– Como se atreve esta escrava a usar jóias do tesouro de Prome que me pertencem? – bradou, arrancando risos aos senhores principais que o acompanhavam e enchiam a sala do trono, ávidos de divertimento. Deixou que o alvoroço serenasse e ordenou: – Despe-te, cróia, barregã!

Fez-se silêncio na sala, mesmo os mais ébrios de vinho e de sangue não ousaram rir ou proferir obscenidades. A mulher ergueu a cabeça e olhou o tirano, mas não esboçou qualquer gesto para lhe obedecer. Tabinshwethi leu-lhe nos olhos o desprezo e a repugnância de quem olha para uma criatura imunda e o vexame deu lugar a um ódio cego que o entonteceu de mareio.

– Desnudai a escrava! – gritou com voz rouca aos guardas que tinham assaltado o harém e trazido as mulheres à sua presença.

Ergueram-na do chão com brutalidade, arrancaram-lhes as pulseiras, os anéis e os brincos, depois os panos, um a um, lançando-os aos pés do conquistador como troféus de guerra. O verdugo ansiava pelos gritos, lágrimas e súplicas da sua vítima, que lhe apaziguariam o orgulho ferido, mas a mulher parecia uma estátua inanimada, um desses ídolos de marfim de que ele se apoderava quando saqueava os templos das cidades conquistadas.

Era de porcelana fina o rosto pálido onde brilhavam os negros olhos secos de lágrimas e sem expressão; era de delicado marfim o belíssimo corpo onde os panos de seda e brocado, rasgados com violência, haviam imprimido marcas como veios e se revelava numa esplêndida nudez, a que a maternidade conferira o fulgor da sensualidade na redondez firme dos seios, na curva opulenta das ancas e das nádegas.

No pesado silêncio da sala do trono apenas se ouviam as respirações opressas ou ofegantes dos homens, de olhos presos ao corpo da rainha, espiando com avidez o arrepio da pele, o fremir das ancas e das coxas, o balancear das nádegas e dos seios, leve ou brusco, segundo o impulso que os verdugos imprimiam aos seus gestos. Não havia um só dos nobres senhores bramaas, talaings ou estrangeiros, que não estivesse disposto a trocar o seu espólio do saque da cidade por aquela mulher. Se Tabinshwethi a quisesse dar em alvíssaras, haveria de ser ferozmente disputada, contudo, o senhor de Bramaa tinha outros desígnios quanto ao destino da rainha e das princesas, suas açafatas.

– Não vales sequer para puta do mais baixo dos meus oficiais – lançou-lhe a injúria com violência e decretou a sentença que fez estremecer de horror os portugueses: – Levai-a com as outras cróias do seu séquito para o pátio, entregai-as aos meus soldados. É o prémio que lhes dou pela sua valentia e esforço que nos alcançaram a vitória.

– Nas guerras são sempre as mulheres e as crianças quem mais sofre – murmurou João Caeiro com pena.

– E este bárbaro leva a palma a todos os tiranos – respondeu Gonçalo Coutinho, apesar de não ser inocente, no campo da violência. – Se a paga não fosse tão boa, já há muito que me fora.

Os gritos de júbilo da soldadesca, quando a rainha e as princesas lhes foram entregues nuas para nelas cevarem a sua luxúria, atraíram Tabinshwethi à janela para receber as aclamações e ali se quedou algum tempo, com os seus principais, rindo-se e fazendo apostas sobre os jogos brutais que os homens praticavam com as cativas.

Quando o último dos homens penetrou a rainha já desacordada e, satisfeito a largou semimorta no chão, os carrascos, por ordem d’el-rei, acabaram de a matar, rasgando-lhe as carnes a golpes de chicote. O corpo retalhado foi atado ao do rei, seu filho, antes de o lançarem vivo ao rio com uma pedra atada ao pescoço.

Cumprida a vingança, o tirano preparou o seu regresso à capital. Para o transporte da sua poderosa máquina de guerra, tinha mandado construir uma grande estrada para carroças, desde Pegu até Prome, por onde agora regressava em triunfo, a fim de ser solenemente coroado rei dos reis, segundo os antigos ritos talaing e bramaa. Conhecedor da profecia de que nenhum rei com um nó nos cabelos, ao modo dos bramaas, poderia reinar sobre os pegus, cortou o cabelo da feição dos talaings, todo à volta da cabeça, com um tufo redondo no alto, escolhendo por coroa o diadema dos reis pegus.

Deste modo prestava homenagem aos dois principais pagodes da cidade e assegurava, se não a fidelidade pelo menos a boa vontade dos mons de Pegu e dos bramaas de Tungoo, o seu reino natal, de onde partira com a idade de quinze anos para a conquista e unificação de todos os reinos da Alta e Baixa Birmânia, que se achavam nas mãos dos restantes sawaws – os governadores ou reis, como preferiam ser chamados –, sobretudo os da raça shan do norte, sempre desunidos e cujo reino mais forte era Avaa, que ele já tinha na sua mira para futura conquista.

No cárcere de Pegu, ainda mal refeito dos tratos que recebera no Martavão, a mando do mordomo-mor Sa-kyay, para não se deixar cair no desespero, Fernão repetia para consigo que a paciência é unguento para todas as chagas e agradecia aos céus a graça de ainda estar vivo.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже