Também vos vai um pedaço de padrão73 que se tirou de uma grande carta de um piloto de Java, o qual tinha o Cabo da Boa Esperança, Portugal e a terra do Brasil, o Mar Roxo e o Mar da Pérsia, as ilhas do cravo, a navegação dos chins e gores, com suas linhas e caminhos direitos por onde as naus iam, e o sertão74, quais reinos confinavam uns com os outros.

Parece-me, senhor, que foi as melhor cousa que eu nunca vi, e vossalteza houvera de folgar muito de a ver; tinha os nomes por letra java e eu trazia [um] jau que sabia ler e escrever; mando esse pedaço a vossalteza, que Francisco Rodrigues emprantou sobre outra, donde vossalteza poderá ver verdadeiramente os chins donde vêm e os gores, e as vossas naus o caminho que hão de fazer pera as ilhas do cravo, e as minas do ouro onde são, e a ilha de Java e de Bandam, de noz moscada e maça, e a terra d’el-rei do Sião e assi o cabo da terra da navegação dos chins, e assi pera onde volve, e como dali adiante não navegam.

A carta principal se perdeu na Frol de la Mar: com o piloto e com Pêro d’Alpoim pratiquei o sentir desta carta, pera lá saberem dar razão a vossalteza; tende este pedaço de padrão por cousa muito certa e muito sabida, porque é a mesma navegação por onde eles vão e vêm: mingua-lhe o arcepedego das ilhas que se chamam Celate, qua jazem entre Java e Malaca.

Pêro de Faria chegara a Malaca uns meses antes de D. Estêvão da Gama terminar o seu tempo na capitania e seguir para Goa como governador do Estado da Índia. Embora D. Vasco da Gama o tivesse escolhido para mestre de armas deste seu segundo filho e Faria prezasse muito o seu pupilo, dez anos volvidos, por razões que Fernão Mendes desconhecia, essa amizade tinha desaparecido e, se bem que ambos o dissimulassem em público, andavam de candeias às avessas, como soe dizer-se. Para não tropeçarem um no outro, na fortaleza, Pêro de Faria, que já ocupara o mesmo posto no ano de vinte e oito, alojara-se com toda a sua gente em casa própria, onde começara a ser visitado pelos embaixadores dos reinos vizinhos que queriam dar as boas-vindas ao novo capitão de Malaca e renovar antigas alianças.

Um desses embaixadores trouxera da ilha de Samatra um rico presente de paus de águila e calambá, cinco quintais de benjoim, com uma carta de Timorraja, o rei dos Batas, a pedir ajuda de homens e armas, contra o vizinho reino de Achem, inimigo seu e dos portugueses. Pêro de Faria não desperdiçara a ocasião de favorecer os seus próprios negócios, determinando logo enviar-lhe uma embaixada com a sua resposta, um mero pretexto para levar a cabo o que verdadeiramente pretendia: espiar a terra, fazer tratos com os seus mercadores e obter do aflito soberano benefícios nos tributos das mercadorias.

Não tendo ainda tomado posse da capitania, Faria fretara em seu próprio nome um jurupango – uma embarcação malaia semelhante a uma caravela pequena –, que carregara de mercadorias no valor de dez mil cruzados, escolhendo para seu feitor um mouro de Malaca da sua confiança, bom conhecedor dos mercados, que haveria de as vender em Samatra com muito proveito, conforme lhe assegurara. Em paga dos serviços prestados por Fernão na reconstrução da fortaleza de Diu, o capitão oferecera-lhe o cargo de embaixador e espia, que ele agarrara com ambas as mãos.

– Fernão Mendes – dissera-lhe –, entendes quão importante é esta amizade dos batas para o serviço d’el-rei nosso senhor e segurança desta fortaleza, que há dois anos sofreu um grande assalto das forças de Achem? Tens de concertar bem esta aliança com Timorraja, porque, com a sua amizade e os tratos que ele nos propõe em troca de pelouros e pólvora, o rendimento da nossa alfândega crescerá muito, tal como o proveito de todos os portugueses que por estes mares mercadejam.

É com essa missão que ele atravessa agora o golfo de Malaca a caminho da grande ilha, cujos costumes e falta de polícia o enchem de pavor. O reino de Pedir fora o primeiro lugar de Samatra a ser visitado pelos portugueses, no ano de mil quinhentos e nove, quando Diogo Lopes de Sequeira ali estivera a concertar pazes com o seu rei, deixando um padrão com as armas de Portugal em testemunho da sua aliança. Depois da conquista de Malaca, Afonso de Albuquerque fora a Pacem com o mesmo propósito pacífico, tendo o rei permitido a construção de uma fortaleza. Quando três anos mais tarde os achens conquistaram aqueles reinos, os dois soberanos derrotados pediram asilo aos portugueses, homiziando-se em Malaca com as suas famílias e a fortaleza foi desmantelada.

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