– O perro odiava os portugueses, porque num recontro com Lançarote Pereira, no porto de Lamau179, lhe haviam queimado três juncos e matado duzentos homens! Quando soube que os presos estrangeiros pertenciam à raça dos seus inimigos e iam ser libertados, tratou de embrulhar o caso com muitas falsidades e aleivosias a nosso respeito. Logrou convencer Sh-o Sei de que perderia muito em breve o reino, porque era nosso costume espiarmos uma terra a pretexto de negócio para depois a tomarmos como ladrões, destruindo toda a coisa que nela achávamos. El-rei creu nele e assinou a sentença de morte, ordenando que nos fizessem em quartos.
– Víbora peçonhenta! Como foi que vos livrastes da morte?
– Escapámos graças a uma petição que fizeram as léquias, mas tudo começou com a mulher do piloto que se salvou do naufrágio.
A portuguesa sobrevivente fora separada do marido e dos filhos e recolhida por piedade em casa da filha do broquem, onde vivia com o maior conforto. Quando, por indiscrição do mensageiro, a notícia da condenação chegou aos ouvidos da dona da casa, Conchanilau, cheia de pena pela sua protegida, contou-lhe o que soubera, a fim de a preparar para a perda do marido e dos filhos.
Ao ouvir a terrível nova, a mulher ficara sem fala e caíra desacordada no chão, como morta, para grande aflição da filha do broquem e da sua tia que viera contar-lhe o segredo. Os seus cuidados trouxeram a infeliz à vida, contudo temeram vê-la expirar de paixão, com o pranto que fazia em altos gritos, surda às palavras de consolo que lhe davam. Pasmadas, sem saberem o que fazer, viram-na rasgar o rosto com as unhas com tal crueza que o sangue lhe corria em fios pelas faces desfeitas e pescoço, alastrando pela cabaia como um lenço escarlate.
Nunca se vira em Ryūkyū uma manifestação de dor como a da portuguesa e a novidade da mutilação correu célere pela cidade, comovendo todas as mulheres, novas e velhas, solteiras, casadas ou viúvas, que acorreram qual tumultuosa onda a casa de Conchanilau, para conhecerem a heroína estrangeira. Vendo o seu lastimoso estado, logo ali decidiram escrever uma carta à rainha-mãe, rogando-lhe pela alma do seu esposo que intercedesse, junto d’el-rei seu filho, a favor dos estrangeiros, dando-lhe conta da injustiça daquela condenação, que levara a mulher portuguesa a derramar o sangue do seu rosto com o desgosto da morte anunciada do marido e dos filhos.
Escrita pela filha do broquem e assinada por cem mulheres das mais honradas da ilha, nessa mesma noite a carta foi levada, pela filha de um poderoso mandarim, a Bintor onde pousava el-rei, entregue por sua própria mão à sua tia Nhay Meicamur, camareira-mor e valida da rainha-mãe, para que a fizesse chegar sem demora a Sua Alteza.
– Perderei a minha honra e crédito ante aquelas que me escolheram, senhora minha tia – suplicou a donzela de joelhos com rosto molhado de lágrimas –, se não lhes levar o perdão d’el-rei para os condenados, até daqui a dois dias.
– Estando em jogo a honra, tua e de nossa família – replicou a tia –, para mais sendo a causa tão justa como dizes e confirmam todas as senhoras principais que assinam a carta, farei tudo para que tornes a Pongor com boas novas. Como o tempo escasseia e os verdugos estão com pressa, quando esta manhã a rainha despertar, eu estarei a seus pés para lhe entregar a vossa petição. Vem comigo.
Muito em segredo, a dama, abriu a porta de um passadiço secreto que só ela conhecia e comunicava com os paços, justo ao lado dos aposentos da rainha. Deixou a sobrinha na antecâmara e foi deitar-se aos pés do leito da sua senhora, embora não tão silenciosamente como era seu costume.
– Que se passa, Nhay Meicamur? – perguntou a rainha, acordando estremunhada. – Deixastes-vos cá esquecer esta noite ou temos novidade?
A camareira pediu-lhe humildemente perdão por a ter despertado e contou-lhe a visita da sobrinha com a petição das damas de Pongor.
– Ela que venha ler-me a carta – ordenou a rainha.
A donzela entrou e lançou-se a seus pés, beijando-lhos com muita gratidão. Obedecendo ao seu pedido, leu a missiva da filha do broquem, com tão grande sentimento que a Sua Alteza, com os olhos cheios de lágrimas, lhe disse:
– Não mais! Pára! Não mais! Não é justo que esses infelizes percam a vida, porque bem basta por castigo a execução que o mar neles fez. Ide ora repousar um pouco e logo que seja manhã, ireis comigo ler esta carta a meu filho.
– Tão bem trabalharam a rainha, a tia e a sobrinha, que a carta foi lida a el-rei Sh-o Sei – conclui Fernão. – No entanto, Sua Alteza recusou-se a receber-nos, dizendo que, por ter o ofício de rei, não lhe era dado ver gente que, conhecendo muito de Deus, usava pouco da sua lei, tendo por costume tomar o alheio. As generosas léquias, pelo contrário, agasalharam-nos em suas casas e proveram-nos de todo o necessário até à nossa partida para Liampó, de onde pude embarcar para Malaca e vir dar-vos conta destas minhas desaventuras.