– Há dez anos que este reino anda sujeito a ferro e fogo. No ano de vinte e sete, a poderosa armada do Negusa Nagast foi derrotada na batalha de ad-Dir por tropas muito inferiores em número, mas bem armadas e ainda melhor comandadas pelo maldito Granhe, que se fez imã e apelou à jihad.
– E logo no ano seguinte repetiu o feito, vencendo o Rei dos Reis numa grande batalha e ocupando cinco das principais províncias da Abássia – acrescenta Seixas que, tendo guiado os visitantes durante aqueles dias, se acha com direitos à sua instrução. – Pilhou e abrasou igrejas e mosteiros, destruiu relíquias e livros sagrados e cativou muita gente que depois converteu à Lei de Mafamede. O Preste tem vindo a perder terreno a cada assalto do Canhoto que o empurrou para as terras altas e implantou um reino muçulmano nas terras conquistadas.
Sem se melindrar com a interrupção, o feitor concorda e prossegue:
– Por isso, há dois anos, depois da destruição da riquíssima cidade de Axum, onde outrora a rainha de Sabá guardava o ouro das suas minas, o Preste enviou ao nosso bom rei D. João III e ao Papa Paulo III um pedido de socorro. O mensageiro foi o seu abuna, o bispo D. João Bermudez que, antes de ser consagrado patriarca de Alexandria, era nem mais nem menos do que mestre João, o físico português da embaixada de D. Rodrigo de Lima que por cá ficou como refém, vindo a tomar as ordens. – E conclui, encolhendo os ombros descontente: – Todavia, até hoje, não chegou qualquer resposta nem vieram tropas.
– Era então por isso que Seixas nos esperava, sem saber que vínhamos!
– Com assunto de tamanha urgência, temos sempre no porto um homem de vigia. A imperatriz vai ficar muito desiludida e angustiada por não receber carta do governador ou d’el-rei de Portugal.
Agradado da curiosidade e interesse de Fernão, quando ele lhe pede que conte com minudência o que sabe do espião de D. João II e das primeiras embaixadas entre os reinos de Portugal e da Etiópia, o feitor não se faz rogado em prolongar o serão, depois de os companheiros se retirarem a cambalear de sono e de vinho, à excepção dos três filhos de Pêro da Covilhã que não se cansam de ouvir as histórias do seu pai.
– Desde menino que tenho escutado muitos rumores sobre invejices e desavenças entre os membros das embaixadas que foram a causa de se perderem. Na casa do meu amo, o senhor D. Jorge, falava-se muito do padre Francisco Álvares que participou nas duas embaixadas e estava a escrever um livro sobre o que vira e ouvira nesta terra.
Henrique Barbosa acede de boamente ao seu pedido com tamanha viveza e minudências que Fernão não tem dificuldade em assistir com os olhos da sua imaginação, ainda mais pujante do que a do interlocutor, ao encontro entre o espião d’el-rei D. João II e o padre Álvares que viera na embaixada enviada por el-rei D. Manuel ao Preste João das Índias.
O homem é como a palma-vinho: quando jovem, doce mas sem força; na velhice, forte mas áspero
(africano)
Como Pêro da Covilhã foi ter a esta terra do Preste:
Tenho algumas vezes falado em Pêro da Covilhã português que é nesta terra e com ele alegado, e não deixarei d’alegar por ser pessoa honrada e de merecimento e crédito, e é razão que se diga como a esta terra veio ter, e dele darei conta como é razão e ele de si ma deu .
Mais me contou o princípio de sua vida. Primeiramente como era natural da vila de Covilhã nos reinos de Portugal e como foi até fora do estreito na cidade de Zeila, e daí caminhou por terra até chegar ao Preste João que é de Zeila muito perto e chegou à corte e deu suas cartas a el Rei Alexandre que então reinava, e diz que as recebeu com muito prazer e alegria dizendo que o mandaria à sua terra com muita honra. E neste tempo morreu, e reinou seu irmão Nahu, que o assi recebeu com muita graça, e pedindo licença não lha quis dar. E morreu Nahu e reinou seu filho David que hora reina, e assi quis pedir-lhe licença e não lha quis dar. Dizendo que não viera no seu tempo, e que seus antecessores lhe deram terras e senhorios que as regesse e lograsse, que a licença não lha podia dar, e assi ficou. Ele Pêro de Covilhã é homem que todas as línguas sabe que se falar podem assi de cristãos como mouros, e gentios, e que todas as cousas a que o mandaram soube, e assi delas dá conta como que as tivesse presente.
(Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias,
escrita pelo P.e Francisco Álvares)
Pêro da Covilhã cala-se, fatigado ou perdido nas recordações que desfiava há várias horas, sem que o padre Francisco Álvares, sentado na sua frente, ousasse interrompê-lo para não quebrar a magia. Deixava-o boquiaberto aquela confissão, a primeira que o espião de D. João II fazia a um sacerdote em trinta e três anos de Etiópia, porque, como os padres abexins não guardavam o segredo do confessionário, só na igreja e no íntimo do seu coração se confessara a Deus.