Uma mulher velha e alguns fidalgos de melhor presença, com amáveis palavras de boas-vindas, que dão algum descanso aos seus medos e desconfianças, conduzem-no através de dois pátios e várias salas até à câmara d’el-rei. Fernão faz-lhe as cortesias que estudou, pondo por três vezes o joelho em terra, com muito acatamento, erguendo-se e avançando três passos de cada vez, até chegar à distância prescrita para lhe entregar a carta e o presente.
– Que vens fazer aqui, em tempo de guerra? – pergunta, sem querer ouvir ler a carta, vendo com muita satisfação os ricos panos da Índia que lhe manda Pêro de Faria, à custa da Fazenda da Coroa. – Depois do socorro em armas e munições que o capitão de Malaca me mandou por meu cunhado, mais do que eu lhe pedi, não me tomes por ingrato por te dizer que esperava que ele me enviasse também uma hoste de portugueses artilheiros e arcabuzeiros, em cuja arte sois os melhores do mundo.
Para dispor bem o rei à desejada aliança e futuros tratos, o capitão enviara-lhe, além dos pelouros e pólvora mencionados na carta, cem panelas de pólvora, rocas e bombas de fogo79, que haviam conseguido o efeito pretendido.
– Venho para servir Vossa Alteza nesta sua jornada – responde Fernão, conforme lhe fora ordenado, embora sentindo algum remorso pela mentira. – Mas, para isso, preciso de ver com os meus próprios olhos as fortificações da cidade de Achem e quantas braças de fundo tem o rio, para saber se nele podem entrar as nossas naus mais grossas e os galeões, porque o capitão de Malaca determinou que, mal tome posse da capitania e lhe chegue a armada da Índia, virá ajudar Vossa Alteza e entregar Achem nas vossas mãos.
A resposta não é certamente do agrado de Timorraja que, todavia, disfarça bem a contrariedade, quando fala.
– Jurei tomar vingança dos achens pela morte dos meus três filhos e reconquistar as terras que me roubaram. Não terei paz enquanto o não fizer e amanhã mesmo marcharei contra os meus inimigos, por isso não posso esperar pelos reforços de Malaca. Agradará decerto ao teu capitão e a todos os cristãos portugueses saber que me recusei a trocar a lei dos meus antepassados pela dos muçulmanos, como quer o vosso inimigo Alauddin Mughāyah Shāh, que acaba de usurpar o trono Aceh ao seu irmão mais velho.
Faz uma pausa, olhando para Fernão que o ouve com grande acatamento, consciente do silêncio respeitoso da corte que, tal como o povo, parece amar de verdade o seu soberano.
– Alauddin buscou fazer aliança comigo, oferecendo-me a sua irmã em casamento, exigindo em troca que eu me convertesse à Lei de Mafamede e repudiasse a minha esposa, mãe de meus filhos. Perante a minha recusa, fez-me crua guerra, mas foi vencido e forçado a pedir pazes, seladas com a promessa de casar o meu filho mais velho com a princesa sua irmã. Mandei retirar o exército e voltei para casa, a fim de preparar o casamento.
Cala-se de novo, como se lhe custasse a falar ou quisesse impedir que as lágrimas que Fernão lhe vê nos olhos corressem pelo rosto, tão abundantes como as de muitos dos seus cortesãos, de mistura com suspiros e soluços que não logram abafar.
– Contudo, o traidor achem que recebeu dos turcos ajuda em homens, mosquetes e artilharia, incitado por um seu caciz mouro, rompeu a paz sem dar aviso, fazendo uma razia nas minhas terras, que achou desprotegidas e tomou sem trabalho, matando setecentos ourobalões80 e os meus três filhos, que haviam crido na sua palavra de paz. Então, jurei ao deus da justiça não comer fruta, nem sal, nem cousa que me faça sabor na boca até vingar a sua morte.
Termina com a voz embargada pelo choro, a que se junta o pranto da assistência, tão alto e tão sentido, que Fernão se comove e também não consegue suster as lágrimas face à dor do rei dos Batas e do seu povo, acirrado pelo remorso das falsas promessas que lhes fez. Timorraja, vendo chorar o embaixador estrangeiro, ergue-se do bailéu onde estava sentado para se prostrar diante de um nicho com um pagode enfeitado com muitas flores e ervas de cheio a arder. Em voz alta tece-lhe louvores pela amizade do poderoso senhor de Malaca, inimigo de Aceh, a cuja litania a assistência dá o responso num coro de vozes estranguladas pela comoção. Prostrado como os demais em adoração, Fernão roga a Jesus Cristo perdão pela sua falsidade, justificando-se com Timorraja ser um rei idólatra e quiçá comedor de carne humana.
El-rei ergue-se, imitado por toda a assistência, e chamando Fernão para o seu lado, dirige-se em procissão para o pátio principal do seus paços, onde o esperam todos os comandantes do seu exército para assistirem ao sacrifício de um búfalo de uma brancura imaculada. Junto do animal, no centro do pátio, o sacerdote tem o rosto coberto por uma máscara de madeira, os braços e pernas tatuadas com cabeças de pássaros e de outros animais, pintados de cores vivas.