– Senhor capitão – dissera, recorrendo ao seu admirável engenho para advogar as causas perdidas ou safar-se dos maiores apertos –, vossa mercê viu já em Mutipinão, quando fizemos os nossos tratos, que não se pode vender ou pedir resgate pela moça e pelos meninos cauchins, porque em toda esta costa dos mares da China nos tomarão por corsários ladrões e, se escaparmos com vida, não mais lograremos vender aqui seja o que for, além de termos todos os aytaos do Filho do Céu e das nações suas tributárias a darem-nos caça com as suas armadas.
– Assi é, de verdade – concordara Faria, olhando-o com estranheza. – A que propósito.
– Tenho apenas um escravo para me servir e preciso de servos, quando volvermos a Malaca, pelo que seria uma grande mercê se me fosse permitido resgatar a Noiva Roubada e os dois meninos seus irmãos, com o meu quinhão do saque.
O capitão soltara uma risada brejeira e, tratando-o por tu como a um camarada de armas, perguntara:
– Desejas assim tanto a moça? Se ela fosse minha, oferecia-ta já, bem como os seus irmãos e a velha que lhes faz companhia, em paga da grande dívida que tenho para contigo. – Fizera um gesto com a mão a atalhar-lhe o protesto, acrescentando com pena: – Contudo, a Noiva Roubada e os outros cativos são parte do esbulho das lanteias de Tilaumera, sendo pertença de todos os que, como tu, participaram no assalto. Assi, terás de a comprar aos nossos companheiros, mas eu prometo sustentar a tua demanda. – E terminara com um trejeito de zombaria: – Não quero uma mulher sem homem na minha armada, porque dará causa a sarilhos pondo ao despique, por mor dela, chins e portugueses. Reza para que nenhum outro dê mais valor à tua flor de lótus que aos taéis de prata ou às peças de seda.
O negócio fora levado a cabo sem grandes embargos, a contento de todos, por reconhecerem a impossibilidade de pedirem resgate ou venderem a filha do anchaci de Colem naquelas paragens e tão cedo não volveriam a Malaca. Fernão cedera-lhes, em troca de Huyen, dos dois irmãos e da parente sua guardiã, o espólio de Tilaumera, acrescentando-lhe ainda uma boa parte do seu quinhão nas futuras partilhas do junco de Hinimilau e uma bolsa de prata que Faria lhe dera de presente.
Perdera de novo uma fortuna e desta vez a culpa não fora dos corsários nem das tempestades ou naufrágios, mas tão-só daquela sua loucura ou cegueira, de que todavia não se arrependia. Pura como jade em fogo, fragrante como lótus na lama, recitara Lin Dan quando ele lhe descrevera Huyen. O velho poeta falara como um oráculo, pois a Noiva Roubada fora para Fernão a verdadeira encarnação do Oriente, a sua miragem de ilhas afortunadas. Possuí-la era apoderar-se dos sabores, dos perfumes e da beleza daquele mundo, percorrer-lhe as linhas e volumes na geografia do corpo, mergulhar nas suas águas para conhecer o caudal dos rios, rasgar-lhe o ventre e sentir a brandura do húmus onde ansiava lançar a sua semente para se fundir com ela.
Contudo, essa comunhão de corpos e almas, mais do que da conjunção favorável dos astros, dependia da participação de duas vontades, a sua – acesa em fogo ainda antes de a ver – e a dela, sem chama, que ele nunca pudera atear com a sua paixão e se fizera cinzenta e fria como um rescaldo de fogueira.
Nas viagens mais longas, os navios transformavam-se em prisões flutuantes, onde se amontoavam dezenas de homens, privados de mulheres e a viverem uns com os outros numa intimidade forçada, durante largos meses, até já não se poderem sofrer, acabando fatalmente por travar lutas de morte por um xique-mique ou a cevar rancores e enfadamentos quer nos inimigos, quer em vítimas inocentes.
A falta de mulheres era o castigo mais duro de suportar, tendo António de Faria proibido os chins da tripulação de levarem a família, como era seu costume – exceptuando o piloto recém-casado que se recusara a embarcar sem a esposa e ele não pudera substituir a tempo –, dizendo-lhes que a sua armada era de guerra e ia em busca do corsário Coja Acem para lhe dar combate, portanto os navios não eram lugar seguro para mulheres e crianças.
Naquelas partes, a sodomia era uma prática corrente a que até alguns portugueses se entregavam sem pejo, sobretudo os que viviam há muito nas prisões do mar, por isso, não só Huyen, mas também os seus dois irmãos, que a igualavam em beleza, corriam grandes riscos de sevícias e, por sua vez, faziam perigar a precária tranquilidade do navio, pois a qualquer momento poderiam desencadear entre os matalotes rixas sangrentas pela sua posse, apesar do defeso que António de Faria lhes impusera de molestarem os cativos ou sequer de se acercarem deles.