– Defendei com lanças e espadas a entrada dos negros com as trouxas dos seus senhores – ordenou-lhes, vendo os escravos carregados a prepararem-se para o assalto à jangada e ao batel. Bradou ao mestre: – Fazei embarcar primeiro os doentes no batel, sem emburilhos ou trouxas que tirem lugar às pessoas.
A ouvir os protestos dos que queriam salvar o espólio ganho na tomada de Malaca, disse-lhes, começando a despir-se:
– Eu vou meter-me na jangada em ceroulas e jaqueta, meus amigos, portanto, ficai certos que de outro modo nela não entrareis!
Atou um cabo à cintura, desceu para o batel, com todos os portugueses, rumou para a jangada, onde chegaram a salvo. Não consentiu o governador que nenhum negro escravo, homem ou mulher, subisse à jangada, ordenando que os deitassem ao mar às lançadas ou com pancadas dos remos, quando se queriam segurar nela. Salvou somente uma menina, filha de uma sua escrava que lha entregou, único despojo que trouxe da nau, de todos os tesouros que nela havia, ao contrário de muitos que traziam o corpo cheio de jóias de ouro e pedraria.
– Se esta inocente se pegou a mim para se salvar, eu tomo a inocência dela por minha salvação – disse, e esteve sempre de pé, na jangada, com ela nos braços.
Na noite de breu, em luta com as vagas e os ventos, não se podiam acender fogos de aviso, por isso, o junco e a Enxobregas nada viram, por irem no alto mar, ocupados com a sua própria salvação. Pêro de Alpoim ouviu os gritos Senhor, Deus de misericórdia!, viu a nau perdida à luz dos relâmpagos e coriscos que explodiam nos céus, contudo só na manhã seguinte logrou acercar-se e salvá-los com muito esforço e perigo.
Seguiram para Cochim, onde os inimigos do governador, julgando-o perdido, festejavam a sua morte, mas o resto da população recebeu-o em triunfo. Albuquerque sentiu muito a perda de dois leões de ferro dourados, que o rei de Malaca tinha às portas dos seus paços, por serem um presente do rei da China. Não eram preciosos como a maioria dos objectos que vinham na nau, porém, ele trouxera-os, por honra, como testemunho do seu triunfo.
– Ao perdê-los, além de ter ficado sem a minha fazenda, perdi também a minha honra! – ouviram-no dizer, com muita paixão. – Porque eu não queria em minha sepultura outro letreiro nem outra memória dos meus trabalhos, senão aqueles leões.
Em Cochim escreveu ao capitão de uma caravela que ia para Malaca, rogando-lhe que fosse ao sítio do naufrágio, com alguns pescadores de pérolas de Samatra, para mergulharem à procura dos dois leões e, se os achassem, os tirassem de lá por todos os meios que pudessem, que ele lhe pagaria todos os custos.
Não os acharam, nem toparam com os castelos de madeira dos elefantes do rei de Malaca, nem com os seus andores forrados a brocado e a ouro; tão-pouco descobriram a tripeça de assentar, de quatro pés, em que a rainha da Malaca comia ou os quatro leões ocos para perfumes da câmara do rei, em ouro, incrustados de magníficas pedras preciosas, para já não falar dos cofres de moedas de ouro, prata e diamantes.
Bastaria um só desses objectos para fazer do seu descobridor um homem rico e justificar os riscos dessa viagem. Fernão, que não despegara ainda os olhos do lençol de água, procurando divisar no fundo o brilho denunciador do tesouro, suspira desconsolado, pois o único fulgor que vê é o reflexo do sol no mar que ondula docemente. A Ilha do Ouro começa a parecer-lhe, afinal, mais fácil de alcançar75.
Ao abordar a peregrinação de Fernão Mendes Pinto pelos mares austrais, que os portugueses começaram a descobrir, mal Afonso de Albuquerque conquistou Malaca, a narradora volta a alertar o seu leitor para a necessidade de conciliar os tempos e lugares visitados. Este Mar Australis é um caso particularmente espinhoso, porque, Fernão Mendes Pinto faz pelo menos duas viagens importantes a Samatra, em diferentes épocas.
Pouco depois da sua chegada a Malaca, no ano de mil quinhentos e trinta e nove, é enviado duas vezes por Pêro de Faria, como embaixador, aos reinos de Bata e Aaru, onde testemunha acontecimentos quase idênticos, de modo que a presente narradora, para não cansar o seu leitor com uma narrativa demasiado extensa, limitará o seu relato aos episódios do reino de Batak.
Alguns anos mais tarde, Fernão voltará a estes mares, à ilha de Java e navegará ao longo da corda de ilhas que se estendem desde Samatra até Timor e Papuas, em frente das quais se acha a então suposta Ilha do Ouro, a Terra Australis, já antes visitada e carteada por vários exploradores portugueses. Entre estas viagens fez outras em outros mares, contadas mais adiante nesta narrativa, por isso, se o leitor aceitar os saltos no tempo, a contadora desta sua saga poderá, de consciência tranquila, narrar-lhe também algumas viagens anteriores que, embora passadas em tempos diferentes, têm em comum a vivência da guerra no mesmo espaço geográfico e a matéria do sonho na busca da Ilha do Ouro, a que também Fernão ia mandado por ordem do Capitão de Malaca.