Brienne moveu-se mais depressa do que Catelyn julgaria possível. Não tinha sua espada à mão; tirou a de Renly da bainha e a ergueu para parar a queda do machado de Emmon. Uma centelha brilhou, azul-esbranquiçada, quando o aço caiu sobre aço com um estrondo dilacerante, e Brienne ficou em pé com um salto, atirando rudemente para o lado o corpo do rei morto. Sor Emmon tropeçou nele quando tentou se aproximar, e a lâmina de Brienne cortou o cabo de madeira e fez saltar a cabeça do machado num rodopio. Outro homem atirou em suas costas um archote em chamas, mas o manto arco-íris estava empapado demais de sangue para arder. Brienne girou e desferiu um golpe, e archote e mão voaram. Chamas espalharam-se pelo tapete. O homem mutilado desatou aos gritos. Sor Emmon deixou cair o machado e tateou em busca da espada. O segundo homem de armas lançou uma estocada em Brienne. A Azul parou, e as espadas dançaram e voltaram a retinir uma contra a outra. Quando Emmon Cuy retomou o ataque, Brienne foi forçada a se retirar, mas de algum modo logrou mantê-los afastados. No chão, a cabeça de Renly rolou repugnantemente para um lado, e uma segunda e terrível boca escancarou-se, com o sangue agora saindo em ondas lentas.
Sor Robar tinha ficado para trás, incerto, mas agora estendia a mão até o cabo da espada.
– Robar, não, escute – Catelyn o agarrou pelo braço. – Estão cometendo uma injustiça, não foi ela.
O jovem cavaleiro do arco-íris fitou aquela louca com olhos claros e assustados.
– Stannis? Como?
– Não sei. Feitiçaria, alguma magia negra, havia uma sombra, uma
Aquilo o fez se decidir.
– Eu os conterei – Sor Robar respondeu. – Leve-a – então, virou-se e saiu.
O fogo tinha chegado à parede e subia pelo lado da tenda. Sor Emmon pressionava duramente Brienne, ele vestido de aço esmaltado amarelo e ela de lã. Esquecera Catelyn, até que o braseiro de ferro se esmagou contra sua nuca. Como estava com o elmo, o golpe não fez nenhum mal duradouro, mas deixou-o de joelhos.
– Brienne, comigo – Catelyn ordenou. A moça não foi lenta para ver a oportunidade. Um golpe e a seda verde abriu-se. Saíram para a escuridão e o frio da alvorada. Vozes alteradas vinham do outro lado do pavilhão. – Por aqui – pediu Catelyn –, e devagar. Não devemos correr, senão vão nos perguntar por quê. Caminhe descontraída, como se nada houvesse de errado.
Brienne enfiou a espada no cinto e pôs-se ao lado de Catelyn. O ar da noite cheirava a chuva. Atrás delas, o pavilhão do rei ardia, com as chamas erguendo-se, altas, contra a escuridão. Ninguém fez um movimento para pará-las. Homens passavam por elas correndo, gritando sobre fogo, assassinato e feitiçaria. Outros reuniam-se em pequenos grupos e conversavam em voz baixa. Alguns rezavam, e um jovem escudeiro estava de joelhos, soluçando abertamente.
As forças de Renly já começavam a se desagregar à medida que os rumores se espalhavam de boca em boca. As fogueiras noturnas estavam quase extintas e, à medida que o leste começava a se iluminar, a imensa massa de Ponta Tempestade ia emergindo como um sonho de pedra, enquanto farrapos de névoa branca corriam pelo campo, fugindo do sol em asas de vento. Catelyn ouvira um dia a Velha Ama chamá-los de
– Nunca o tive nos braços, a não ser quando morreu – disse Brienne em voz baixa enquanto caminhavam por entre o crescente caos. A voz soava como se fosse se quebrar a qualquer instante. – Num momento estava rindo, e de repente havia sangue por todo lado… Senhora, não compreendo. Você viu, você…?
– Vi uma sombra. Pensei a princípio que fosse a sombra de Renly, mas era a do irmão.
– Lorde Stannis?
–
Fazia sentido suficiente para Brienne.
– Vou matá-lo – declarou a moça alta e simples. – Com a espada do meu senhor, vou matá-lo. Juro. Juro. Juro.
Hal Mollen e o resto de sua escolta esperavam com os cavalos. Sor Wendel Manderly coçava-se para saber o que estava acontecendo.
– Senhora, o acampamento enlouqueceu – exclamou ao vê-las. – Lorde Renly, ele está… – parou de súbito, com os olhos fitos em Brienne e no sangue que a ensopava.