192 Adaptado de uma tradução de Maria Ana Marques Guedes O estabelecimento português no Sirião segundo uma crónica birmane, revista Oceanos, n.º 32, 1997.

III

Comer em casa do judeu e do gentio, mas dormir em casa do português

(oriental)

Carta de D. João de Castro a El-Rei D. João III:

Os capitães das fortalezas, oficiais, lascarins e toda a mais gente da Índia vivem tão mal e têm cobrado tamanha soltura em vícios, desobediência e toda a maneira de serviço de Deus e de V. A. que é cousa de muito recear e temer de vir parar em algum grande desacatamento e motim; [de] tudo isto a meu ver é causa a maneira de vossa justiça, porque se há parte no mundo onde se haja mister ser bem rigoroso e de improviso é na Índia. E, sendo assim, é ela cá tão larga, fraca e espaçosa que nenhuma pessoa tem medo de pecar por causa das muitas colheitas e esperanças que tem nas delongas dos processos, rogos de religiosos e necessidades que sempre há de gente e armadas.

Como quer que um homem mata outro, ou é alevantado ou faz outras cousas desta qualidade, vem dizendo que tem ordens, ou que é frade e fez profissão em Castela, e as testemunhas que dão a má prova umas dizem que estão na tórrida zona e outras debaixo dos pólos [e] cedo alegarão que fizeram profissão na Rússia ou em terra dos Georgianos; de maneira que, para se acabarem de fazer as diligências, primeiro dará uma volta a oitava esfera; e com isto e outros processos longos e infinitos se não pode cá fazer nenhuma justiça dos culpados, e vêm a fugirem os presos das cadeias ou a morrerem de velhice de sua morte natural; do que segue viver cada um a seu prazer, sem ter medo nem acatamento da justiça.

Ano de mil quinhentos e quarenta e sete

Bem instruído e documentado sobre o Martavão e o seu rival Pegu, Fernão Mendes Pinto embarcara no junco de um chim muçulmano, residente em Malaca, que tinha grandes negócios com os mercadores malaios e tâmiles. Tinham percorrido toda a costa sem maus encontros, embora com algumas aventuras inesperadas: a descoberta de centenas de corpos de guerreiros mortos, de mãos atadas, numa ilha onde tinham ido fazer aguada, decerto usada como lugar de suplício de criminosos e corsários; o encontro com três portugueses num batel à deriva, vítimas de um assalto; e o socorro prestado a um rei cristão daquelas ilhas para retomar o reino usurpado. Só não tinham topado rasto da armada de Lançarote.

Não contara encontrar o Martavão em guerra, todavia, à entrada no porto, os estrondos da artilharia soaram-lhe como um mau agouro e os seus receios não tardaram a confirmar-se. O rei Chaubainhaa estava confinado com a família e as suas gentes mais leais dentro das muralhas da cidade, cercada pelo poderoso exército de cento e trinta mil homens do rei de Bramaa193, conquistador de Pegu e dos feudos ou reinos vizinhos.

Assim, a má fortuna persistia em persegui-lo, pois não só chegara em pleno cerco, como se achava no lado do invasor, portanto, a sua missão estava irremediavelmente comprometida. Achou prudente regressar nessa mesma noite a Malaca, depois de entregar as cartas que trazia para João Caeiro, o amigo de Pêro de Faria.

Foi encontrá-lo nas tranqueiras, em frente da cidade, como capitão-mor dos setecentos portugueses arcabuzeiros e bombardeiros ao serviço do tirano Tabinshwethi. Outrora feitor em Pegu, seguindo uma prática corrente entre os capitães das fortalezas e demais oficiais ao serviço da Coroa, João Caeiro empreendera à sua conta muitos tratos de mercadorias, cujos lucros o tinham feito tão rico que até emprestava dinheiro ao Estado da Índia. Antes da guerra, tivera o cargo de chefe do povoado dos portugueses residentes no Martavão, onde vivia com uma formosa escrava gentia de quem tinha dois filhos.

– Ficareis mais seguros aqui connosco – aconselhara-o –, do que no mar onde sereis, no mais certo, tomados pelo inimigo.

Com ele estava Lançarote Guerreiro, o cavaleiro fidalgo da casa d’el-rei, que exercera o cargo de almoxarife de Cochim até ao dia em que achara mais proveitoso passar a alevantado, abandonando o serviço da Coroa para andar no corso às presas, primeiro junto ao mar Roxo, depois no golfo de Bengala, cujos saques o haviam enriquecido e aos seus homens. Embora corsário, tinha como ponto de honra respeitar sempre os cartazes de salvo-conduto passados pelas autoridades portuguesas aos mercadores gentios e só atacava os inimigos muçulmanos, fazendo verdadeira razia nos navios turcos, achens e malabares. A sua armada estava sediada em Tenassarim, sob a protecção do rei de Mergui, a quem pagava grandes tributos sobre as presas.

– Um capitão solteiro e mancebo não tem resguardo aos males que faz, porque na Índia se purgam com mui poucas orações – comentara Pêro de Faria, como a desculpá-lo, quando pedira a Fernão que o fosse procurar e lhe contara a sua história. – Esta terra acaba sempre por agasalhar e favorecer os homens solteiros e mancebos como ele. e como tu!

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