Já é sina de Fernão receber alvíssaras envenenadas e esta viagem é um risco demasiado grande para o pouco proveito que poderá conseguir, pois toda a sua fortuna não passa de uns míseros cem cruzados que mal lhe darão para comer, quanto mais para fazer tratos e enriquecer! A menos que a sorte fugidia o bafeje e ele descubra em Samatra um dos dois mistérios que mais cobiça têm despertado aos portugueses da Índia: uma carta de marear com a derrota certa para a Ilha do Ouro, como a que Afonso de Albuquerque possuíra, e o lugar nas costas de Pedir onde se afundou a sua nau, carregada com os mais ricos despojos da conquista de Malaca, destinados a el-rei D. Manuel.

O fascínio que sente por ambos os mistérios não se pode comparar a nenhuma outra coisa no mundo; chegara a tomar por um presságio de boa fortuna ter embarcado para a Índia na nau que arvorava o nome Frol de la Mar, em homenagem ao grande conquistador. O jurupango cruza precisamente as águas das costas de Aaru onde, segundo lhe disse o feitor mouro, a nau do governador se afundou e é com profunda emoção que ele recorda a história contada por Pêro de Faria do naufrágio e do tesouro que aguarda no fundo do mar que alguém o vá buscar ou uma onda da altura de uma torre, assaz frequente naqueles mares, o lance nas praias, como costumam fazer aos barcos que apanham no mar.

Afonso de Albuquerque saíra de Malaca com três naus e um junco, em Dezembro, em plena monção de noroeste e esperava chegar sem novidade a Cochim. A Frol de la Mar, a sua capitânia, estava muito velha e metia água, porém, decidira dar o exemplo e embarcara nela e não na Trindade de Pedro de Alpoim, ao ver que toda a gente queria ir nos outros navios por medo de naufragar.

Deixara o grosso dos homens no serviço quer da fortaleza quer da armada, porque Mahamed, o rei de Malaca, que ele expulsara do trono e da cidade, logo que se recompusesse, voltaria com o seu exército para recuperar o que perdera. Enviara também cento e vinte homens com António de Abreu a descobrir as ilhas do cravo e das especiarias, que vinham na preciosa carta de marear que o piloto jau lhe vendera, sobretudo, a maior e mais longínqua, inominada, mas que ele suspeitava tratar-se da tão cobiçada Ilha do Ouro.

Levava, por isso, na sua pequena frota, apenas cem portugueses, os oficiais com os matalotes necessários para o manejo e defesa das quatro embarcações, os feridos e doentes; na Frol de la Mar iam os objectos e jóias mais preciosas que achara nos paços de Mahamed, destinados a el-rei D. Manuel, assim como o fabuloso presente de ouro e pedras preciosas do embaixador do Sião, que viera assentar pazes com o rei de Portugal, além de um bando de meninas e meninos formosíssimos, cada um de sua raça, das muitas que havia naqueles reinos, para escravos da rainha D. Maria.

A capitânia seguia mais cerca de terra, em conserva com a Trindade, que lhe prestaria auxílio em caso de necessidade, enquanto a terceira nau, a Enxobregas, tinha ordens de nunca perder de vista o junco do capitão Simão Martins, que levava uma boa parte do saque da cidade – o quinto devido a el-rei D. Manuel, mais a sua própria parte, que esperava vender com proveito na Índia; a tripulação, sendo quase toda de jaus, não o deixava tranquilo, pois, se lhes dessem ocasião não hesitariam em matar à traição os portugueses, que eram apenas doze, para se apoderarem do barco e fugirem para Java com a riquíssima carga. Esse pressentimento revelou-se uma profecia, quando os escravos se amotinaram e roubaram o junco, depois de matarem o capitão Simão Martins e oito portugueses; do massacre escaparam quatro marinheiros num batel, que viveram para contar a sua história.

À vista das costas de Aaru, como o tempo ficou tempestuoso, tanto Alpoim como Albuquerque procuraram tomar o porto de Pedir, mas o mar, de tão levantado, não lhos permitiu. Ao anoitecer a tormenta cresceu medonha com as ondas a varrerem os conveses com fúria, destruidora, de que apenas escapou um dos batéis. A Frol de la Mar metia tanta água que as bombas não a podiam escoar e o governador mandou cortar os mastros, o que pouco adiantou, porque a nau parecia um escolho perdido no mar.

Alguém alvitrou que se fizesse uma jangada porque ali não tinham salvação, no que Albuquerque logo consentiu para manter toda a gente ocupada com a tarefa de pregar tábuas e atar madeiros, sem tempo para pensar na morte ou soltar gritos de desespero. Um trabalho assaz difícil pela grandeza das ondas que desabavam no tombadilho como pedregulhos, arrastando consigo os homens que não estavam amarrados por cabos.

Fosse por descuido do piloto ou pela força das ondas, a Frol de la Mar foi lançada contra uns baixios partindo-se ao meio, com a violência do embate. A proa desfeita afundou-se com muita gente, mas a popa, com o batel, ficou assente nas pedras, a descoberto do mar, pondo a salvo Afonso de Albuquerque com os portugueses que estavam junto da jangada. Antes que o mar a desfizesse, o governador mandou alguns homens pô-la ao mar.

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