CII. E eis que surge Drupádi, reclinada numa liteira de ouro, e resguardada por um páyung de penas de pavão:/ Era como a imagem dourada de uma deusa, com o longo cabelo solto e livre ondeando ao vento./ Ela não o prendeu: deixa-o esvoaçar como uma nuvem ameaçadora, à espera do momento da chuva de sangue;/ Fiel ao voto de só apanhar a cabeleira e atá-la num nó, depois de se banhar no sangue do inimigo.

CIV. Então avança Krésna no seu carro dourado e abrigado por um páyung branco;/ Chefiando com prazer a retaguarda com os príncipes mais velhos e a hoste real./ Perto vêm o seu chákra e os príncipes do seu séquito montados em elefantes brancos;/ O grito dos elefantes ergue-se claro e alto, unindo-se à fanfarra de sons saídos de todas as hostes.

O rajá de Sunda fora recebido com todas as honras pelo sogro, à chegada a Japara com a sua frota, na qual vinham quarenta portugueses a quem pedira publicamente e com muito empenho que o acompanhassem naquela empresa, como artilheiros, em troca de grandes benefícios nas suas fazendas. As suas mercadorias ficariam isentas de tributos, cada português receberia cem cruzados pela campanha e outros trezentos seriam dados aos herdeiros de todos os que tivessem a honra de morrer nas suas fileiras.

O pagamento era muito generoso, para mais tendo o pedido a força de uma ordem, de modo que apenas ficaram com o junco o capitão Martim Esteves com cinco portugueses, que se escusaram por razões de doença e por haver necessidade de não deixar o navio desamparado. Fernão fora apanhado na rede, sem possibilidade de escapar mesmo se quisesse, consolando-se com a ideia do negócio vantajoso do soldo e dos benefícios da alfândega que lhe trariam a fortuna desejada, desde que se não deixasse matar, sendo a sobrevivência um exercício em que ele se tornara exímio.

Tinham chegado a Panarukan aos onze dias de Fevereiro de mil quinhentos e quarenta e seis. Trenggana viera no navio do rei de Pasuruan ou Passervão, o almirante da sua fortíssima armada, porém, como o rio era muito assoreado e só permitia a navegação de embarcações de pequeno calado, fizera desembarcar toda a sua gente num lugar a duas léguas de distância e enviara uma hoste nos barcos a remos para queimar todos os navios que estivessem no porto, o que fora feito sem grandes perdas de gente. Hasanudin, com o posto de general, seguira para Panarukan por terra com o exército, reforçado pelos contingentes de Bornéu, vassalo de Demaa, e de Achem, para assentar o arraial em lugar vantajoso.

Durante dois dias, os capitães do Pangeran com os seus homens, seguindo as indicações dos mercenários turcos e portugueses, cercaram a cidade com valos muito altos, terraplenos fortificados de fortes vigas, para suportarem as grossas peças de artilharia, dispostas de modo a baterem os pontos mais fracos das defesas dos adversários que, por sua vez, se haviam barricado em bastiões, tranqueiras e taludes providos de fortíssima artilharia.

Os jaus tinham muito boas armas e gozavam da merecida fama de lutarem destemidamente, sendo também bons artilheiros, ensinados por um renegado algarvio, mestre de fundição, enviado pelo rei de Achem, com quem aprenderam igualmente a fazer bombardas, além de espingardas, espingardões e muitos artifícios de fogo. As suas espadas, lanças e adagas eram rijas e fortes, tornando-se quase invencíveis quando se faziam amoucos e saíam para o ataque, dispostos a morrer matando, uma visão arrepiante a que Fernão em breve iria assistir.

Nessa noite, no campo bem vigiado, descansavam e folgavam com música e canções, a que não era alheio o consumo do arac, a sua aguardente, porque o dia seguinte fora aprazado para o primeiro assalto e, se lá entrassem pela força das armas, os portugueses dariam um papo quente188 à cidade, com permissão d’el-rei de Sunda. Eram danças guerreiras, muito bem executadas, a que não se eximiam os nobres da classe mais alta, competindo em pares, como num duelo, nus da cinta para cima e nas pontas dos pés, com os corpos cobertos de pó amarelo, ora meneando o cris e o escudo, ora retesando o arco e soltando a flecha, ou ainda atirando a lança ao ar e apanhando-a com destreza e galhardia, evoluindo com o corpo e os braços em graciosos movimentos ou atitudes, ao som do gámelan. Para Fernão era mais fácil entender a dança do que a língua, porque os jaus falavam diferentes idiomas entre si, mudando conforme a qualidade ou importância daquele com quem falavam.

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