O combate não é demorado, saldando-se por algumas feridas sem grande gravidade dos portugueses e pela morte de cinco rumes, além de dois prisioneiros – o chefe do bando e um dos que tinha estado na caçada. Azevedo leva-os para o baluarte, onde já se acham os mouros recolhidos do mar pelos seus homens. O capitão desculpa-se por lhes ter causado tamanho susto e conta-lhes a razão daquela briga, as injúrias que os seus amigos portugueses e guzarates haviam recebido do bando de arruaceiros que assim os provocara para ter ocasião de os matar.

– Foi ou não assi? – pergunta ao rume na língua franca.

– Sim – respondeu o outro, cheio de soberba. – Pena foi não teres então falado, que logo ali mo pagarias.

– Nós éramos só quatro portugueses e vós quinze velhacos – retorque-lhe António de Azevedo, irado com a desfaçatez. – Por isso o pagarás agora.

A uma ordem sua, os escravos negros matam-no com uma machadada na cabeça e fazem-no em postas que metem em salmoura, como de conserva, numa pipa velha. O capitão manda-os deitar as tripas ao rio, mas recomenda que lhe guardem a fressura.

– Faz-me uma assadura desses fígados – ordena ao negro que o matara, quando terminam a chacina – e traz-mos logo aqui, que os queremos comer. O combate fez-nos fome.

O escravo corta o fígado em vários nacos que enfia num espeto e leva para a cozinha. Os guzarates, horrorizados, pedem licença para se retirarem, porém, Azevedo diz-lhes, num tom que não admite recusa, desejar muito que eles assistam até ao final daquela sentença, para verem como ele exerce uma justiça exemplar.

Na cozinha, com muitos frouxos de riso pelo logro que fazem aos mouros, os negros deitam fora o fígado do turco, segundo as ordens secretas do capitão, substituindo-o pelo do porco, que assam no espeto e levam, junto com outros comeres, à mesa onde António de Azevedo está sentado com os sete companheiros para almoçar. Todos comem da espetada de fígado, zombando dos rumes e bebendo à vitória.

Terminado o repasto, o capitão deixa sair os guzarates e com eles o rume sobrevivente, mais morto do que vivo, para irem contar o que tinham visto. Durante dias não se falou de outra coisa, tanto na cidade como na Vila dos Rumes, e foi tal o espanto e horror que ninguém mais ousou meter-se com qualquer português, mesmo que fosse sozinho pelos matos ou andasse de noite por becos e travessas escusas.

Sendo os portugueses tão poucos, para mais espalhados por tanto mundo, a viver no meio de tantos inimigos traiçoeiros, se queriam sobreviver, não só precisavam de se impor pela força, como ainda deviam mostrar-se piores do que eram, fazendo correr muitas histórias de vinganças e castigos ferozes como aquele, para que os temessem e não ousassem causar-lhes danos.

Na nau de Pêro de Faria, ao lado do valeroso D. Cristóvão da Gama – que vai ao encontro do irmão D. Estevão, o capitão de Malaca cessante –, Fernão Mendes Pinto vê Diu perder-se na distância e sente-se ufano por ter participado naquela mirabolante aventura, se bem que a reputação de comedor de homens não seja fama de que propriamente se possa orgulhar.

70 Proibidas, por serem monopólio da Coroa.

71 Civilizada.

LIVRO III

MAR AUSTRAL

SAMATRA

AUREA CHERSONESO

Suvarnabhûmi ou a Terra do Ouro72

Está a ilha posta e encaixada no mar, como uma cunha, entre esta terra firme do Malaio, e todas as outras costas, e ilhas de Java, e outras muitas, como Ternate, Timor e Bornéu; as de Banda e as de Maluco e outras que para esta parte do sul lá se navegam, assim dos que vêm da Índia para Malaca, que todos vêm pela banda de dentro de Samatra, e a terra firme, que será de terra a terra doze até catorze léguas de travessa ; porque pela outra parte de fora atégora não é navegada, nem dos naturais da terra, nem de outros peregrinos ou estrangeiros.

Entra-se para dentro destoutra terra toda por um boqueirão que as águas vêm fazer, e onde se ajuntam, e apanham, onde se esgota a terra, e fenece a parte do sul de Samatra, e começa a correr para a do norte, defronte de Sunda: a que se faz esta boca, tendo uma goela em Samatra e outra na ponta da ilha de Java.

A parte de Sunda, de que o boqueirão toma sua denominação, e apelido, será a boca na entrada de largura de três léguas, ou pouco menos, e com muitas ilhas no meio, sem conto, altíssimas, e de muito espesso e grande arvoredo, e outros ilhéus infinitos.

Correm aqui as águas tanto, e saem com tamanho ímpeto e fúria para o mar oceano, donde nós vínhamos, que parece cousa monstruosa de ver, e incredível muito mais de contar.

(Relação da Viagem e Naufrágio da Nau S. Paulo, escrita por

Henrique Dias, em no ano de 1560)

72 Na Peregrinação, Fernão Mendes Pinto narra as suas aventuras nestes mares nos capítulos XIII a XXXII.

I

O que vai na frente junta tesouros, o que vai atrás procura-os em vão

(maori)

Carta de Afonso d’Albuquerque a El-Rei D. Manuel, 1 de Abril de 1512:

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже