Fernão atara mais um fio de memória, ao descobrir o destino de outra nau desta frota, comandada pelo capitão e piloto português Estêvão Dias Brigas, cuja história ouvira contar na sua viagem para Diu e cuja viúva, a famosa Marquesa, chegara a conhecer, no fim do cerco da fortaleza. O capitão Brigas e os seus quarenta e oito corsários franceses tinham apanhado um tempo esgarrão que os forçara a arribar a Diu onde, para salvarem as vidas, se fizeram muçulmanos e serviram como bombardeiros no exército do sultão Carcandacão de Cambaia. No ano de trinta e três, Bahadur, o novo sultão do Guzerate, empregara os elches82 e a sua artilharia na guerra com o rei dos Mogores, em que todos morreram, incluindo o marido da Marquesa. O mundo até parecia pequeno, naqueles mares!

Registara também com grande minudência as diferentes nações de gentes que habitavam ao longo daquele oceano e dos rios Siak, Kampar e Indragiri por onde ia ter a Malaca o ouro de Menancabo ou Minangkabau. Segundo lhe disseram os naturais, a rainha Sabá mantivera no reino de Kampar uma casa de contrato com o feitor Nausem, para os tratos do ouro.

Por outro lado, prosseguia com a sua inquirição e punha por escrito toda a informação obtida sobre a Ilha do Ouro, que o capitão de Malaca muito encomendara e ele nunca descurara de saber, sempre que a sua espionação o levava a novos lugares. Pulo Mas jaz ao mar deste rio de Calandor em cinco graus da parte do Sul, cercada de muitos baixos, e de grandes correntes, que pode distar desta ponta da ilha Samatra, até cento e sessenta léguas pouco mais ou menos, fora o que todos lhe disseram de início.

Aproveitara bem o tempo e, com a prata que Pêro de Faria lhe dera para os gastos da embaixada, pudera comprar com presentes as boas graças de um ancião bata, chefe de uma família influente de Barus, a terra onde Diogo Pacheco aportara nas duas viagens que fizera em busca da ilha. O velho Salwi fora chamado por Timorraja para, durante o tempo de guerra, se ocupar dos mercadores estrangeiros que tinham tratos na cidade e, tendo conhecido Fernão na embaixada à corte, convidara-o muitas vezes para sua casa, onde fora recebido por toda a família com grande hospitalidade. Salwi e o seu filho Amri lembravam-se bem da chegada da nau do português a Barus, tanto no ano de dezanove como no de vinte. Com um bom língua malaio que o capitão lhe dera em Malaca, Fernão pudera interrogá-los e acrescentar mais pormenores à história que conhecia.

Fora em mil quinhentos e dezanove que o governador Diogo Lopes de Sequeira enviara o cavaleiro Diogo Pacheco, um marinheiro experimentado e valente guerreiro, com a sua nau e um bergantim comandado por Francisco de Sequeira, a descobrir toda a costa da ilha de Samatra, cuja parte sul nunca fora navegada, porque os naturais diziam que quem lá ia morria. Desconfiava-se que levava um regimento secreto, com ordens expressas d’el-rei D. Manuel, mas ninguém, nem mesmo Pêro de Faria, o soubera ao certo.

A primeira parte da viagem, em que contornaram a ponta ocidental da ilha, decorrera sem sobressaltos, porém, ao virarem a sul, cerca de vinte léguas depois do reino de Achem, foram colhidos por uma forte tempestade e o bergantim desaparecera. A nau de Pacheco continuara para sul e fora arribar ao porto de Barus.

– Nunca tínhamos visto um navio daquele tamanho e forma, com uma gente branca tão estranha como os seus trajos – evocou Salwi, a rir, mostrando os dentes limados, com incrustações de ouro –, por isso causou tão grande espanto e medo.

O filho juntou o riso ao do pai:

– E lembras-te de como as tripulações de três barcos achens que estavam surtos no porto, fugiram para terra ao reconhecerem a bandeira dos seus inimigos portugueses?

– O governador, que era o meu pai, quando viu os sinais de paz que faziam do navio, mandou-lhe num batel um saguate de refresco com dois oficiais para saber quem eram e o que queriam.

Diogo Pacheco retribuíra os presentes e apresentara-se como um capitão d’el-rei de Portugal, enviado pelo governador da Índia a rodear a ilha de Samatra para notificar os seus principais portos de que os portugueses haviam conquistado Malaca, mas queriam ter paz e tratos de mercadorias com os seus reinos e que os seus barcos lá podiam ir em segurança, se recebessem bem os mercadores portugueses nas suas terras. Oferecera-lhes ajuda de homens e armas contra os seus inimigos e dera salvo-conduto aos navios dos achens por se acharem no porto de Barus.

– Recebemo-lo muito bem – prosseguiu Salwi –, durante o tempo que ali passou a tomar água, madeira e provisões para a viagem, trocando as suas mercadorias pelos nossos produtos. Fez amizade com o meu pai, que o alojou na nossa casa. Nas muitas práticas que teve connosco e com os mercadores da terra, pouco quis saber sobre o reino de Barus, dos Batas ou do resto de Samatra, por isso soubemos que era Pulo Mas, a Ilha do Ouro, que ele verdadeiramente buscava.

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