– Zhengde fez outra cousa de pasmar: entrou nos paraus dos portugueses, mandou abrir todas as arcas, tomou os vestidos que lhe pareceram bem e fez mercê a Tomé Pires, dizendo-lhe que fossem a Pequim que os despachava. Contudo, foi a partir daí que as desgraças começaram, primeiro com a morte de um companheiro durante a travessia das montanhas, depois com as cartas dos mandarins de Cantão e Nanquim, relatando os abusos de Simão de Andrada.

– Então, o principal culpado sempre foi ele! – brada Vicente. – Era de natural muito arrogante, sem cuidar com quem tratava.

– Para piorar o negócio, em Pequim, estava à espera do imperador um enviado d’el-rei de Malaca com uma missiva do seu soberano e sobrinho a pedir socorro para expulsar da sua terra os folangji que lha tinham roubado. Zhengde leu todas estas queixas e acusações, antes de Tomé Pires lhe poder entregar as cartas de Fernão de Andrada e d’el-rei D. Manuel com o seu presente, assim como uma do mandarim de Cantão, escrita quando os lauteaas ainda estavam de bem connosco.

– Tanto os portugueses da embaixada como os que vinham fazer veniaga foram acusados de espionação – lembra Vicente. – Diziam que vínhamos espiar a terra para a tomarmos, como tínhamos feito na Índia e em Malaca, além de sermos tão selvagens que comprávamos e furtávamos crianças, filhos de pessoas honradas, para as comer assadas.

– Calai-vos, por Deus, que estais sempre a interromper! – protesta Borralho, com impaciência. – Vasco Calvo foi testemunha de ver, ouvir e sofrer, deixai-o contar a história miudamente, já que nenhum de nós a sabe tal como se passou!

O anfitrião faz um gesto apaziguador e retoma o relato:

– A partir de então, foi o fim da embaixada! O presente foi tido por mesquinho e as cartas do capitão-mor e d’el-rei de Portugal julgadas falsas e traiçoeiras, porque os seus jurubaças não as leram e, em vez de fazerem uma traslação fiel, escreveram-nas ao estilo destes reinos, mudando a substância delas sem nada dizerem ao capitão-mor ou a Tomé Pires.

No seu traslado diziam que o rei dos folangji vinha oferecer páreas129 ao Filho do Céu, pedir para ser seu vassalo e levar mercadorias ricas para o seu reino, porém, quando os mandarins do Conselho do Imperador abriram as cartas originais, entregues por Tomé Pires, viram que a sua substância era muito diferente. A diferença das cartas e o pedido de concessão de uma casa em Cantão para uma feitoria dos portugueses confirmaram aos mandarins as suspeitas de que tínhamos vindo com falsidade espiar a sua terra e assim o escreveram ao imperador.

Os quatro jurubaças foram descabeçados por terem saído sem licença das terras do império e trazido os perigosos folangji, os seus servidores foram dados como escravos aos mandarins, as suas mulheres vendidas em Cantão como fazenda de traidores. O imperador mandou ainda arrasar a fortaleza de pedra que Simão Peres construíra e o lugar onde viviam os portugueses, defendendo os chins de fazerem tratos connosco e ordenando-lhes que expulsassem todo o estrangeiro que viesse fazer veniaga, sem o seu selo de vassalagem. O embaixador com a sua comitiva foram mantidos sob vigilância, proibidos de se acercarem sequer do palácio para fazerem as cinco mesuras de obediência, zumbaias necessárias para um embaixador ser admitido à sua presença.

Por desgraça, Zhengde morreu sem ter dado despacho à embaixada. Com a sua morte, todos os negócios do império cessaram pelo que nenhuma decisão foi tomada enquanto o seu sucessor não se sentou no trono. Assim, no dia vinte e dois de Maio, sem nunca terem sido recebidos no palácio, Tomé Pires e os seis portugueses que restavam do seu séquito foram enviados para Cantão com toda a sua fazenda, incluindo o presente que o imperador recusara. Chegaram no dia vinte e dois de Dezembro, já sem Francisco de Budoia que morreu pelo caminho, sendo metidos numas casas, onde estiveram durante trinta e três dias muito vigiados, sem poderem sair ou falar com alguém, sobretudo com estrangeiros. Depois da subida ao trono de Jiajing, então com treze anos, confirmou-se a perdição da embaixada por ordem dos mandarins.

Vasco Calvo cala-se, de voz embargada pelas penosas recordações.

– Foi então que vossa mercê se encontrou com os da embaixada? – pergunta Fernão. – Como veio para cá com tamanho risco?

– Em Malaca não se suspeitava de nada, porque os lauteaas de Cantão, ainda em vida de Zhengde, se apressaram a prender todos os portugueses que por lá andavam, para não poderem avisar-nos. Por isso, em Junho desse mesmo ano de vinte e um, eu e o meu irmão Diogo viemos com alguns navios a Tamão, onde nos montaram uma cilada e eu fiquei prisioneiro com outros que desembarcaram.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже