Pêro de Mascarenhas, o capitão de Malaca que tinha sido escolhido por el-rei para governador da Índia, antes de partir para Goa, decidiu destruir de vez o poder de Mahamed. Com a sua armada, a que se juntou Francisco de Sá com os seis navios, onde eu ia por capitão do bergantim S. Jorge, Mascarenhas foi atacar a ilha de Bintão, o reduto quase invencível onde o sultão derrotado se acoitava. Desbaratou-lhe a frota e o exército, tomando-lhe a ilha, com uma estratégia superior à de Afonso de Albuquerque e sem perder um único homem.

Terminada a conquista de Bintão, Francisco de Sá despediu-se e partiu com a frota para Sunda. O capitão, que tinha escapado incólume, com todos os oficiais e guarnições dos seus navios, aos maiores perigos da batalha, ia meter-se sem o saber em piores trabalhos, à sua chegada a Sunda.

Falatehan, um caciz mouro oriundo de Samatra, viera de Meca para pregar a Lei de Mafamede na ilha de Java, fazendo-o com tanta dissimulação e manhas de santidade que lograra converter o rei de Demaa que lhe dera a filha em casamento. O caciz apoderara-se do reino hindu de Mojopahit, matando o rei que dera licença aos portugueses para a construção da fortaleza e forçando os gentios à conversão. Declarara guerra aos cristãos, não os consentindo na sua terra e lançara uma fatwa, proclamando ser obra santa que faria ganhar o paraíso a quem matasse os portugueses que naufragassem nas suas costas.

Sendo a nossa frota tanto avante como a ilha de Lingga, deu-nos um tempo tão forte que dispersou os navios e, durante muitos dias, soprou-nos como folhas secas a voar sobre as águas. Não podendo pairar, fomos forçados a arribar a estas costas, pois só Duarte Coelho logrou tomar o caminho de Malaca com a sua nau. Uma galé e uma fusta arribaram com muito trabalho ao porto de Sunda, mas o meu S. Jorge deu à costa e os trinta portugueses que se salvaram a nado foram de imediato mortos pelos mouros da terra, com excepção de nós os três que, vendo o massacre, esperámos pela noite agarrados a um madeiro, para podermos sair da água sem sermos vistos.

Francisco de Sá conseguiu juntar os restantes navios e foi lançar ferro no porto de Banten, enviando recado a el-rei, a lembrar-lhe o tratado feito com o seu antecessor e, confirmando a amizade dos portugueses, pedia-lhe permissão para construir a prometida fortaleza. Como ele não consentiu, o capitão mandou desembarcar o seu exército para ocupar a terra e “fazer por força o que ele não queria consentir por vontade”, contudo, a resistência feroz dos mouros forçou-o a retirar-se para Malaca com quatro mortos e muitos feridos.

Quando ele se cala, os companheiros mantêm-se em silêncio durante uns momentos, espantados com a sua história.

– Segundo me disse o capitão Pêro de Faria – recorda Fernão –, só em mil quinhentos e trinta e três voltou a ser enviada uma armada, aqui a Java, sob o comando de Lopo Álvares, com a missão de negociar um novo tratado de paz para o estabelecimento de uma fortaleza, aqui mesmo, em Panarukan, que, não chegou a ser feita.

– Se vossa mercê quiser ir connosco quando volvermos a Sunda – sugere Rui de Moura, em modo de consolação –, daí poderá seguir para Malaca, onde prazerá a Nosso Senhor que acabará a vida a Seu serviço.

– Oh, sim, levai-me convosco, pelo amor de Deus! – brada Taborda, com os olhos marejados de lágrimas, caindo de joelhos, com as mãos postas numa prece. – A cousa que mais desejei, nestes vinte e três anos de exílio, foi viver de novo com cristãos.

Abraçaram-no comovidos e, entre todos, proveram-no de trajos cristãos e mantiveram-no sempre com eles enquanto durou o cerco, convencendo Hasanudin de que o cativo nunca chegara a entrar na cidade e, por isso, desconhecia tudo o que lá se passava. Juntamente com Fernão, Taborda cuidou dos feridos e queimados com tanto desvelo e saber que muitos lhe ficaram a dever a vida. O mesmo haveria de fazer em Malaca, onde terminaria a sua vida santamente, servindo um ano no hospital dos doentes incuráveis.

V

Se partiste para o norte, segue para norte, não vires para leste, oeste ou sul

(jau)

Inscrição numa pedra na antiga língua Java ou Kawi, no ano de 467:

E os poderes das letras, que são quarenta e sete, fixai-as na vossa mente, para que fiquem dentro de vós. Dispô-las-ei de modo a que as possais desenhar com os vossos três dedos; os hábeis poderão fazer belas letras. Não desprezeis a aplicação das letras, dai a cada uma o seu lugar próprio, porque estas letras são utilíssimas nas transações dos povos deste mundo, enquanto nele viverem.

Assim, para as nações do mundo, o uso das letras abre os corações dos homens ignorantes e faz lembrar aos esquecidos. Porque eu dou indicações aos homens que podem escrever, para que o conhecimento que eu guardo no meu peito possa ser conhecido: e ensinei-vos isto, porque esse conhecimento é a essência do corpo e ilumina-o.

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