Como adoram prometer cabeças, esses homens que querem ser reis.

– Seu irmão prometeu-me o mesmo. Mas, a bem da verdade, preferia ter minhas filhas de volta, e deixar a justiça para os deuses. Cersei ainda detém minha Sansa, e de Arya não há notícias desde o dia da morte de Robert.

– Se suas filhas forem encontradas quando eu tomar a cidade, serão enviadas – vivas ou mortas, era o que vinha implícito naquele tom de voz.

– E quando será isso, Lorde Stannis? Porto Real fica perto de sua Pedra do Dragão, mas, em vez disso, encontro-o aqui.

– É franca, Senhora Stark. Muito bem, responderei com franqueza. Para tomar a cidade, necessito das forças desses senhores do sul que vejo no campo. É meu irmão que os possui. Tenho, portanto, de tirá-los dele.

– Os homens depositam sua lealdade onde desejam, senhor. Esses senhores juraram fidelidade a Robert e à Casa Baratheon. Se o senhor e seu irmão pusessem de lado sua querela…

– Não tenho qualquer querela com Renly, se ele se mostrar respeitador. Sou seu irmão mais velho, e seu rei. Desejo apenas o que é meu por direito. Renly deve-me lealdade e obediência, e pretendo conquistá-las. Dele e desses outros senhores – Strannis estudou o rosto de Catelyn. – E que causa a traz até este campo, senhora? A Casa Stark aliou-se ao meu irmão, é isso?

Este nunca se vergará, pensou Catelyn, mas tinha de tentar mesmo assim. Havia muita coisa em jogo.

– Meu filho reina como Rei no Norte, pela vontade de nossos senhores e do povo. Não dobra o joelho perante nenhum homem, mas estende a mão em amizade a todos.

– Os reis não têm amigos – Stannis disse bruscamente –, só súditos e inimigos.

– E irmãos – gritou uma voz alegre atrás de Catelyn. Ela relanceou por cima do ombro e viu o palafrém de Lorde Renly escolhendo caminho por entre os tocos. O Baratheon mais novo estava magnífico em seu gibão de veludo verde e manto de cetim forrado de arminho. A coroa de rosas douradas cingia suas têmporas, com a cabeça de veado em jade erguendo-se sobre a testa e o longo cabelo negro derramando-se por baixo. Pedaços irregulares de diamante negro estavam incrustados em seu cinto, e uma corrente de ouro e esmeraldas enrolava-se em torno de seu pescoço.

Renly também havia escolhido uma mulher para transportar seu estandarte, embora Brienne escondesse o rosto e as formas por trás de uma armadura que não mostrava qualquer vislumbre de seu sexo. No topo da lança com três metros e meio, o veado coroado empinava-se, negro sobre ouro, quando o vento vindo do mar enrugava o tecido.

A saudação do irmão foi seca.

– Lorde Renly.

Rei Renly. É mesmo você, Stannis?

Stannis franziu a testa.

– Quem mais haveria de ser?

Renly encolheu descontraidamente os ombros.

– Quando vi esse estandarte, não consegui ter certeza. De quem é a bandeira que usa?

– Minha.

A sacerdotisa vestida de vermelho interveio.

– O rei escolheu para seu símbolo o coração em chamas do Senhor da Luz.

Renly pareceu se divertir com aquilo.

– Melhor assim. Se usássemos ambos o mesmo estandarte, a batalha seria terrivelmente confusa.

Catelyn interveio:

– Esperemos que não haja batalha. Nós três partilhamos um inimigo comum que gostaria de destruir a todos.

Stannis a estudou, sem sorrir.

– O Trono de Ferro é legitimamente meu. Todos os que negam isso são meus inimigos.

– É o reino inteiro que nega isso, irmão – Renly rebateu. – Velhos negam-no com os estertores da morte, e crianças por nascer negam-no nos ventres das mães. Negam-no em Dorne e negam-no na Muralha. Ninguém o quer como rei. Lamento.

Stannis cerrou o maxilar com uma expressão tensa no rosto.

– Jurei que nunca lidaria com você enquanto usasse sua coroa de traidor. Gostaria de ter mantido essa promessa.

– Isso é uma loucura – Catelyn se interpôs num tom áspero. – Lorde Tywin espera em Harrenhal com vinte mil espadas. O restante do exército do Regicida reagrupou-se no Dente Dourado, outra tropa Lannister reúne-se à sombra de Rochedo Casterly, e Cersei e seu filho defendem Porto Real e o seu precioso Trono de Ferro. Cada um de vocês se autodenomina rei, mas o reino sangra, e ninguém levanta uma espada para defendê-lo, a não ser meu filho.

Renly encolheu os ombros:

– Seu filho ganhou algumas batalhas. Eu vencerei a guerra. Os Lannister podem esperar.

– Se tem propostas a fazer, faça-as – Stannis os desafiou bruscamente –, senão vou embora.

– Muito bem. Proponho que desmonte, dobre o joelho e me jure fidelidade.

Stannis abafou a ira.

– Não terá isso jamais.

– Serviu a Robert, por que não a mim?

– Robert era meu irmão mais velho. Você é o mais novo.

– Mais novo, mais ousado, e muito mais agradável…

– … E também um ladrão e usurpador.

Renly encolheu os ombros:

– Os Targaryen chamavam Robert de usurpador. Ele pareceu ser capaz de suportar a vergonha. Eu também serei.

Assim não será possível, Catelyn pensou.

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