Embora já não alimentasse esperanças de receber ajuda de João Caeiro ou de qualquer dos seus homens, sentira novo ânimo quando ouvira os sons de festa da entrada régia, secundados pelo tilintar, repicar e tinir mavioso dos guizos e campainhas que os pegus, seus companheiros de cela, traziam metidos no órgão da virilidade. Sendo eles muitos, conjugavam-se em concerto de carrilhão, tangidos ao ritmo das danças e pulos alvoroçados pela expectativa do perdão geral que Tabinshwethi haveria de conceder à conta do seu triunfo. A partir desse dia, Fernão começara a bajular os carcereiros com promessas de recompensa, se lograsse sair em liberdade, como não deixaria de suceder, logo que o capitão Caeiro soubesse do mal-entendido que ocorrera no Martavão e da sua prisão.
O aventureiro mal podia imaginar que a roda da Fortuna começava a girar, para mais uma vez o lançar numa perigosa aventura, em que, como criado do embaixador do rei tirano, juntamente com outros sete cativos portugueses, entre os quais se achava Gaspar de Meireles, seu antigo companheiro de peregrinação pela China, iria percorrer as terras daquele sertão nunca antes pisadas por um europeu, até ao misterioso reino do Calaminham, sito bem cerca do Tecto do Mundo ou do Paraíso Terreal.
Odisseia já referida no Sexto Mar, devendo a narradora lembrar ao seu leitor que a viagem a Sunda, no mar de Java, teve lugar entre estes episódios de Pegu e os de Sião que se seguem, esperando não ser tachada de redundante, nem acusada de cansar o leitor com tantos sobressaltos narrativos, quando mais não deseja do que dar-lhe a conhecer as andanças deste nosso incansável viajante.
MALACA
(Olho do Sol)
[A cidade de Malaca, apesar de não ter nada de seu, tem todalas cousas que há no mundo.] Posta e situada em começo de muitas monções e cabo de muitas monções, e as terras da banda da Índia que são Cambaia, toda a Índia, toda Bengala, o reino de Pegu, têm necessidade das mercadorias que vêm da China e da Cauchinchina, Sião, Léquios, os Luções de Burneo, o cravo de Maluco, e de maças e noz de Banda, e de sândalo de Timor, e assi o ouro dos rios de Menancabo e de Java e de Candia, e os que destas partes vêm, têm necessidade das mercadorias que das outras partes ditas vêm, e quanto uns vêm com uma monção, não podem ir para as outras partes com aquela monção, e por isso [Malaca] é grande, e chave de tudo, onde todos fazem escápola194.
(Carta de D. Jorge de Albuquerque a el-rei D. Manuel.
Escrita em Malaca a 8 de Janeiro de 1515)
194 Escala.
VI
Onde houver uma agulha, sempre haverá linha
(malaio)
Carta do Irmão Francisco Xavier aos seus confrades da Europa:
Encontrei em Malaca um mercador português que vinha de uma terra de grande trato, a qual se chama China. Este mercador disse-me que lhe perguntou um homem chinês muito honrado, que vinha da corte do rei, muitas coisas, entre as quais lhe perguntou se os cristãos comiam carne de porco. Respondeu-lhe o mercador português que sim, e lhe disse por que lhe perguntava aquilo. Respondeu o chinês que, na sua terra, há muita gente entre umas montanhas, apartada da outra gente, a qual não come carne de porco e guarda muitas festas195. Não sei que gente é esta: se são cristãos que guardam a lei velha e nova, como fazem os do Preste João, ou se são as tribos dos judeus, que não se sabe deles. Porque eles não são mouros, como todos dizem.
De Malaca, vão todos os anos muitos navios de portugueses aos portos da China. Eu tenho encomendado a muitos, para que saibam dessa gente, pedindo-lhes que se informem muito das cerimónias e costumes que entre eles se guardam, para por elas se poder saber se são cristãos ou judeus. Muitos dizem que S. Tomé Apóstolo foi à China e que fez muitos cristãos; e que a Igreja da Grécia, antes de os portugueses senhorearem a Índia, mandava bispos para que ensinassem e baptizassem os cristãos que S. Tomé e seus discípulos nessas partes fizeram.
Havia mês e meio que o padre Francisco Xavier chegara a Malaca, para aguardar a monção que o levaria a Macassar, nas ilhas Celebes, nome dado pelos portugueses às Sulawesi, a fim de pregar a palavra de Cristo que haveria de arrancar às suas idolatrias aqueles gentios que andavam sempre em guerra uns com os outros, ensinando-os a viver em paz. O anterior capitão da fortaleza enviara para a ilha o padre Vicente Viegas, provisor e chantre da sé de Malaca, por isso, o vigário D. Afonso Martins aconselhara-o a esperar pelo seu regresso para decidir, segundo as informações que ele lhe desse, da sua ida para lá ou para Amboíno, uma das Molucas que necessitava urgentemente de padres.