Fernão deixa de o ouvir, mareado de morte com o funesto relato, feito na boa língua portuguesa, que o mouro domina à maravilha. Embora ache que Coja Ale zomba dele, exagerando a ferocidade dos batas, por se aperceber dos seus medos, a sua fala em vez de o sossegar aumenta-lhe os receios. Agasta-o também a presunção do mouro em alardear a crença de Mafamede na presença de um cristão, contudo nada diz, para evitar atritos, visto precisar dele e do seu conhecimento de Samatra para poder regressar a Malaca com a missão cumprida.

Sons de festa anunciam a chegada do Xabandar, o oficial que tem a seu cargo a preparação da armada. Vem com um animado cortejo de cinco lancharas, os seus navios de guerra de remo e vela, muito velozes, e doze balões, umas canoas semelhantes às almadias dos mouros, mas mais largas. Com grande estrondo de atabaques, sinos e cantoria das chusmas, escoltam o jurupango, num curta viagem, até ao cais principal de Panaju.

O movimento do porto em nada se parece com o de Batu Rendang e Fernão cola-se à amurada para ver o espectáculo da armada dos navios de guerra dos batas, surta diante da cidade e em grande azáfama, com o constante vaivém de batéis cheios de soldados e marinheiros vindos de muitas partes do reino, que desembarcam para se juntarem ao exército do rei. A pequena frota do Xabandar passa por entre eles e vai surgir num cais reservado a el-rei e aos seus dignitários.

A praia fervilha de agitação e ruído, com a multidão de soldados, gentes de desvairadas raças, tanto estrangeiros como naturais da ilha, com trajos e armas muito distintas, desde os mosquetes, em menor quantidade, aos arcos e flechas, azagaias, lanças de pontas de ferro e, à cinta, em vez dos cris, pendem as jonos, as ameaçadoras espadas dos batas. A maré humana abre caminho, forçada pela guarda do Xabandar, e o língua malaio convida o embaixador a segui-los até ao local onde o Bendara, figura principal do reino, o espera com muita gente nobre para o conduzir à presença d’el-rei.

A comitiva pretende ser de muita pompa, mas, apesar da matinada de atabaques e sinos, tem pouco brilho, por todos virem mal trajados e sem jóias, quase não se distinguindo da gente comum, que acode às ruas para os ver passar. Fernão espanta-se da pobreza do vestir, da sua rudeza, em verdade mais próprias de gente sem polícia, do que de prósperos mercadores da fabulosa terra do ouro, como ele e Pêro de Faria haviam imaginado pelo muito que lha gabavam Coja Ale e outros mouros da alfândega de Malaca.

O cortejo cruza os bairros dos mercadores estrangeiros, separados segundo as nações a que pertencem, de ruas ladeadas por casas de madeira com um gudão ou armazém por baixo, muitas lojas de prestamistas e usurários para as trocas de dinheiro, de mercadores turcos, guzarates, de Calecut, Ceilão, Sião, Bengala e outros lugares que vendem panos de algodão, sedas, porcelanas, drogas, especiarias e pedras preciosas, enchendo Fernão de esperanças em bons negócios. Atraídos pelo som da fanfarra, os lojistas e demais moradores, assomam às portas e varandas a ver passar a embaixada.

São quase só mulheres, crianças e velhos, o que Fernão não estranha depois de ver a multidão de homens do exército d’el-rei que esperam para marchar contra os achens; é um povo gracioso, mais pequeno do que o malaio, de pele mais clara e corpos bem feitos. As mulheres que o miram sem rebuço usam, como os homens, panos enrolados à volta da cintura que lhes chegam aos joelhos ou aos tornozelos, um guarda-peito ou um lenço bordado com contas coloridas a cobrir-lhes os seios e um ombro. Trazem metidas nos lóbulos das orelhas grande soma de pesadas argolas que lhas fazem muito compridas, assim como vários aros grossos à roda do pescoço, manilhas nos braços, de ouro ou de metal, e ainda pregos de cabelo em forma de dragões e pássaros.

Todos têm a cabeça assaz estreita e bicuda com os narizes chatos, por ser costume, à nascença, as mães apertarem as cabeças dos filhos e espalmarem-lhes as ventas, a fim de os fazerem mais belos. Quando sorriem, não é coisa bonita de se ver, porque os dentes, pretos do bétele que mascam sem cessar e limados em pontas agudas, lhes transformam o sorriso no esgar ameaçador de um tigre e Fernão sente a pele arrepiada, crendo ver em cada um deles um comedor de carne humana, com ganas de lhe conhecer o sabor.

Passam pela Grande Mesquita diante da praça principal, onde se situam as casas do tribunal e das audiências aos enviados estrangeiros, porém o Xabandar não pára aí, seguindo para o recinto fechado das casas reais. Por entre as árvores, Fernão vê um belo edifício que lhe dizem ser o Sida-Sida, que alberga a guarda real de eunucos e, por fim, o cortejo chega às portas do paço de Timorraja.

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