– Pois bem – Tyrion afastou o objeto com um gesto. – Espero que minha irmã não ande abusando de suas forças tão cedo depois de sua doença. Seria uma grande pena se sofresse uma recaída.
– Sua Graça está bem recuperada – Sor Lancel disse secamente.
– Música para os meus ouvidos –
– Não preciso de ajuda para dormir – Sor Lancel respondeu. – Vim por ordem de Sua Graça, não para beber com você, Duende.
Tyrion pensou que ser armado cavaleiro tornara o rapaz mais ousado… Isso, e o triste papel que desempenhara no assassinato do Rei Robert.
– O vinho realmente tem seus perigos – Tyrion sorria enquanto servia a bebida. – Quanto ao Grande Meistre Pycelle… Se minha querida irmã está assim tão preocupada com ele, eu imaginaria que viesse em pessoa falar comigo. Mas não; manda o senhor. O que acha disso?
– Pense disso o que quiser, desde que solte o prisioneiro. O Grande Meistre é um amigo dedicado da Rainha Regente, e encontra-se sob a sua proteção pessoal – uma sugestão de zombaria brincou nos lábios do rapaz; Lancel estava gostando daquilo.
– Tal como eu sou Mão de Joffrey.
– A Mão serve – informou-o com desenvoltura o jovem cavaleiro. – A regente
– Talvez devesse escrever isso para que me lembre melhor – a lareira estalava alegremente. – Pode nos deixar, Pod – Tyrion disse ao escudeiro. Só depois de o rapaz sair, voltou-se para Lancel: – Há mais?
– Sim. Sua Graça pede-me que lhe informe que Sor Jacelyn Bywater desobedeceu a uma ordem emitida em nome do rei.
– Sei.
– Insiste que o homem seja destituído do cargo e posto sob prisão por traição. Previno-o…
Tyrion pôs a taça de lado:
– Não ouvirei avisos vindos de você, rapaz.
–
– Oh, puxe a espada. Um grito meu e Shagga entra de rompante e mata você. Com um machado, não com um odre de vinho.
Lancel corou; seria tão tonto a ponto de pensar que seu papel na morte de Robert tinha passado despercebido?
– Eu sou um cavaleiro…
– Já notei. Diga-me… Cersei armou-o cavaleiro antes ou depois de tê-lo levado para a cama?
O brilho nos olhos verdes de Lancel era toda a admissão de culpa de que Tyrion necessitava. Portanto, Varys dissera a verdade.
– O quê? Nada a dizer? Não há mais avisos para mim,
– Retire essas imundas acusações, senão…
– Faça-me o favor. Por acaso já pensou no que Joffrey fará quando lhe disser que assassinou o pai dele para dormir com sua mãe?
– Não foi assim! – Lancel protestou, horrorizado.
– Não? Então
– Foi a rainha que me deu o vinho-forte. Seu próprio pai, Lorde Tywin, quando fui nomeado escudeiro do rei, disse-me para obedecer a Cersei em tudo.
– Também disse para fodê-la? –
– Nunca pretendi… Só fiz o que me foi pedido, eu…
– … detestou cada instante... É nisso que quer que eu acredite? Uma posição elevada na corte, um grau de cavaleiro, as pernas da minha irmã abertas para você à noite, ah, sim, deve ter sido terrível para você – Tyrion ficou de pé. – Espere aqui. Sua Graça vai querer saber disso.
Todo o tom desafiador de Lancel desapareceu de uma só vez. O jovem cavaleiro caiu de joelhos como um menino assustado.
– Misericórdia, senhor, suplico-lhe.
– Guarde isso para Joffrey. Ele gosta de uma boa súplica.
– Senhor, foram ordens de sua irmã, a rainha, tal como disse, mas Sua Graça… Ele nunca compreenderá…
– Quer que eu esconda a verdade do rei?