Breve, fugidio é o seu mundo, onde pisa um caminho sombrio que leva à escuridão; falta-lhe todavia a força de voar, de morrer pelo seppuku, para não ter de cumprir os votos que fizera ao nanbanjin. Pior do que o ódio ou a miséria seria a perda da sua honra, do seu bom nome.
Quando no seu corpo de menina despontaram os primeiros anseios de mulher, muitas noites fechara os olhos para sonhar o amor, criando com os seus dedos inexperientes as carícias de um amante desconhecido, que a deixavam dorida de paixão. A ponte suspensa dos sonhos desfizera-se e a realidade brutal viera tomar posse deles, quando o pai a entregara ao nanbanjin e este lhe rasgara o véu da virgindade, fazendo dela uma mulher.
A concubina Oe, a quem fora igualmente proibido sonhar, compreendera o seu medo e ajudara-a a passar a provação que, afinal, não fora tão penosa quanto temera. Murashukusha, apesar da embriaguez, mostrara-se surpreendentemente delicado e terno, as suas mãos fortes tinham-lhe acariciado os seios como se os beijassem. Ela sentira os mamilos endurecerem como espinhos, um arrepio de prazer a percorrer-lhe o corpo, ateando-lhe um fogo nas veias como jamais havia experimentado nos seus sonhos. Nem sequer nos banhos públicos quando o corpo nu da sua amiga mais amada se colava ao seu com languidez, os seus lábios, doces como pétalas húmidas de orvalho, a beijavam às escondidas por entre nuvens de vapor.
Sentira-lhe o afago dos dedos e da língua na pele, a descobri-la demoradamente, como se a saboreasse em cada curva, a cada reentrância, atardando-se nas axilas de fina seda, descendo ao ventre liso, brincando com o botão do umbigo num fremir de cócegas, abrindo a recatada dobra das virilhas, para chegar ao fruto apetecido, a ameixa rubra a amadurecer em macio ninho de penugem negra.
A surpresa do prazer que marulhava nas suas veias como uma corrente quente, pondo-lhe o corpo em brasa, fora mais forte do que o medo ou o asco, e ela entregara-se não ao nanbanjin mas ao amante tantas vezes sonhado, abrindo-se como a flor da ameixoeira ao primeiro raio de sol que a beija. Sofrera em êxtase o gume e a ferida, cauterizada pelo suave corrimento de sangue e húmus.
Do seu jardim, que o Outono pintou já em cores de fogo, avista a baía, o porto e a praia com as cabanas dos pescadores, desvanecendo-se no crepúsculo que se anuncia. O vento sopra mais forte e a chuva deixou um brilho de luar nos ramos inclinados dos áceres. Com a manga do quimono limpa as gotas das lágrimas que não cessam de correr, na dor antecipada da partida.
Não tardará a sentir a falta do sol e da lua de Tanegashima, a sua terra natal, definhará de saudade da casa dos seus pais, vendo passar os dias, os meses e os anos longe de tudo o que sempre amou.
O seu corpo será levado para longe, mas o seu coração não se sujeitará à triste sorte do cativo, esteja onde estiver, voará em direcção ao sol nascente, para casa, como os pássaros que vê chegar para se recolherem nos ramos da árvore ancestral. Na praia a espuma flutua sobre as ondas, como o desespero na sua alma, sem esperança.
Depois do casamento, o marido visitara-a três vezes e ela despertara nos braços de Murashukusha, com os sentimentos tão emaranhados como os seus longos cabelos. Ele falava-lhe com ternura de amante, dando-lhe por vezes o nome de Huyen, murmurando palavras em língua do Grande Ming que ela nem sempre entendia. Não sabe ler-lhe o coração, vê-o como se o não visse e nada lhe diz com palavras, embora a sua alma seja o leito de um rio por onde correm sensações inconfessáveis.
Um bando de gansos ruidosos voa em direcção ao lago. Segundo diz a concubina Oe, os sentimentos nos corações dos homens são como as folhas das árvores que se espalham com o vento ou como as flores no Outono, cujas cores esmorecem facilmente. Que sucederá a Wakasa, longe da família, num mundo hostil, quando o nanbanjin se cansar dela?
Os crisântemos, os cardos, as campainhas e os amores-perfeitos alinhados nos seus canteiros em doce harmonia não partilham da sua dor. As libélulas volteiam em frenéticas danças orquestradas pelas cigarras e os grilos, indiferentes ao seu desespero.
Do seu diário, escrito ao modo das histórias do Genji, da sublime Murasaki Shikibu, para onde copiara os poemas apropriados a cada sentir da sua alma, havia um, de Yamanoe no Okura, reservado aos dias de alma sombria:
Este nosso mundo
é cheio de horror e pejo.
Apesar de o sentir
não voo para longe
porque não sou ave.
Murashukusha fora enviado por Tokitaka a Satsuma, deixando-a livre por algum tempo para pensar na vida que a espera e num milagre que a possa salvar. Correra ao templo a purificar-se, fizera as suas ofertas, rogara a ajuda dos céus e os augúrios tinham-lhe sido favoráveis.