– Por meu pai! Deixarei a cidade, será como se nunca tivesse acontecido! Juro, acabarei com tudo…

Era difícil não rir.

– Acho que não.

Agora o rapaz parecia perdido.

– Senhor?

– Você ouviu. Meu pai disse-lhe para obedecer à minha irmã? Muito bem, obedeça. Fique perto dela, ganhe sua confiança, dê-lhe prazer sempre que ela pedir. Ninguém precisa de saber… Desde que trabalhe para mim. Quero saber o que Cersei anda fazendo. Aonde vai, com quem fala e do que fala, que planos anda arquitetando. Tudo. E será você quem vai me contar, não é verdade?

– Sim, senhor – Lancel falou sem um momento de hesitação. Tyrion gostou daquilo. – Serei. Juro. Às suas ordens.

– Levante-se – Tyrion encheu a segunda taça e enfiou-a na mão dele. – Beba ao nosso acordo. Garanto que não há javalis no castelo, pelo menos que eu saiba – Lancel ergueu a taça e bebeu, ainda que de forma tensa. – Sorria, primo. Minha irmã é uma bela mulher, e é tudo pelo bem do reino. Pode se sair disso bem. Um grau de cavaleiro não é nada. Se for esperto, antes de acabarmos ainda recebe de mim uma senhora – Tyrion fez girar o vinho na sua taça. – Queremos que Cersei tenha toda a confiança em você. Volte e diga-lhe que peço perdão. Diga que me assustou, que não quero conflitos entre nós, que daqui em diante nada farei sem o seu consentimento.

– Mas… Ela exige…

–Ah, eu lhe dou Pycelle.

– Dará? – Lancel pareceu espantado.

Tyrion sorriu.

– Vou soltá-lo amanhã. Podia jurar que não toquei num fio de cabelo dele, mas não seria completamente verdade. Em todo caso, ele está bastante bem, embora eu não garanta seu vigor. As celas negras não são um lugar saudável para um homem de sua idade. Cersei pode mantê-lo como animal de estimação ou mandá-lo para a Muralha, não me interessa, mas não o aceitarei no conselho.

– E Sor Jacelyn?

– Diga a minha irmã que crê que conseguirá tirá-lo de mim em breve. Isso deve contentá-la por enquanto.

– Às suas ordens – Lancel terminou o vinho.

– Só mais uma coisa. Com o Rei Robert morto, seria um grande embaraço se sua inconsolável viúva de repente ficasse prenhe.

– Senhor, eu… nós… a rainha ordenou-me que não… – as orelhas do rapaz tinham tomado o tom carmim dos Lannister. – Derramarei minha semente na barriga dela, senhor.

– Uma adorável barriga, não tenho dúvida. Umedeça-a tantas vezes quantas desejar… Mas assegure-se de que seu orvalho não caia em nenhum outro lugar. Não quero mais sobrinhos, entendido?

Sor Lancel fez uma reverência rígida e se retirou.

Tyrion concedeu a si próprio um momento para sentir pena do rapaz. Outro tolo, e também fraco, mas não merece o que Cersei e eu estamos lhe fazendo. Era bom que seu tio Kevan tivesse mais dois filhos, porque este provavelmente não chegaria ao fim do ano. Cersei mandaria matá-lo imediatamente se soubesse que a andava traindo e, se por alguma graça dos deuses, não o fizesse, Lancel nunca sobreviveria ao dia em que Jaime Lannister voltasse a Porto Real. A única questão que restava era saber se Jaime o abateria num ataque de ciúmes, ou se Cersei o assassinaria primeiro, a fim de evitar que Jaime descobrisse. A prata de Tyrion estava posta em Cersei.

Sentia-se desassossegado, e Tyrion sabia perfeitamente que não voltaria a dormir naquela noite. Não aqui, pelo menos. Deparou-se com Podrick Payne dormindo numa cadeira à porta do aposento privado, e sacudiu seu ombro.

– Chame Bronn, e depois corra aos estábulos e mande selar dois cavalos.

Os olhos do escudeiro estavam enevoados de sono.

– Cavalos.

– Aqueles grandes animais marrons que gostam de maçãs, com certeza já os viu. Quatro patas e uma cauda. Mas, primeiro, Bronn.

O mercenário não demorou a aparecer.

– Quem mijou na sua sopa? – o homem quis saber.

– Cersei, como sempre. Seria de se esperar que a essa altura já estivesse habituado ao gosto, mas, esqueça. Minha amável irmã parece ter me confundido com Ned Stark.

– Ouvi dizer que ele era mais alto.

– Depois de Joff ter cortado sua cabeça, não. Devia ter vestido uma roupa mais quente. A noite está fria.

– Vamos a algum lugar?

– Os mercenários são todos tão espertos como você?

As ruas da cidade eram perigosas, mas com Bronn a seu lado Tyrion sentia-se bastante seguro. Os guardas deixaram-nos sair por uma pequena porta na muralha norte, e eles desceram a Alameda da Sombra Negra até o sopé da Grande Colina de Aegon, e daí dirigiram-se ao Beco do Porco Corrido, passando por fileiras de janelas fechadas e altos edifícios de madeira e pedra, cujos andares superiores se estendiam tanto por cima da rua, que quase se beijavam. A lua parecia segui-los enquanto avançavam, brincando de se esconder por entre as chaminés. Não encontraram ninguém além de uma velha que arrastava um gato morto pelo rabo. Lançou-lhes um olhar temeroso, como se receasse que tentassem roubar dela o jantar, e desvaneceu-se nas sombras sem uma palavra.

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