Por onde passava o exército móvel e ligeiro de Ahamed, nada ficava de pé e só sobreviviam os que se faziam mouros e serviam os conquistadores. Tudo era saqueado e queimado, em particular igrejas e conventos, depois de estripados das ricas alfaias de ouro e prata, dos panos preciosos de brocado, seda e veludo, reduzidos a cinza que o vento dispersava pela terra enegrecida. Destruíra e pilhara a cidade Axum da lendária rainha de Sabá e roubara o tesouro real guardado na Amba Nagast, uma serra que se julgava inexpugnável.
Isto contam Seixas e os três filhos do escudeiro Pêro da Covilhã, com muita emoção quando, ao fim da primeira jornada, acampam para cear e dormir, em resposta às perguntas que lhes fazem os recém-chegados, vendo as terras queimadas e as povoações destruídas e abandonadas.
– Esta província foi a primeira a ser assaltada, faz já alguns anos – conclui Seixas. – As hostes do Granhe são como pragas de gafanhotos, ávidos e ligeiros, atacam um lugar e logo partem para outro; porém, quando acabam de passar, não fica um grão no campo, nem uma galinha na capoeira e a fome faz fugir os sobreviventes dos ataques. Podemos atravessar com alguma segurança, porque já não há nada para roubar nestas terras. E amanhã entraremos na parte da Abássia que ainda está sob o domínio do Preste e tereis outro recebimento.
Seixas fala verdade. Por todo o lado os gaxiagenuz ou estrangeiros são recebidos como emissários da salvação que tarda, mas há-de chegar na ponta das espadas e nos tiros dos arcabuzes portugueses. Partilham com eles os melhores comeres que podem confeccionar na escassez da guerra e servem-lhos numas gamelas da feição de bandejas compridas e assentes no chão, em vez de mesas, porém essas iguarias são de estarrecer e fariam bolsar o labrego mais faminto.
Os visitantes ainda conseguem engolir uns pedaços da posta quase crua de boi ou carneiro, temperada com muita pimenta e sal, servida sobre uns pães chatos e largos, chamados apas, que fazem as vezes de pratos – e também de guardanapos, pois é a eles que os abexins limpam as mãos –, porém, o prato principal que lhes oferecem como a melhor iguaria do mundo, o chienfillá, não passa de um guisado de lixo de vaca feito de fígados e tripas mal lavadas, tudo temperado com sal, pimentos e fel. Vale-lhes, para empurrar o requintado manjar, a talla, uma cerveja de cevada e sorgo e, para lavar o mau gosto da boca, o abençoado teg, um hidromel muito saboroso, servidos ambos em cornos de boi de cinco ou seis canadas que em pouco tempo os põem a dormir como anjos.
Avistam, depois de longas e penosas jornadas, a montanha onde se refugiou a imperatriz com os filhos, as mulheres e os velhos. No sopé da serra estende-se o vasto arraial de tendas dos seus defensores, uma coorte de guerreiros abexins, além do troço dos quarenta portugueses de Henrique Barbosa que vêm recebê-los ao caminho com lágrimas de alegria e de saudade.
– Estamos aqui muito à nossa guisa, como senhores da terra – diz-lhes o feitor com voz embargada pela comoção, quando consegue falar –, porém, isso dá-nos pouca satisfação.
– .porque aqui é desterro e não a nossa pátria – conclui o que os guiara.
Fernão fica sem saber o que dizer, mordido por uma saudade igual à dos desterrados e sente-se aliviado quando Henrique Barbosa os convida para comer, depois de os aposentar na melhor tenda do arraial, por ser noite e já não poderem visitar a imperatriz.
– Os cozinheiros são abexins? – pergunta Fernão por zombaria ao feitor, que solta uma gargalhada.
– É gente da terra, mas cozinham ao nosso modo, pois já cá estamos há mais de três anos. Descansai que não vos daremos o chienfillá – e ri-se de novo quando os quatro hóspedes lançam em simultâneo um suspiro de alívio.
– Não nos importamos de tomar talla.
– E o teg até se bebe bem.
Regalam-nos com um bom assado de vaca, regado de abundante cerveja e hidromel. Entre os comensais, além dos portugueses, contam-se os três filhos de Pêro da Covilhã.
– Tal pai, tais filhos! – exclama o feitor, num rasgado elogio que os faz corar de satisfação. – São fidalgos valentes como poucos e combatem ao modo de Portugal, segundo lhes ensinou o nosso Pêro ou Cid Petrus como aqui é nomeado com reverência.
– Apesar de ter mais de setenta anos, combateu nas primeiras escaramuças com os mouros – esclarece o moço mais velho, cheio de orgulho.
– O nosso pai morreu no campo de batalha, a lutar, como era seu desejo – acrescenta o mais novo, com os olhos húmidos.
Fernão sente-se arrebatado por aquele encontro, que é mais um elo a enredá-lo na formidável teia de acontecimentos e de gentes, em que ele agora também participa, fazendo História e ligando Portugal aos quatro cantos do Mundo, deixando para o bem e para o mal a sua marca nos povos e lugares. Por sorte, o feitor é um homem loquaz e, enquanto ceiam, põe os recém-chegados a par da situação que se vive no reino da Abissínia: