– Na sua armada vieram três mil homens! – exclama Castanho, surpreendido. – Tantas vezes vencemos batalhas e conquistámos reinos com muito menos gente.

– Apenas oitocentos desses reinóis são fidalgos, cavaleiros ou homens de criação das casas reais – contrapõe o capitão Guedes, com um riso amargo –, os restantes são gente bisonha, de quinhentos réis de soldo, criminosos, maltrapilhos e moços sem barba. Quando mais necessitamos de gente sabedora das cousas da Índia, calejada da guerra, trocam o governador e mandam-nos gente que nunca empunhou uma espada, sem préstimo para nada, quanto mais para combater.

O feitor tira uma carta de um estojo e agita-a no ar:

– A gente mais antiga da Índia, que queria combater sob as ordens de Nuno da Cunha, está muito agastada com esta mudança. Escreveram-me a contar a fala que Martim Afonso de Sousa fez ao vizo-rei quando este se queixou de não achar homens que quisessem ir na armada. Ouvi, que vale a pena. – Desdobra a folha e lê: – Senhor, os homens da Índia são já enfadados de sempre servir com muitos trabalhos e grande pobreza, de que vêm a morrer no hospital, os que não morrem no mar ou na guerra. E quando esperam mercê de satisfação, então se vai o governador com que serviram, e tornam a começar a servir de novo com o governador que vem; e assi são velhos no serviço e novos no merecer. Pelo que, senhor, não se espante vossa senhoria achar os homens enfadados, e a culpa não a deite aos capitães e fidalgos, porque esta é a verdade. – Conclui, com um sorriso, vendo os seus acenos de concordância: – Pelo menos Martim Afonso de Sousa conseguiu que D. Garcia pagasse os soldos adiantados e distribuísse alguns cargos e mercês pelos veteranos.

– Então, de que está ele à espera para acudir a Diu com a armada? – grita Tristão Gomes, exasperado. – Há mais de vinte dias, desde a resposta desafiadora que António da Silveira mandou a Soleimão Baxá, que os turcos dão pesada bateria à fortaleza, com cem peças de artilharia, cinco espalhafatos59 e nove basiliscos60 com tiros da maior grossura. Quando eu fiquei como morto na tranqueira de fora, dentro da fortaleza havia menos de oitenta homens sãos para a defenderem, já sem pólvora para as bombardas e sem pelouros para os arcabuzes. Pergunto-me se Silveira não estará já morto e a fortaleza tomada.

Exclamações de mágoa saíram de muitas bocas no final da fala de Gomes. A casa do capitão enchera-se de oficiais, fidalgos e mercadores, ávidos de ouvirem novas de Diu, onde tinham amigos e parentes. Em silêncio, fizeram uma prece para que Deus não abandonasse os sitiados nas mãos dos infiéis.

– António da Silveira escreveu ao capado uma carta de desafio? – pergunta-lhe o capitão Guedes, abismado. – Sabeis o que lhe dizia para assi o exasperar a ponto de querer arrasar a fortaleza?

Apesar da sua aflição pela sorte dos companheiros, Tristão Gomes solta uma gargalhada de puro gozo e conta-lhe o episódio com evidente orgulho:

– Ele leu-nos a carta enviada pelo baxá, depois da rendição do baluarte da Vila dos Rumes e escreveu a sua resposta diante de todos nós, dizendo-lhe que não se rendia a um paneleiro, sem colhões. Chorámos de tanta risa! Deixou-nos a todos com maior ânimo para o combate. Como podia esquecer-me das suas palavras? O capado intimava-o a render-se.

Acudi com todos os que não estavam de atalaia ao baluarte de Gaspar de Sousa, para ver o mensageiro. Com muitas exclamações de espanto, reconhecemos António Faleiro naquele homem de barbas rapadas, trajado como um rume, com calções, jaqueta de grã, cabaia turca de brocadilho e uma touca na cabeça. Vinha em liberdade, embora com alguns rumes a guardá-lo, com uma carta de Francisco Pacheco, ditada pelo poderoso Soleimão Baxá, para o capitão António da Silveira. Com uma grande surriada de risos, chistes e zombarias saudámos a sua transfiguração:

– Inda há pouco te rendeste, covarde, e já te fizeste mouro?

– Lá diz o ditado que uma má ovelha deita o rebanho a perder!

– Nunca m’enganaste, fodilhão renegado, sempre de amizade com os mouros da cidade, a falar a sua língua e a gabar-lhes os costumes deleitosos!

– Já te caparam, paneleiro? Vais guardar o harém do baxá?

– Soleimão Baxá fez-nos a todos muita honra e deu-nos ricas cabaias – bradou Faleiro, empertigando-se, fingindo não dar pelos doestos. – Perdoará a todos, se o capitão entregar a fortaleza, de contrário, quando a tomar pela força, não poupará a vida a ninguém. – Acrescentou sobranceiro: – Dai-me logo resposta porque Francisco Pacheco está em casa de Coja Çofar e quer tornar logo, pois se acha indisposto.

Estávamos convictos de que Faleiro fora o causador da rendição do baluarte, por há muito ter amizade e conversação com os mouros, decerto persuadindo com as suas manhas Francisco Pacheco, cujo ânimo fraco ele bem conhecia, a depor as armas e a entregar-se; se o capitão Gaspar de Sousa não nos tivesse impedido, o traidor teria sido ali mesmo crivado de tiros e de setas.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже