Com razão o dissera, pois com Lançarote estavam os outros capitães alevantados ou desertores a quem o capitão de Malaca escrevera cartas para que o fossem socorrer: António Gomes, Pêro Ferreira, Cosme Bernardes, Gonçalo Falcão, Gonçalo Vaz Coutinho e Diogo Soares. Filhos segundogénitos de famílias nobres que buscavam honra e proveito, por meio das armas, nas conquistas do Oriente, mais difíceis de obter ao serviço do Estado da Índia do que no corso ou nas armadas dos reis gentios e mesmo muçulmanos, que lhes apreciavam a valentia e a lealdade. Méritos atestados pelo provérbio mouro que corria por esses reinos: Comer em casa do judeu e do gentio, mas dormir em casa do português, seguros de não serem atraiçoados e assassinados durante o sono.

Fernão entregara-lhes as cartas de Faria, sublinhara a necessidade de ajuda a Malaca pelo perigo em que se achava, sujeita a ser acometida de um lado pelo rei de Bintão e do outro pela armada de cento e trinta navios do sultão de Achem.

– A armada dos achens já não oferece perigo – dissera Gonçalo Coutinho –, pois foi desbaratada em Tenassarim e tão depressa não fará mal seja a quem for.

João Caeiro acrescentara, depois de ouvir os outros capitães:

– Embora estejamos sempre prontos para servir el-rei, nosso senhor, como o pior perigo passou, não há mister ir agora a Malaca, arriscando-nos a desaprazer a Tabinshwethi que nos paga este serviço.

– Rogo-vos, então, que me passeis um instrumento de tudo o que me dizeis, para me darem crédito em Malaca de que levei a cabo a minha missão – pedira-lhe Fernão que pretendia ir-se embora logo que surgisse ocasião.

Passados quarenta dias ainda permanece no arraial, cansado de ouvir as histórias dos sete meses de cerco, das vidas e façanhas dos sitiadores. O rei de Bramaa assaltara a cidade por cinco vezes, sem lograr conquistá-la, porque a artilharia dos alevantados portugueses, embora superior a tudo o que até então se vira naqueles reinos, era fraca, quase inútil contra as altas muralhas e anteparas. Da banda de terra, a cidade estava rodeada por uma funda cava, cheia de água e de estrepes, que dificultava os assaltos; do lado do mar era defendida por sete navios portugueses, bem armados com cem homens sob o comando de Paulo Seixas, um aventureiro leal ao senhor de Martavão.

Os sitiados tinham repelido todos os ataques, causando grandes perdas aos assaltantes, embora tudo faltasse dentro das muralhas, desde alimentos ou munições aos próprios defensores, que eram menos de cinco mil homens, porque já muitos tinham desertado ou morrido do ferro e da fome.

Era pela fome e pela traição que Tabinshwethi os queria render, cortando-lhes o acesso aos mantimentos, peitando os seus comandantes e ministros com ouro ou promessas de feudos e cargos, sendo prática corrente entre os sawbwas ou governantes das cidades e reinos daquela região, na sua contínua luta pelo poder, vir o ganho pessoal sempre primeiro do que a lealdade ao seu rei ou à própria família. Exemplo disso era o governador da cidade vizinha de Moulmein, cunhado de Chaubainhaa e, tal como ele, da mesma raça dos mons de Pegu, que o rei de Bramaa aliciara para o seu partido, prometendo fazê-lo senhor de Martavão, se ele não prestasse auxílio à cidade.

Fernão está contente por se achar do lado dos vencedores, embora sinta pena dos sitiados e do seu rei, com quem viera fazer aliança em nome do capitão de Malaca. Por estranha coincidência ou talvez por sentir algum remorso da traição, lembra-se do embaixador António Correia que, um quarto de século antes, ali assinara um tratado de paz com o rei de Pegu, que era também senhor do Martavão. Um trabalhoso acordo conseguido graças à sua diplomacia que soubera aplainar as dificuldades e sanar diferenças, conforme lhe contara Pêro de Faria, quando preparava a sua missão. A perder tempo não se ganha dinheiro, pensa, lamentando que esta sua viagem tenha redundado em fracasso, mas não pode partir agora que o porto está debaixo do fogo dos navios de Seixas.

O cerco arrasta-se sem fim à vista e os comandantes dos bramaas, dos talaings, dos shans, dos mons e das demais raças que formam o exército dos sitiantes vêem-se metidos em grandes atribulações com as deserções dos soldados e marinheiros. Por medo, cansaço ou saudades da terra e da família, ao menor alvoroço no arraial, não só alguns mas todos os soldados de uma hoste ou mesmo da companhia tomavam o seu fato e, pés para que vos quero, desapareciam do arraial, deixando os seus oficiais a contas com a fúria d’el-rei.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже