O capitão apresentara como razão para o interdito serem mercadoria assaz preciosa, pela qual esperava obter rico resgate da família, desde que nenhuma das peças, em particular a moça, fosse danificada. E dera ordem a Fernão para se ocupar deles, responsabilizando-o pela sua segurança, comando que ele recebera como uma dádiva dos céus e cumprira com o zelo de um mastim de guarda ou do próprio Cérbero, o infernal cão das três cabeças.
Para melhor os resguardar dos olhos cobiçosos, arranjara-lhes um cubículo junto do alojamento do piloto, cuja esposa lhes poderia fazer companhia e dar algum conforto. Com eles se quedara Mi, a irmã mais velha do anchaci de Colem, que se recusara a abandonar os sobrinhos à sua sorte, visto ter sido designada pela família Chu para tratar das cerimónias do compromisso, noivado e casamento de Huyen com o filho do chifuu de Pandoree e zelar para que as negociações se fizessem dentro dos mais altos padrões de cortesia.
Recorrendo à amizade de Borralho que, como feitor da armada, tinha as chaves de todas as pitacas e baús de mercadorias, Fernão devolvera aos cativos alguns pertences de menor valia, para lhes dar um pouco de conforto e mitigar as saudades de casa.
– A tomada das lanteias foi uma necessidade, porque quedámos desprovidos de tudo, depois do ataque dos corsários cauchins que nos roubaram o barco dos mantimentos e toda a nossa fazenda – tratara de se justificar, ao entregar-lhes os presentes. – Se não fizéssemos o mesmo que eles, morreríamos.
Sentira remorsos por lhe mentir como um fideputa mal nascido, evocando a lei do olho por olho, dente por dente, bem ao gosto dos orientais, assim como uma certa ideia de justiça dos céus, por intermédio de Xiwangmu, a deusa da vingança.
– Se fosseis comerciantes honestos, teríeis pedido ajuda, a qual vos seria dada de muito boa vontade pelos nossos, contudo escolhestes assaltar-nos à má-fé, para nos roubar – dissera Mi, com severidade.
– Não sois melhores do que os wokou – a voz melodiosa de Huyen ressumara de desprezo, ferindo-o. – Não passais de meros ladrões do mar, que o meu pai há-de perseguir até vos varrer da face da terra.
– O capitão Faria não é um corsário sanguinário, ninguém molestou os vossos convidados, que foram postos em terra sãos e salvos.
– Se ele é tão generoso como dizes, que fazemos nós aqui? – insistira a voz acusadora por trás do véu. – Por que razão não nos libertou como aos nossos parentes ou me entregou ao meu noivo que vinha receber-me?
Desesperado, por não poder ver-lhe os olhos escondidos pelo véu, Fernão sentira a paixão da sua voz, no arrepio da pele que o desejo dela lhe causava, cada vez mais intenso, por vezes insano. Consolara-os com muitas promessas (que sempre custam pouco e causam bom efeito) de que seriam entregues à família, logo que o capitão achasse um lugar seguro para ferrar a armada e fazer veniaga. Abandonara o cubículo, envergonhado da sua falsidade que, todavia, acabara por lhe conquistar as boas graças dos reféns.
Fizera por ganhar a confiança dos irmãos e da casamenteira com os presentes, a fim de os ter como aliados no árduo caminho para o coração de Huyen. A sua urdidura dava-lhe esperança de ser a teia como ele desejava, porque passara a ser aceite como um protector, recebendo mesmo da inconsolável noiva algumas palavras de gratidão, que o fortificaram para enfrentar as dificuldades que se avizinhavam.
A pretexto de António de Faria lhe ter confiado a guarda dos cativos, passava a maior parte do seu tempo com eles, visto ter pouco que fazer durante a navegação. Na sua presença, os reféns falavam na língua chim para ele os poder entender, pelo que deixara de recorrer ao seu moço como intérprete, quando a velha Mi e os meninos lhe contavam as suas vidas ou ele lhes respondia às perguntas sobre a sua nação e os seus usos. Era-lhe cada vez mais penoso inventar desculpas sempre que eles procuravam saber se já havia notícia do anchaci de Colem e do negócio do seu resgate, ou animá-los com falsas esperanças de liberdade. Outras vezes, sem coragem para enfrentar Huyen e mentir-lhe de novo, deixava-se ficar à entrada do cubículo, sem falar, a ouvir as suas conversas com a esposa do piloto ou a escutar, arrebatado, as canções que ela tocava no erhu que lhe devolvera.
Agora, deitado na esteira da sua cabana, na madrugada insone, Fernão recorda a primeira vez que a ouvira e o efeito devastador da sua voz e da canção que ela escolhera para exprimir a sua paixão pelo noivo perdido:
Só na minha recatada câmara,
A mágoa rasga-me as entranhas com mil golpes.
Eu amo a Primavera, mas a Primavera passa,
As gotas de chuva apressam a queda das flores.
Debruço-me da balaustrada,
Com sentimentos indistintos.
Onde está o meu amado?
O céu funde-se com as plantas fragrantes,
Impede-me de ver a estrada do seu regresso134.