As quatro companhias de guerreiros sedentos de sangue saíram por distintos lados da cidade, em silêncio, e caíram sobre o arraial dos descuidados invasores como uma horda imparável, indiferentes à dor e ao medo, de olhos acesos em fúria, narinas frementes, espadas e lanças volteando em louco frenesim, enterrando os corpos nas lâminas dos surpreendidos adversários, metendo-se por elas para lhes chegarem com as suas e arrastá-los consigo para o reino dos mortos.
Uma hora durou o combate e, por fim, os amoucos de Panarukan retiraram-se vitoriosos para a cidade, com poucas baixas, levando cativos três reis e oito pati, que são como duques, deixando atrás de si o campo do Pangeran de Demaa quase destroçado e juncado de milhares de mortos. Hasanudin foi ferido com três lançadas e só não perdeu a vida nem foi feito prisioneiro porque os quarenta portugueses o defenderam corajosamente, com a morte de catorze companheiros. E o próprio Pangeran esteve à beira da morte, por causa de uma zargunchada que o atravessou de lado a lado e, embora não fosse um golpe mortal, fizera-o cair ao rio, de onde o retiraram mais tarde meio afogado.
Trenggana sacudira o médico que lhe pensava a ferida, mal se apercebendo da dor, com a raiva que sentia pela pesada derrota que lhe manchava a honra. Culpava o genro pelo desaire, visto ser o general do campo responsável pela ordem no arraial.
– Tanta gente morta e ferida no começo do cerco, Hasanudin, sem sequer acometermos a cidade? Tão má vigia puseste no campo que por duas vezes os nossos homens foram desbaratados, antes mesmo de os capitães os poderem pôr em ordem de combate ou até de tomarem as armas!
O sultão de Sunda aceitava os remoques, enfiado e corrido, sentindo-se culpado da muita desordem que houvera em todos.
– Trata de fortificar de novo o arraial, porque te juro sobre este livro do profeta Muhammad que não deixarei o cerco, enquanto não arrasar a cidade e passar toda a gente à espada sem poupar a vida a ninguém.
Diz-se que o homem põe e Deus dispõe, um ditado certeiro no presente caso porque passados três meses, apesar de todos os engenhos de guerra, dos inúmeros assaltos à cidade e de alguns milhares de mortos de ambos os lados, Panarukan continuava de pé, inconquistada.
Os sitiados viam com desespero a grande serra feita de entulho e terra, fortificada com vigas, que em nove dias os inimigos tinham erguido diante da cidade e lhes tapava o horizonte, de onde os bombardeavam constantemente com pesada artilharia, causando-lhes grandes danos.
– Senhor, se nada fizermos, a nossa perdição é certa – disseram os quatro capitães dos amoucos ao sultão de Panarukan. – Dá-nos licença para acometer e destruir aquela serra, como fizemos ao seu arraial, no início do cerco. Vê como os teus soldados se oferecem para vencer ou morrer.
El-rei saiu ao terreiro coberto de amoucos, que o saudaram com um grande grito. Ali estavam todos os que podiam pegar numa lança, espada ou arco, quase nus, com os corpos untados de minhamundy, como remate da sua determinação de morrer pelejando.
– Sois, em verdade, os Tigres do Mundo! – bradou-lhes, cheio de orgulho pela valentia e lealdade dos homens. – O comando desta missão pertence aos vossos quatro capitães, mas desta vez eu também irei convosco, como capitão general.
A ovação dos soldados encheu de ânimo o seu jovem coração e o soberano retirou-se a fim de se preparar para o combate, aprazado para quando nascesse o sol, que daria no rosto dos artilheiros inimigos, ofuscando-os.
O assalto durou o tempo de Fernão rezar dois ou três credos, vendo estarrecido como os amoucos acometiam a fortificação sem medo e com total desprezo da morte, os corpos brilhando sob os raios de sol como uma auréola, desbaratando os turcos e achens que a defendiam. Acudiu Trenggana, em pessoa, com a sua companhia de amoucos, que também os tinha igualmente dispostos a reconquistar a serra de entulho, agora nas mãos dos panarucões, ou a morrer na peleja.
Entrincheirados nela, os sitiados defenderam-na enquanto puderam, causando pesadas baixas ao invasor, embora à custa de muitas vidas e sangue da sua gente. Era hora de vésperas, quando o sultão de Panarukan, que apesar de muito ferido se mantinha no seu posto, deu ordem para lançarem fogo à serra por várias partes e se retirarem para a cidade. As chamas propagaram-se pelo entulho, faxina e vigas da fortificação como por palha, não tardando a chegar aos barris das munições que rebentaram com medonho fragor, transformando a serra num braseiro, que não havia quem o pudesse sofrer a mais de um tiro de besta em redor. Os sitiados tinham vencido de novo Trenggana, o poderoso imperador de Java.
187 Poema épico em káwi, língua clássica de Java.
188 Dar um papo quente – saquear à escala franca um lugar, um navio; ter liberdade de saquear.
IV
Quem caminha por atalhos, nunca lhe faltam trabalhos
(português)
Tratado de paz entre El-Rei D. João III e os habitantes da ilha de Sunda, e auto de posse que se tomou, em nome do dito Rei da mesma ilha (1532):