– Somos mercadores portugueses, naturais de Malaca – respondera Fernão que os companheiros tinham escolhido para porta-voz, preferindo arriscar parte da verdade, por saber como os léquios temiam os corsários chins e wokou. – Fazemos tratos com a China, por isso embarcámos em Liampó para Tanixumaa, onde já fomos de outras vezes. Perto da ilha do Fogo fomos destroçados por uma terrível tormenta que nos fez varar o junco na restinga da vossa montanha de Taidacão, onde se afogaram sessenta e oito dos nossos companheiros. Aos vinte e quatro que aqui vedes salvou Deus, lançando-nos miraculosamente na vossa praia, tão nus e ensanguentados como as nossas mães nos botaram no mundo. Valeu-nos a caridade, a piedade das donas e donzelas desta vossa terra, que fizeram um peditório pelas ruas de Sipautur para nos vestirem e alimentarem com as suas esmolas.

– A que título possuíeis, no vosso junco, tamanha riqueza em peças de seda quantas o mar deu às gentes que as recolheram na praia e me dizem ser no valor de mais de cem mil taéis de prata?

A voz e o semblante do broquem endureceram, ao acrescentar, alteando a voz para ser ouvido por toda a assistência:

– Não me parece possível que tais riquezas possam ser adquiridas por homens, honestamente, sem roubos e burlas.

A desconfiança do governador devia-se decerto a mexericos dos chins mercadores que via na assistência e Fernão, apercebendo-se do perigo que corriam, apressara-se a refutar a acusação:

– Juro-vos, meu senhor, que não somos ladrões e sim mercadores honestos. O Deus em que cremos não nos permite furtar e matar.

– Como justificas, então, que as vossas gentes, no tempo passado quando tomaram Malaca, por cobiça dos seus tesouros, tenham matado sem piedade muitos dos nossos, de que ainda agora há nesta terra algumas viúvas?

– A causa dessas mortes foi a guerra, meu senhor, não a cobiça de os roubar, porque o não costumamos fazer em parte nenhuma.

– Achais, então, que é falso o que dizem de vós? Negareis que quem conquista não rouba? Quem força não mata? Quem senhoreia não escandaliza? Quem cobiça não furta? Quem oprime não tiraniza? Por todas estas coisas que de vós se afirmam como verdade, parece que Deus, ao largar-vos assim da sua mão, dando licença às ondas do mar que vos afogassem, mostrou bem a inteireza da sua justiça.

Sentira a justeza daquelas recriminações, conhecendo por experiência os métodos empregados pelos portugueses para enriquecer na Índia, sendo raros os que passavam pelo comércio pacífico e honesto com os nativos. Hesitara, sem saber o que dizer, mas o broquem também não lhe dera ocasião a isso, ordenando aos seus peretandas que os levassem de novo à prisão.

– .Onde ficaríamos a aguardar a decisão d’el-rei Sho Sei de nos absolver ou condenar à morte por ladrões.

– Como ousou esse bárbaro gentio dar lições de probidade e honradez aos portugueses? – brada Pêro de Faria, furioso, interrompendo-lhe o relato. – Talvez seja de recomendar ao capitão-mor da nossa armada que lhe dê uma lição, pondo em prática aquilo que ele diz que nós fazemos na Índia.

– Asseguro-vos que tomar a Léquia grande é empresa fácil, bastando para isso dous mil homens, pois a sua gente não é guerreira, nem tem armas. Eu posso fazer-vos o debuxo dela e dar-vos toda a informação necessária sobre os lugares por onde se deve acometer para a conquistar, o que seria cousa de grande proveito para el-rei de Portugal e para os portugueses que labutam na Índia, porque só em tratos as suas três alfândegas rendem conto e meio d’ouro, afora o muito arroz e trigo que cultivam ou as suas riquíssimas minas de prata e cobre.

– Se assim é, podeis crer que o recomendarei ao governador – promete o capitão. – Mas, volvendo à tua história, porque mudou de aviso o broquem, sendo primeiro tão inclinado à piedade para logo vos acusar de ladrões?

– Ele não nos condenou logo e até intercedeu por nós nas cartas que escreveu a el-rei, o qual, para se certificar de que lhe faláramos verdade, mandou ir secretamente à prisão um dos seus espias disfarçado de mercador estrangeiro que, a pretexto de nos socorrer, trataria de averiguar miudamente as razões da nossa ida às suas ilhas.

– Fostes desmascarados!

– Não, porque o segredo foi mal guardado. Uma alma caridosa avisou-nos da sua vinda, de modo que, na sua presença, fingimos ser as mais miseráveis e infelizes criaturas que jamais pisaram a terra. Este fingimento, que já nos tinha valido a piedade do capitão, dos cavaleiros que nos prenderam, dos moradores dos lugares por onde passáramos e das damas honradas de Pongor que nos tinham provido do bom e do melhor, acabou também por convencer o espia da nossa inocência, o qual prometeu interceder por nós junto d’el-rei para que nos libertasse e enviasse a Liampó ou Malaca. Mas de novo o azar nos bateu à porta.

O azar chegara ao porto na figura de um corsário chim que tinha tratos com Sh-o Sei, a quem pagava um tributo de metade das presas tomadas na China, em troca de abrigo e da real protecção.

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