– Na volta da nossa viagem ao Japão, quando o corsário Wang Zhi me desembarcou em Liampó, juntamente com Francisco Diogo Zeimoto e Cristóvão Borralho, caímos na asneira de contar aos moradores portugueses a nossa descoberta das ilhas onde nascia o sol, como eram ricas em prata para tratos com altíssimos lucros.
– O que fostes fazer! – ri-se o capitão. – Nunca vos disseram que o segredo é a alma do negócio?
– Aprendemo-lo à nossa custa! A ganância ensandeceu os moradores, dando causa a uma corrida desenfreada aos barcos e às mercadorias da China, cada um tentando aprestar-se o mais depressa possível, para ser o primeiro a fazer a viagem. Apenas em quinze dias aprestaram-se nove juncos, todos tão mal negociados e apercebidos, que alguns deles nem levavam piloto, só iam os donos que nada sabiam da arte de marear.
– Isso já não é temeridade, é sandice!
– Partiram todos juntos, num domingo de manhã, contra vento, contra monção, contra maré e contra razão, porque de tão contumazes não atendiam a nenhum aviso dos perigos em que se metiam.
– Tamanha sede de lucro pode cegar.
– E eu, que tinha obrigação de ter mais siso, também me deixei ir na onda. Velejámos às cegas durante esse dia e à noite sobreveio-nos uma grande cerração seguida de tempestade em que se afundaram sete juncos com seiscentas pessoas, das quais cento e quarenta eram portugueses honrados e ricos.
As duas embarcações restantes não tardaram a seguir-lhes a sorte, rebentadas contra as restingas das Léquias, com tal violência, que apenas vinte e quatro homens e uma mulher lograram chegar à praia com vida. Neste arquipélago de Ryūkyū repetira-se, quase ponto por ponto, o calvário da China. Os sobreviventes, nus e famintos, foram tomados pela população da comarca de Sipautor, um grande lugar de mais de quinhentos vizinhos, levados presos de três em três para um templo cercado de altas paredes e vigiados por muitos guardas.
Embora ninguém os maltratasse e todos usassem para com eles de muita piedade – assegurando-lhes de que el-rei Sh-o Sei era de natural generoso, muito inclinado aos pobres, pelo que não tinham nada a temer naquela terra –, o facto de estarem presos e a semelhança com o funesto naufrágio que sofrera na China, deixavam Fernão mais desconfiado do que qualquer um dos seus companheiros, sabendo como os gentios podiam ser cruéis e tiranos para com os estrangeiros que lhes vinham dar à costa. A reputação de que gozavam os portugueses naqueles mares não era de molde a tranquilizá-lo, se por desgraça os naturais descobrissem a sua origem.
Não tardaram a ser levados para a cidade de Pongor, a mando do broquem ou governador do reino, tendo os náufragos pernoitado pelo caminho numa prisão-cisterna da vila de Gundexilau, onde estiveram toda a noite metidos num charco, a servirem de pasto a centenas de sanguessugas que os sugaram quase até à última gota de sangue.
Quatro dias depois de ali terem chegado, o broquem convocou-os para uma audiência. Levaram-nos atados de três em três, pelas quatro principais ruas da cidade e Fernão sentira o coração apertar-se com um mau presságio. O governador recebera-os na sala de audiências, sentado numa tribuna, ornada de panos de seda, com dossel de brocado, rodeado por seis porteiros de maças, ajoelhados. Um corpo de alabardeiros, com as alabardas embutidas a ouro, dispostas ao longo das paredes de toda a sala, onde já se achava uma infinidade de gente de várias nações. Prostraram-se a seus pés, com as mãos erguidas ao céu, pedindo misericórdia e ajuda para volverem a Malaca; o broquem ouvira-lhes as queixas e respondera-lhes num tom de comiseração que lhes parecera sincero:
– Tenho tamanha piedade da vossa miséria e dor da vossa pobreza, que vos certifico em boa verdade, e assim ela me valha diante d’el-rei Sh-o Sei, que mais quisera agora ser cada um de vós outros, do que ter este cargo, porque temo muito escandalizar-vos, o que por nenhum caso queria fazer. Porém vos rogo, como a amigos, que vos não espanteis de vos eu fazer algumas perguntas necessárias ao bem da justiça e quanto ao mais que competir a vossa soltura, vós a tereis. Podeis descansar nesta minha promessa!
Recebera os agradecimentos dos prisioneiros, dados não em palavras mas em abundantes lágrimas de gratidão (e também de espanto pela sua bondade), esperando pacientemente até os ver mais sossegados para mandar chamar os escrivães, os dois peretandas ou corregedores da corte e os dez ministros da justiça a fim de lhes fazer a devassa. Vendo o seu tribunal bem ordenado, pusera-se de pé com um terçado nu na mão e como por artes mágicas transformara-se de generoso governante em implacável juiz. Com expressão colérica e voz severíssima, sujeitara-os a uma cerrada inquirição, trasladada no mesmo tom pelo seu jurubaça, para apurar quem eram, de onde vinham, como se chamava a sua nação, qual a razão da sua vinda ao arquipélago de Ryūkyū, quem os trouxera e para onde iam quando se perderam.