sonolência e com um estertor semelhante ao da morte. Outras vezes, eram acometidos por uns frenesis que lhes espantavam o sono e, nessas longas vigílias, se lhes falavam, abriam os olhos e respondiam como se estivessem fora do siso.

A enfermidade assemelhava-se ao mal de modorra e Fernão foi o último a apanhá-la. Cuidou dos companheiros, socorrendo-se do que aprendera com os barbeiros e os boticários das naus da Índia e, sobretudo, com Garcia de Orta, o físico do capitão-mor que ele conhecera em Goa. Recordava-se bem do ano de mil quinhentos e vinte e um quando, ainda menino de dez ou onze anos, fora servir para Lisboa onde lavrava uma epidemia da terrível doença que matara muita gente, incluindo el-rei D. Manuel. Se, apesar de ser quem era e de ter recebido os cuidados dos Doutores João Rodrigues de Castelo Branco125 e Garcia Pereira, dois dos melhores físicos do mundo, o rei de Portugal acabara por morrer, só um milagre salvaria do mesmo destino os nove condenados que, já antes da doença, mal se aguentavam nas pernas. Iriam deixar os seus ossos sem sepultura cristã, na terra dos chins.

Fosse por milagre dos Céus ou graças ao engenho e arte do improvisado físico, que soube reconhecer o arbusto do pau-da-china e usou a raiz cozida contra a paralisia e a água da cozedura para suadouros no combate à febre, nenhum deles morreu. Por ser o mal contagioso, os chins soltaram-nos das prisões e, como já estavam livres da morte, apesar de muito fracos, mandaram-nos pedir esmola para se sustentarem.

121 Corsários do mar da China.

122 Excerto de O Prisioneiro de Pei Chu-I (772-846).

123 A Grande Muralha tem mais de cinco mil quilómetros de comprimento. O troço Badaling tem quase oito metros de altura e cinco metros de largura; o troço de Jinshanling tem de cinco a oito metros de altura e seis metros de espessura.

124 Desordem, confusão.

125 Amatus Lusitanus (1511-1568) – um dos médicos portugueses mais célebres do Renascimento. Era cristão-novo e teve de fugir de Portugal por causa da Inquisição.

XV

Quem não sabe suportar contrariedade nunca terá acesso às coisas grandiosas

(chinês)

Carta escrita ao capitão da armada que ali foi negociar a libertação dos sobreviventes da embaixada:

Sejam, senhor, estas cartas mostradas aos senhores capitães-mores, não se encubram, senhor, que se Jorge Álvares amostrara as cartas que levara e de nós souberam, eu confio que não estivéramos aqui nesta cadeia, ou vivos ou mortos. Em dois anos ou o Senhor Governador houvera de mandar, ou de Malaca se houvera de ordenar cousa por onde nos daqui tirarem.

De uma maneira ou doutra que, senhor, vierem, tanto que [a] esse porto chegarem, logo façam os jurubaças126 as cartas, sobre nos não mandem, senhor, matar, pedindo-nos mui altamente que a isso vêm. Assi se causa for vir cousa grande, assi se ponha nesse porto a nos pedir muito rijo. Que estes mandarins de nós, senhor, têm o receio, que sabemos a terra; esse é o respeito porque nos não soltam e nos têm nesta cadeia, sendo a mais forte que há nesta cidade.

Não posso, Senhor, escrever mais largo, porque tenho a mão doente, de chagas que me arrebentaram, e por não ser mais necessário, que Cristóvão Vieira nunca deixa de escrever todalas mais cousas

Servidor de sua mercê

Vasco Calvo

Feita em Outubro, nesta cadeia do Anchaci, no ano de 1536.

Em Quansy os nove condenados não duvidavam de que a sentença de morte seria cumprida, se algum deles perturbasse a paz ou desse azo ao mais pequeno conflito. Enfraquecidos pela doença e a fome, a necessidade forçou-os a fazerem tréguas nos seus ódios, com o juramento solene de viverem daí por diante em concórdia e cristãmente, pois sozinhos não teriam salvação. Revezar-se-iam cada mês no cargo de chefe ou maioral, a quem todos os outros teriam de obedecer, sem nunca poderem escusar-se às suas ordens, sob pena de serem expulsos do grupo e viverem homiziados. Para o juramento ter mais força e ninguém poder dizer que não jurara, as regras foram escritas e assinadas por todos, como um regimento para sua governança, tendo o bando passado a viver num casebre abandonado em fraterna harmonia.

– Assi não nos governamos, vamos morrer à míngua! – desabafa Borralho, tirado às sortes como maioral do primeiro mês. – Ninguém nos dá esmola, seja por receio, seja pela muita esterilidade desta terra. Somos nove, não podemos andar todos juntos a pedir.

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