O tungoo Tabinshwethi não era senhor de deixar os culpados sem punição, responsabilizando os chefes pelos erros ou covardia dos seus homens. Para manter a disciplina ordenava castigos tão atrozes à menor falta que, por fim, tanto os oficiais como os soldados bisonhos preferiam arriscar a morte em combate a sofrer a sua ira. Os castigos para qualquer fuga, deserção ou traição estendiam-se também a toda a família do faltoso que, na sua terra, era encerrada numa cabana de madeira e queimada viva. Kyoahteng Noarahtâ, o comandante-mor e seu cunhado, nomeado pelo honroso título de Bayin-naung, secundava-o, porque a sua grande experiência de guerreiro lhe ensinara que, mesmo quando é grande a diferença de número entre os adversários, mais do que o número conta o espírito numa batalha.

Perdido por cem, perdido por mil!, resigna-se Fernão como sempre que se defronta com situações ou acontecimentos cuja solução não depende da sua vontade. Pouco há a fazer no cerco e, como os capitães da armada de Lançarote Guerreiro o recebem com muita amizade, por lhes ter levado as cartas de Pêro de Faria, aproveita para conhecer as histórias das suas vidas, que eram todas de espantar. Forneciam-lhe um manancial de informações sobre muitos povos e terras daquele vasto mundo, onde poderia fazer lucrativos tratos, sem ter de pagar o quinto à Coroa portuguesa, porque esses lugares, devido à distância a que se achavam, estavam fora da alçada do governador e dos capitães de Goa ou de Malaca.

Fora sempre assim, desde a governação de Lopo Soares de Albergaria, o sucessor de Afonso de Albuquerque, que permitira a grande soltura da classe nobre, já de si indisciplinada, arrogante e pouco inclinada a acatar ordens, que viera para a Índia em busca de honra nos feitos militares e de proveito nos postos das capitanias, quer de terra quer de mar. Sendo os cargos escassos e a gente muita, quando a recompensa oficial tardava ou não havia vaga, até fidalgos da estirpe de Lançarote acabavam por desertar com as suas naus ou juncos para andarem ao salto das embarcações de mouros e gentios, longe das derrotas da carreira da Índia e da vigilância da Coroa.

Das histórias destes aventureiros corsários, nenhuma levava a palma à de Gonçalo Vaz Coutinho, homem fidalgo que gozava entre os seus da fama de guerreiro destemido e esforçado. O próprio a contara uma noite, na sua nau, quando se juntaram para cear e desenfadar-se com umas canadas de vinho, que nunca faltava nas martabanas, os grandes potes de cerâmica do Martavão que serviam de barris para transporte de líquidos e outras mercadorias.

– Prenderam-me no tronco de Goa por um caso de que não vale a pena falar – começou, rindo-se dos protestos dos companheiros. – Ali se achavam outros mancebos de sangue na guelra, como eu, acusados de grandes crimes.

Como era um desperdício que gente valente como aquela estivesse ali sem fazer nada, em vez de andar à caça de presas nestes mares infestados de barcos mouros, dei-lhes conta das minhas razões, confiando-lhes que tinha um plano de fuga para todos os que quisessem acompanhar-me. Nenhum quis ficar para trás.

– Contai comigo! Tudo é preferível ao baraço e ao cutelo. Não é certo que o governador nos conceda o perdão.

– Tão pouco quero ser degredado para o reino, mais pobre do que de lá saí e carregado de ferros, para grande vergonha da minha família.

– O tronqueiro, embora cafre, é honrado, não recebe peitas – disse o preso mais antigo, conhecedor das manhas do tronco –, já o tentei com ouro, sem efeito. Tem grande vigilância sobre o escravo jau que nos aferrolha e deita as correntes. Que podemos fazer?

– Por ora nada – sosseguei-os –, mais tarde iremos precisar de ajuda, no exterior, de homens valentes, amigos ou parentes, com quem possamos contar.

– Descansai, que desses não haverá míngua.

– Então deixai o negócio por minha conta.

Eu tinha uma escrava moça, muito formosa e mandei-lhe recado para que viesse todos os dias trazer-me a comida ao tronco e cuidar do que houvesse mister para me dar algum conforto. Como eu esperava, o jau não tirava os olhos dela, a babar-se de desejo. Animei-a a corresponder-lhe, dizendo-lhe que a nossa salvação dependia dela e daqueles amores, prometendo-lhe alforria se fosse bem sucedida.

O jau era bem apessoado e a cachopa dedicou-se de alma e coração à tarefa de o seduzir, não tardando o moço a quedar doido por ela. Quando o teve bem fisgado, depois de dormir algumas vezes com ele, pediu-lhe que me soltasse e aos outros presos, que eu os levaria também para onde fossem livres e ela seria sua para sempre. O escravo ficou tão assustado que a moça julgou o negócio perdido, porém ele apenas tinha dúvidas se eu cumpriria a palavra e o levaria também na fuga.

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