Seguem com uma pequena escolta pela margem norte do rio e Fernão pode ver como a cidade é populosa, apesar de ter perdido muito da sua importância para lugares como Goa, pois cruza-se com mercadores mouros de desvairadas nações e grande número de gentios brancos e pardos, por vezes quase negros. Andam descalços e de cabeça descoberta, uns trajados com camisas mouriscas, outros apenas com os seus panos de beatilha ou beirame – os melhores algodões da Índia –, que trazem em volta das espáduas e ancas ou só a tapar-lhes as vergonhas; as mulheres usam os mesmos panos brancos ou de belas cores, de modo a deixarem os seios nus. Há também muita gente armada de espadas, escudos, arcos e lanças de cana ou madeira.

A fortaleza de Santa Maria do Castelo, quadrada, feita em alvenaria de pedra, pode alojar cento e vinte homens dentro das suas muralhas. Antes de irem às casas do capitão, entram na pequena igreja de Nossa Senhora do Mar, a fim de lhe darem graças por os ter salvado dos turcos e trazido a bom porto.

Simão Guedes recebe-os com efusivas saudações, oferecendo-lhes refresco e pedindo-lhes um relato dos sucessos da viagem, das últimas novidades e da razão da sua vinda a Chaul. Contam-lhe como escaparam por milagre às galés turcas, depois de recolherem o companheiro que fugira do cerco.

– Tendes muita razão em dar graças a Deus por vos haver livrado de tamanho perigo – reconhece o capitão, impressionado com o que ouviu.

A seu lado, acha-se Pedro Vaz, um parente que ele enviara a Diu e lhe trouxera as primeiras novas do cerco. Tristão Gomes lembra-se que ele se recusara a ficar na fortaleza, apesar dos rogos de António da Silveira para que o ajudasse. Aproveita para lhe dar uma lição:

– O capitão está cercado pelos rumes e foi abandonado por muitos que tinham por dever de honra e de estado socorrê-lo – sente prazer em ver que o visado da sua encoberta censura ficou com as faces vermelhas. – Silveira fartou-se de pedir socorro a Goa, todavia, o vizo-rei, apesar de ter jurado que já ia a caminho com a armada, ainda não apareceu. Preciso de ir ter com ele, para lhe rogar que vá salvar a nossa gente!

– D. Garcia de Noronha é um fidalgo valente, que tomou parte nas conquistas de Goa e Calecut – replica Guedes, com um trejeito de mágoa –, porém, como ele mesmo diz, por ser muito velho, pobre e ter muitos filhos, não veio agora à Índia buscar trabalhos, mas sim riqueza e proveito. Mal chegou, desentendeu-se com Nuno da Cunha, depois de ele lhe ter recusado dinheiro da fazenda para prover a armada, dizendo-lhe que não o tinha. Por sua vez, como o vizo-rei não aceitou a sua oferta para ir acometer Diu com a gente que estava prestes, o governador pediu-lhe licença para ir para o reino, mas ele recusou-se a dar-lhe sequer uma nau, apesar de ter cento e setenta navios surtos no cais. Foi cousa nunca vista, negar-se ao governador da Índia, depois de dez anos de serviço, aquilo que não se recusa ao soldado mais bisonho, que é o seu regresso à pátria! Diz-se que D. Garcia desconfiou que Nuno da Cunha levava consigo a arca do dinheiro e enviou o piloto e mestre cartógrafo Diogo Botelho Pereira para lhe espiar as cartas e outros documentos, a fim de os mostrar a el-rei se neles achasse indícios de roubos ou faltas.

O nome do filho de Iria Pereira faz sobressaltar Fernão e Bento Castanho, que se olham anojados. Durante os serões na nau, ouvindo as histórias da vida da mãe e da grande viagem que fizera numa fusta para o reino, Fernão ganhara admiração e estima pelo moço, custando-lhe saber que ele se prestara a tão odiosa tarefa, só para se vingar do governador que, alguns anos antes, não lhe perdoara ter ido dar ao rei, sem sua licença, a notícia da construção da fortaleza de Diu.

– Já é sina nossa, estes desentendimentos entre os vizo-reis e os governadores! E quem sofre somos nós, os que andamos ao serviço da Coroa. Ainda havemos de perder a Índia por causa destes desaguisados! – desabafa Taborda.

– Como, segundo também nos disse, achou os cofres vazios – prossegue o capitão de Chaul –, o vizo-rei mandou pedir a todas as cidades e fortalezas um empréstimo tanto de dinheiro como de escravos para remeiros das galés porque os da terra fugiam, prometendo pagar tudo depois de livrar Diu do cerco. Como esta empresa é para o bem de todos os portugueses da Índia e salvação de suas casas e famílias, ninguém recusou o pedido, tendo D. Garcia reunido grandes somas de dinheiro.

– O Acedecão, senhor das terras comarcãs de Goa – acrescenta o feitor –, para estar nas boas graças do governador mandou-lhe um presente de mil vacas, mil carneiros, muita manteiga, trigo e arroz para sustento dos homens, assegurando-lhe a paz de Goa.

Tristão Gomes protesta indignado:

– Mais uma razão para não se entender as suas demoras em acudir a Diu.

– Diz-se que tem falta de gente – informa o feitor –, por isso enviou cartas de chamamento a todos os homens que soubessem servir-se das armas.

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