Tudo o que ele conseguiu fazer foi ficar ali, congelado, olhando-a de boca aberta.
– As espinhas desapareceram quando os seios surgiram – ela explicou, enquanto lutava com um cão –, mas mantive o bico de abutre.
Theon encontrou a voz.
– Por que não me contou?
Asha largou o cão e se endireitou.
– Quis ver primeiro quem você era. E vi – dirigiu-lhe uma meia reverência zombeteira. – E agora, irmãozinho, peço que me desculpe. Tenho de tomar banho e me vestir para o banquete. Será que ainda tenho aquele vestido de cota de malha que gosto de vestir por cima da roupa íntima de couro fervido? – deu-lhe seu sorriso perverso e atravessou a ponte com aquele andar que Theon tanto tinha gostado, em parte passeio, em parte balanço.
Quando Theon se virou, Wex estava sorrindo. Deu uma pancada na orelha do garoto:
– Isto é por estar se divertindo tanto – e outra, com mais força. – E isto é por não me avisar. Da próxima vez, arranje uma língua.
Seus aposentos na Fortaleza dos Hóspedes nunca tinham parecido tão gelados, apesar de os servos terem deixado um braseiro ardendo. Theon arrancou as botas, deixou que o manto caísse no chão e serviu-se de uma taça de vinho, recordando uma garota desajeitada com joelhos salientes e espinhas.
Pegou a taça e se dirigiu ao banco da janela, onde se sentou, bebendo e observando o mar enquanto o sol escurecia sobre Pyke.
Theon escolheu botas simples e roupas ainda mais simples, sóbrios tons de negro e cinza para combinar com seu humor. Nenhum ornamento; nada possuía que tivesse sido comprado com ferro.
O longo salão fumacento estava apinhado com os senhores e capitães do pai quando Theon entrou, quase quatrocentos. Dagmer Boca Rachada ainda não tinha voltado de Velha Wyk com os Stonehouse e os Drumm, mas todos os outros se encontravam ali; os Harlaw de Harlaw, os Blacktyde de Pretamare, os Sparr, Merlyn e Goodbrother de Grande Wyk, os Saltcliff e Sunderlie de Salésia, e os Botley e Wynch do outro lado de Pyke. Os servos ofereciam cerveja, e havia música, rabecas, foles e tambores. Três homens corpulentos dançavam a dança dos dedos, atirando uns aos outros machados de cabo curto. O truque era pegar o machado ou saltar sobre ele sem errar um passo. Chamava-se dança dos dedos porque geralmente terminava quando um dos dançarinos perdia um dedo… ou dois, ou cinco.
Nem os dançarinos nem os homens que bebiam prestaram grande atenção a Theon Greyjoy quando ele se dirigiu ao estrado. Lorde Balon ocupava a Cadeira de Pedra do Mar, esculpida em forma de uma grande lula gigante a partir de um imenso bloco de pedra negra oleosa. Rezava a lenda que os Primeiros Homens tinham-na encontrado na costa de Velha Wyk quando chegaram às Ilhas de Ferro. À esquerda do cadeirão estavam os tios de Theon. Asha estava aninhada à direita, no lugar de honra.
– Chega tarde, Theon – observou Lorde Balon.
– Peço-lhe perdão – Theon ocupou o lugar vazio ao lado de Asha. Aproximando-se, sibilou ao seu ouvido: – Está no meu lugar.
Ela se virou para ele com olhos inocentes.
– Irmão, certamente se engana. Seu lugar é em Winterfell – o sorriso de Asha cortava. – E onde estão todas as roupas bonitas? Ouvi dizer que gostava de sentir seda e veludo contra a pele – ela estava vestida de suave lã verde, com um corte simples que fazia o tecido aderir ao esbelto contorno do seu corpo.
– Seu camisão deve ter enferrujado, irmã – Theon atirou em resposta. – Uma grande pena. Gostaria de vê-la toda vestida de ferro.
Asha limitou-se a soltar uma gargalhada.