Fora invadido por sentimentos contraditórios que se fundiam numa raiva insana contra a Noiva Roubada que cantava o seu amor por outro homem, indiferente ao sofrimento que lhe infligia com a sua voz a gemer de saudade e amor ardente, intensificada pelos sons pungentes do instrumento.
Fernão revolve-se na esteira e geme, sentindo o corpo a arder, o sexo a intumescer e a pulsar de desejo, como nesse dia distante, quando os ciúmes o cegaram e quisera irromper pela câmara, expulsar os parentes e tomá-la à força no catre, para apagar com o estupro a memória do rival.
Em vez disso, refugiara-se no porão e, deixando-se cair num canto da pitaca mais sombria (o único lugar sem gente na maldita prisão flutuante), buscara alívio para o seu tormento no prazer solitário que o deixara ainda mais prostrado e insatisfeito.
Quisera crer no que dizia a voz do povo, pela boca de Borralho para o consolar, de que com afagos a mula e a mulher sempre fazem o que o homem quer. Como o cão que ama o dono que o maltrata, voltara à companhia de Huyen que, de certo modo, parecia aceitar a sua presença, pois já não interrompia o canto e a música, nem cobria o rosto quando ele entrava na câmara ou baixava os olhos se encontrava o seu olhar, deixando-o mareado de amor.
Fora no dia do Duplo Sétimo do calendário chim, ao ouvi-la cantar a lenda de amor das duas estrelas, que Fernão decidira pedir Huyen ao capitão. Tinha-lhes levado a ceia, nessa noite, quando Bao, a mulher do piloto Qing Hu aparecera com uma oferta de doces.
– Hoje é o Sétimo Dia do Sétimo Mês. – dissera-lhe, vendo a sua expressão de surpresa. – Um dia único no ano!
– Foi um dia igual a tantos outros! – resmungara o mais velho dos dois irmãos.
– Que tem ele de especial? – perguntara o mais moço.
Lágrimas perfeitas como aljôfar rolaram pelo rosto de Huyen, mas a sua voz não acusara mais do que um leve tremor quando falara para os irmãos:
– Em casa, estaríamos a festejar na varanda com os avós, os pais, os tios e os primos, a fazer ofertas à bodhisattva Guayin. Neste dia, em cada ano, tem lugar o encontro de Zhi Nucom Niu Lang, o seu amado. A Donzela Tecelã, filha do imperador dos Céus, e o Vaqueiro amavam-se profundamente, mas o seu amor desagradou ao imperador que os separou, exilando-os, cada um para seu lado da Via Láctea. Todavia, o desespero da Tecelã logrou abrandar a sanha do pai que lhe permite encontrar-se com o seu amado uma vez por ano. É hoje, na noite do Duplo Sétimo, que a Tecelã vai atravessar a Via Láctea por uma ponte formada por um bando de pegas, para se unir ao seu Vaqueiro. – Fez uma pausa e exclamou com um suspiro: – Afortunada Zhi Nu-ū!
Tomou o erhu nas mãos de marfim e moveu o arco de crina de cavalo entre as duas cordas de seda do estranho instrumento que parecia uma mistura de viola e alaúde, com um corpo estreito e alongado a terminar numa pequena caixa de som feita de pele de cobra. Huyen tangia-o como se lhe emprestasse a sua alma, fazendo-o vibrar com todas as emoções de uma mulher enamorada.
Fernão ouvira a história de Vega e Altair e nela reconhecia não a Tecelã a chorar de amor pelo Vaqueiro, mas Huyen a pulsar de paixão e de saudade por se ver apartada do seu amado Pham. De novo o cegara o ciúme com a violência do ódio e, sem uma palavra, abandonara a câmara para ir falar com António de Faria a fim de lhe pedir a cauchim como paga das alvíssaras prometidas.
A ideia de ter Huyen só para si inebriara-o a ponto de não se aperceber de que a perdera, no momento em que a ganhara. Quando soube ter sido comprada pelo folangji que se insinuara no coração dos irmãos e no seu, fingindo-se apiedado da sua sorte apenas para esconder a falsidade dos seus propósitos, a refém passara a vê-lo como o pior dos inimigos. Perdida a esperança de ser resgatada pela família, cobrira o rosto com um pesado véu e não voltara a dirigir-lhe a palavra.
Fernão apaziguara Mi, ao jurar-lhe que Huyen seria sua esposa e não sua escrava, em Malaca, lhes daria a mesma vida que tinham em casa de seus pais, mas, nada que fizera ou dissera lograra amaciar a soberba cauchim. Para seu maior castigo, o ódio de Huyen era um acinte que lhe espevitava o desejo, já de si ardente. Sentia-se possuído por uma força maléfica, que o tomara de assalto abafando todos os sentimentos cristãos e mesmo a sua consciência, até nada mais restar senão aquela febre que o atormentava e só teria alívio quando a fornicasse com igual ódio, comprazendo-se no seu choro de dor e humilhação, soltando o jorro quente do seu sémen no corpo violado.