Chegara a vez de o embaixador do reino de Portugal prestar o seu. O capelão tomou o livro da almofada e levou-o para junto do Rolim, abrindo-o à sorte para António Correia ler. Era a única obra de folha de papel inteira que tinham na nau, um cancioneiro de trovas de fidalgos e pessoas principais que Garcia de Resende, o escrivão da puridade d’el-rei D. João II, tinha mandado imprimir e servia nas viagens para desenfadamento da tripulação, sendo lido aos serões ou por ocasião de alguma festa, pelo capelão ou por quem o soubesse fazer.
Como aquele povo só guardava juramento enquanto lhe convinha o negócio, depois da leitura que o rolim fizera da lenda como se fora um texto sagrado, o Cancioneiro Geral até vinha a propósito. O embaixador pôs os olhos na página aberta e começou a ler a trova de Luís da Silveira, o conde de Sortelha:
Vaidade das vaidades
e tudo é vaidade,
assi passam as vontades
com’às cousas da vontade.
Tudo se já desejou
e tudo s’avorreceu
e tudo se já ganhou
e tudo se já perdeu.
E o homem que mais tem
do trabalho a que se dá?
a geração vai e vem,
a terra sempr’assi está.
As cousas naquesta vida
todas s’entregam per conto,
que se cá dê mor medida,
tudo lá tem seu desconto.
O poeta glosava a sentença de Salomão, no Eclesiastes, Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade, contudo, à medida que ia lendo as palavras da trova, o embaixador sentia um arrepio de medo supersticioso a trespassar-lhe o corpo. Não fora talvez por acaso que o livro se abrira naquela precisa página, pois o poema soava-lhe aos ouvidos como um aviso ou uma censura por estar a fazer uma farsa daquele juramento. Esforçou-se para que a voz não tremesse, prosseguindo com a leitura:
O sisudo e o sandeu
tudo vi que tinha fim,
e disse então entre mim:
– Que me presta o saber meu?
Ignorantes e prudentes
todos têm ūa medida,
na morte nem nesta vida
não nos vejo diferentes.
Assi que neste presente
bons nem maus não se conhecem
e a todos igualmente
bens e males acontecem.
Daqui nacem confusões,
nacem descontentamentos,
perdensas, opiniões,
abaixam-se os pensamentos.
Um suor frio corria da testa de António Correia, parecendo-lhe estas palavras tão poderosas como se estivesse a jurar sobre as da Bíblia. Leu a última estrofe, com uma voz a ressumar de emoção que não logrou conter, enquanto prometia a si próprio, a fim de apaziguar o bater assustado do coração, que cumpriria o seu juramento com custo da sua vida, porque não podia invocar a Deus com falsidade e enganos, mesmo em negócios com gentios de outra fé:
O justo, o sabedor
e o mais cheio de fé
nenhum não sabe se é
dino d’ódio se d’amor.
Quantos isto faz perder,
porqu’a quem a fé não dura
encomenda-s’à ventura
e deixa de merecer.
Palavras proféticas, as do poeta, decerto inspiradas por esse sopro divino que dizem ser o alento dos vates. O silêncio que se fizera no templo era quase religioso, talvez devido à emoção com que lera os versos e que encontrara eco no coração dos pegus. No coração de alguns mouros mercadores que estavam presentes ao acto do juramento, a paixão era outra, de puro ódio, por medo de perderem os grandes lucros que tinham com os tratos das suas fazendas se os portugueses começassem a vir a Pegu. E logo juraram fazer quebrar as pazes assinadas pelos seus inimigos.
Enquanto António Correia carregava os dois juncos com mantimentos para Malaca e a sua nau com outras mercadorias para levar a Ormuz, a gente principal de Martavão convidava diariamente os portugueses para banquetes que ofereciam em sua honra, com o que todos folgavam. O piloto e o mestre da nau eram os que mais vezes iam a terra, para se proverem do necessário ao conserto das velas e afins, comendo sempre em casa de um abastado comerciante com quem tinham travado amizade.
Os mouros que os espiavam, ao saberem disso, usaram de muita indústria para aliciar um criado do dito mercador, a quem pagaram grossas peitas para que, nas vésperas da partida dos portugueses, quando os hóspedes do amo fossem lá cear, como fora aprazado, lhes pusesse peçonha na comida.
A traição foi levada a cabo com êxito, o piloto e o mestre morreram em poucas horas, depois de terem ingerido a comida que o moço lhes adubara com um forte veneno. Correia ficara consternado com as mortes, sentindo no entanto algum alívio quando soube que o crime fora a mando dos guzarates e não dos pegus, porque o senhor na casa onde os oficiais tinham comido deu tormentos aos criados que confessaram a traição. Sem o seu piloto, experimentado na derrota para Ormuz, seria o mesmo que navegar às cegas, por isso o capitão decidiu seguir para Malaca com pilotos da terra que costumavam fazer a viagem.
Apesar de todas as contrariedades e dos altíssimos gastos em peitas e odiaas, o embaixador estava satisfeito por poder assegurar ao governador Diogo Lopes de Sequeira, seu tio, que tinha cumprido a missão, selando em folhas de ouro um acordo de paz e comércio entre os reinos de Pegu e Portugal, que haveria de perdurar por muitos anos.