O búfalo é degolado com um cris de ouro, o sangue aparado numa vasilha preciosa, de seguida esventrado e o sacerdote lê no aspecto e movimento das suas entranhas o resultado da guerra.

– Se o resultado for diferente do que ele previu – esclarece o língua, em voz baixa, por trás de Fernão – o guru será morto por ser mau adivinho.

77 Saguate – presente.

78 O Livro de Marco Polo, livro terceiro, capítulo XVII. Fac-símile da obra impressa por Valentim Fernandes, em Lisboa, 1502.

79 Roca era um canhão que lançava pedras e bombas de fogo seriam talvez projécteis que usavam nafta.

80 Chefes militares, senhores da guerra ou chefes territoriais.

III

Onde há açúcar, há formigas

(malaio)

[Em 1528], a outra nau da companhia esgarrou pelo mar do Cabo da Boa Esperança pera a banda do Sul, não sabendo por onde ia, e foi tomar nas costas da ilha de Çamatra, onde foi ter na Ilha do Ouro, que a areia da praia, grossa e miúda, era tudo ouro; a terra mui viçosa, e grandes arvoredos e ribeiras de boas águas, e muitas frutas das árvores, mui gostosas; a gente nua e bestial, que se cobria com panos feitos das folhas d’ervas, e não tolhia nada do que lhe tomavam. Carregaram quanto ouro quiseram e se partiram navegando sem saber pera onde mais lhe serviria o vento, com que foram ter na costa da Çamatra, já mui desbaratados, com a mais da gente morta e doente, e fazendo tanta água que se ia ao fundo; e correram pera terra pera varar, e antes de chegar a ela deram em uma restinga em que se perdeu a nau; e os que puderam trabalhar concertaram o batel, em que se foram a terra com muito ouro que cada um meteu, e na terra foram mortos per barcos de pescadores que os toparam e levaram o ouro. Isto se soube em Malaca por mercadores de Çamatra que lá iam tratar, que por toda a terra se falava deste batel que acharam pescadores carregado d’ouro, e que os homens falavam como bombardeiros, de que trouxeram um a elRei de uma terra, que o mandou espetar em um pau porque lhe disse que não sabia tornar à ilha. Onde assim acharam aquela Ilha do Ouro, pela qual informação se soube que esta nau fora da companhia do Brigas.

Lendas da Índia, de Gaspar Correia

Fernão ainda não se acostumou às espantosas trovoadas de Samatra, cujo ribombar faz estremecer a terra como a explosão de um barril de pólvora, enquanto todo o céu se incendeia com raios em forma de forquilha que coriscam em todas as direcções. No entanto, a gente da ilha parece nem dar por elas.

El-rei partira para a guerra, há cerca de um mês, com o seu poderoso exército, deixando o reino quase despovoado de homens e com pouca guarda de gente armada, situação privilegiada para quem quer espiar o reino ou fazer devassas e perguntas sem correr o risco de ser preso. Fernão não o seguira, com o pretexto de lhe ser forçoso ir só com um guia e um língua, para não levantar suspeitas, observar as fortificações e a fundura do rio do Achem, a fim de preparar a vinda da armada de Malaca.

Alcançara o principal propósito que ali o trouxera, ao conseguir de Timorraja grandes benefícios e isenções de tributos para uma boa veniaga à fazenda de Pêro de Faria, que Coja Ale começara logo a vender com muito lucro. Na ausência do rajá, Fernão ficara livre para se dedicar à busca de indícios e informações sobre o achamento da Ilha do Ouro, não só no reino dos Batas por meio dos mercadores da cidade de Panaju, mas também de outras partes de Samatra nunca antes visitadas dos portugueses.

Tratara, em primeiro lugar, de registar os rios, portos e angras que ia descobrindo, tanto do lado do mar mediterrâneo, como da parte do oceano, anotando cuidadosamente os nomes, a altura em graus ou medindo os fundos, conforme ao regimento que lhe dera Pêro de Faria. Colhera preciosas informações sobre a comutação de produtos e tratos daquelas gentes que ainda não tinham tido comércio com os portugueses e sobre a pescaria do aljôfar nas pequenas ilhas da costa ocidental, entre Pulo Tiquòs e Pulo Quenim, que os batas levavam a Pacem e Pedir, para serem resgatadas pelos turcos do estreito de Meca, a troco das mercadorias que traziam do Cairo e dos portos da Arábia.

Descobrira outras coisas de maior espanto, como o surgidouro da baía de Pulo Botum, onde viera ter a nau Biscainha, da frota de Fernão de Magalhães, que se veio a perder no boqueirão de Sunda, quando procurava atravessar para a ilha da Java. Achara também a baía onde naufragara o capitão Rosado, natural de Vila do Conde, que viera de Dieppe para a Índia com uma frota de corsários franceses. Das três naus, só a de Rosado conseguira chegar a Samatra, graças à sua experiência de piloto e talvez à posse de alguma carta de marear portuguesa, porém naufragara nos recifes e os sobreviventes haviam sido massacrados pelos pescadores de pérolas. Timorraja levara para Achem, na sua artilharia, dois camelos e uma meia espera81 de bronze recolhidos nos destroços dessa nau.

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