– Perdoe-me, vossa mercê, que sou um asno chapado! – roga-lhe envergonhado. – Dizia-se no reino que Magalhães ficou muito sofrido por el-rei D. Manuel não lhe ter reconhecido os bons serviços, nem feito qualquer mercê, e por isso renegou da pátria.
– Magalhães era um homem de honra e de bravura sem par – lamentou Calvo, interrompendo-o –, entrou em muitas batalhas na Índia e em África, até foi ferido em Cananor.
– Foi oferecer-se aos reis católicos a cujo mando fez uma formidável viagem à roda do mundo. No regresso, os gentios da ilha de Mactan136 mataram-no em combate e foi o capitão espanhol Juan Sebastián Elcano quem concluiu o feito.
– .Cuja glória poderia ter cabido a Portugal, mas na nossa terra quando na república a monda cresce, os bons não vêm a lume.
– Pois já nesse ano de quinhentos e oito – retomou Calvo –, esse valente avisou o capitão-mor Lopes de Sequeira da conspiração dos mouros de Malaca para o matarem, além de salvar também de uma cilada o primo Francisco Serrão e outros companheiros que tinham desembarcado. A feitoria foi pilhada e incendiada. Entre os portugueses houve nove mortos, dezanove cativos e muitos feridos.
Vicente acrescentou para os companheiros que os ouviam pasmados:
– Foi a entrega desses cativos que Albuquerque veio demandar a Mahamed, três anos mais tarde, em senho de boa amizade embora, por via das dúvidas, sustentasse o seu pedido com uma armada de dezassete navios, mil e duzentos soldados portugueses e outros duzentos malabares! O feitor Rui de Araújo, que era um dos sobreviventes, enviara-lhe cartas de Malaca secretamente, suplicando-lhe que os fosse libertar.
– Araújo insistia muito para que o governador acometesse Malaca com a maior armada que pudesse, a fim de forçar o rei a fazer pazes ou para tomar a cidade, pois, se ele se fosse como viera, perderíamos a face e o respeito dos nossos inimigos, que se alvoraçariam de novo e massacrariam os cativos portugueses. Estas razões decidiram Albuquerque.
– Ele chamou-lhe Leão dos Ladrões do Mar! – exclama Fernão, sentindo-se de novo apanhado nessa teia intrincada que o ligava a um Passado, Ideia ou Empreendimento muito mais grandiosos do que a mera aventura de enriquecer no trato das especiarias ou das sedas.
– Quem? – pergunta Borralho com estranheza, rompendo o silêncio que se fizera.
– O da estátua, no meio do rio! O mausoléu junto à vila de Iunquileu.
– Que estátua? – pergunta Vasco Calvo, impaciente.
– A do Tuão Hasan Mudelyar, o embaixador d’el-rei de Malaca! – Cristóvão recorda-se subitamente da emoção com que haviam lido, naquele lugar remoto, o nome do vizo-rei apesar de vituperado pelos inimigos. – Afinal, o embaixador malaio morreu na China como o nosso Tomé Pires! Cá se fazem, cá se pagam.
Vendo o olhar de desconcerto do seu anfitrião, Fernão esclarece-o:
– Quando vínhamos pelo rio Batampina, vimos um monumento armado sobre quatro colunas de pedra lustrada, com um coruchéu de azulejos de porcelana brancos e pretos. Continha sete pelouros de ferro portugueses e, na frontaria, um letreiro de letras douradas à charachina com os dizeres (se a memória me não falha): Aqui jaz Tuão Hasan Mudelyar, tio do rei de Malaca, a quem a morte levou antes que Deus o vingasse do capitão Albuquerque, leão dos roubos do mar137.
– Nunca vi esse monumento, nem ouvi falar dele!
– As voltas que o mundo dá! – exclama Vicente: – Vossa mercê não se lembra dos seis capitães chins, que estavam no porto de Malaca com os seus juncos bem armados, e foram oferecer-se a Afonso de Albuquerque para o ajudarem na conquista?
– Deveras? – espanta-se Jorge Mendes, rogando-lhes: – Vós, que haveis tomado parte na conquista, falai-nos desse feito do Terríbil, pois foi antes do nosso tempo na Índia.
– Sim, por vossas vidas, contai-nos a tomada de Malaca! – secundam outras vozes.
Vicente troca um olhar de entendimento com Calvo e, sorrindo, diz-lhe:
– Comece vossa mercê que esteve nos dous cometimentos e eu irei metendo a minha colherada nos sucessos em que tomei parte.
– Seja então, meus amigos, mas terei de me socorrer da memória do Vicente, que a minha já começa a variar. A nossa armada chegou a Malaca na tarde do dia um de Julho do ano de mil quinhentos e onze, com todos os navios embandeirados e apavesados, a tanger trombetas, dando salvas de grossa artilharia, que causaram grande terror ao povo, assim como ao rei Mahamed e aos mouros do seu conselho, apesar de já nos esperarem.
Nesse mesmo dia, o mensageiro d’el-rei, veio a bordo da capitânia onde foi recebido por alguns cavaleiros fidalgos, estando Afonso de Albuquerque sentado numa cadeira de espaldar, guarnecida de seda e ouro, com todos os capitães da frota, vestidos de paz e de guerra, sentados segundo a sua qualidade em bancos cobertos de alcatifa. A restante gente de armas fazia guarda de honra, de pé, em boa ordem.